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O eterno