Breve História da Anestesia

Carta aberta a William T. G. Morton

Meu caro William Morton,

Abraços.

Conversando com o colega Esaú, ele perguntou-me se eu tinha notícias suas, ao que respondi que você andava meio macambúzio, coisa da idade, que nos deixa meio sorumbáticos. Relembramos o tempo em que costumávamos presenciar as demonstrações de Colton com o gás hilariante, admiramos o poder de observação do nosso saudoso dentista Horace Wells que mudou a história da humanidade. Assistíamos uma dessas exibições quando um sujeito que inalou o gás contido numa bexiga de animal, bateu com a perna na quina de um banco e não sentiu nenhuma dor. Wells começou a usa-lo no seu próprio consultório e no dia 10 de dezembro de 1844 solicitou a seu colega Riggs que lhe extraísse um dente sob o efeito do óxido nitroso. Não sentiu nada! Entusiasmado resolver sair da pequena Hartford, em Connecticut, para fazer uma demonstração para o pedante John Collins Warren, professor de cirurgia de Harvard.

Encontrava-me na primeira fila do anfiteatro do Massachusetts General Hospital, em Boston, naquele fatídico dia de 1844, quando Wells fez, com o seu auxílio, a primeira experiência com o gás hilariante.

Naquele dia deu azar porque o paciente era obeso e alcoolista e além do mais vocês usaram o protóxido de azoto a 100%, o que causou uma hipóxia do homem ficar roxo, quase morre, coitado...

Decepcionado com o fracasso o nosso amigo Wells caiu na sarjeta e acabou cortando os pulsos numa prisão de Nova York. Mas, diz um carcereiro que, antes de cometer o tresloucado ato, ele cheirou éter, no qual era viciado, para não sentir dor... pode ser folclore.

Quis o destino que eu também me encontrasse no dia 16 de outubro de 1846 no mesmo anfiteatro assistindo a sua exibição. Lembro-me que você só conseguiu marcar a demonstração porque cursava o segundo ano de medicina e era dentista. Dessa vez o dietil éter funcionou, apesar da irritação de Collins Warren, o cético cirurgião que quase suspende a cirurgia por causa do seu atraso, o qual, aliás, tornou-se uma rotina para alguns anestesiologistas, aqui no Brasil. O senhor Gilbert Abbott, o paciente, foi bastante beneficiado e Collins, ao final, quando disse aquela célebre frase – “Senhores, isto não é uma farsa!” – mal sabia que estava inaugurando uma nova era na medicina: a cirurgia sem dor, ou seja, a possibilidade de se realizar cirurgias bem programadas, sem pressa, e, o mais importante, com a sobrevivência do paciente.

Semana passada completei 170 anos. Naquele fracasso do amigo Wells eu tinha 14 anos. Para você ver como o tempo passa rápido, a anestesia como ciência, completou no dia 16 de outubro, deste último ano do século XX, 154 anos. De lá para cá muita coisa aconteceu. Sem querer ser chato, pois sei que você tem acompanhado essa evolução aí nos States, vamos relembrar alguns fatos. Aliás, aqui no Brasil tem um xará seu que anda operando sem anestesia. Adotou como pseudônimo exatamente o seu nome: William Thomas Green Morton. Mas deixa esse vigarista pra lá, vamos à história.

O termo anestesia, foi sugerido pelo Dr. Oliver Wendell Holmes. Foram momentos difíceis que você passou, por conta de algumas demonstrações que fracassaram, mas valeu a pena, pois você acabou ganhando o título de benfeitor da humanidade, dado pelo Presidente Pierce.

O primeiro médico especialista em anestesia foi o londrino John Snow que ficou famoso quando, em 7 de abril de 1853, anestesiou a rainha Victória com clorofórmio para o nascimento do príncipe Leopoldo, que ficou conhecida como anestesie a la reine, anestesia á moda da rainha. Snow escreveu alguns livros, On the Inhalation of the Vapour of Ether, de 1847 e On Chloroform and Other Anesthetics, onde chegou a analisar alguns casos de morte por paralisia cardíaca.

Outra grande figura foi o nosso amigo catedrático de obstetrícia de Edinburgo, James Young Simpson. Quando soube do seu sucesso, imediatamente começou a usar o éter e depois o clorofórmio para o parto sem dor. A intransigência do clero e do público não foi fácil. Simpson, baixo, gordo, e inteligentíssimo, combatia a oposição dos padres que alegavam que em gênesis dizia que darás  teus filhos á luz com dor, lembrando que Deus quando criar a mulher, fez com que Adão caísse em sono profundo para poder extirpar-lhe a costela. Dessa forma Deus teria sido, modestamente o primeiro anestesiologista da história. A população aquietou-se depois que a própria rainha submeteu-se á anestesia. Virou até moda.

Na época dizia-se que para o éter deveríamos observar a respiração e para o clorofórmio o pulso. Sorte tivemos nós, longevos, pois jamais imaginaríamos os centros cirúrgicos de hoje, parece uma brincadeira: oximetria de pulso, pressão arterial automática, pressão endotraqueal, eletrocardioscopia, respiração controlada por respiradores artificiais, cirurgias videolaparoscópicas... isso sem falar em monitorizações mais invasivas como a pressão arterial média contínua, a pressão venosa central, da pressão capilar pulmonal, pressão intercraniana e por aí vai...

Não esqueço a invenção da agulha por La Fargue, na França, pois até então os fármacos eram administrados por fricção na pele ou através de uma incisão. O irlandês Rynd inventou a agulha metálica, o francês Charles Gabriel Pravaz a seringa hipodérmica em 1851 que foi aperfeiçoada por Alexander Wood em 1854.

Koller, oftalmologista da Bohemia, influenciado por Sigmund Freud, em 1884 instilou cocaína nos olhos dos seus pacientes conseguindo efetuar cirurgias sem dor.

William Halstead, em 1885, iniciou o uso da cocaína – o primeiro anestésico local    para realizar um bloqueio de nervo. Já em 1885 Leonard Corning realizou peridural em cachorros, depois Cathelin em 1901. Quincke em 1891 estabeleceu os princípios da raquianestesia, mas foi August Bier o primeiro a fazer uma raque no homem, no já distante 1898.

Seria cansativo relembrar-lhe as diversas evoluções nos sistemas anestésicos, na medição da pressão arterial, nos circuitos com reinalação de gás carbônico. Pioneiros como Hewittt, Probyn Williams, Ombredanne, McKesson, Richard von Foregger, até o anestesiômetro de Karl Connel. Dos circuitos fechados, para aproveitar melhor os anestésicos, passou-se ao aberto de 1895 a 1945, depois ao semifechado que predomina até os nossos dias. Nomes mais recentes como o de James Gwathmey, Arthur Guedel  e os seus sinais de profundidade anestésica, Ralph Waters, Wesley Bourne, Ivan Magill, Emery Rovenstine, Gaston Labat, surgem na nossa já cansada memória como verdadeiros heróis de tempos difíceis.

A meu ver um dos dois maiores inventos foi a cânula endotraqueal de Trendelenburg, 1871, que hoje é mais lembrado pela posição de céfalo-declive, tendo sido aperfeiçoada por Magill em 1920 e o laringoscópio de Jackson.

Os atuais aparelhos sofisticados de anestesia, que a maioria chamam de carro, carrinho, talvez por custarem mais do que modernos automóveis, passou por modificações: desde o aparelho Nargraff, de McKesson, 1929, até o reconhecimento da anestesia como especialidade em 1940.

As misturas do anestésico com oxigênio representam um grande passo na evolução. Chegamos a esse estado atual de organização, pesquisa e segurança, graças ao esforço e genialidade desses precursores.

As pesquisas no campo da química nos fez evoluir da dormideira, da mandrágora, do álcool e de métodos exóticos, como o estrangulamento empregado pelos assírios, a concussão cerebral, o frio intenso e a compressão de nervos para métodos em permanente evolução como a neuroleptoanalgesia, anestesia analgésica, seqüencial, alvo controlada, venosa pura, balanceada, com  um índice de segurança e previsibilidade cada vez mais próximo da perfeição.

Caro Morton, quero parabeniza-lo mais uma vez relembrando um velho provérbio que diz que o homem que desdenha do passado esta condenado a repeti-lo.

Receba um forte abraço do amigo que, com você, teve o privilegio de acompanhar todo esse progresso. Se ainda vivermos 100 anos daremos boas gargalhadas do que hoje achei que seria quase a perfeição... disso não tenho dúvidas.

 

Armando Negreiros. 

Anestesia em Revista. N° 05/2000  -  set/out.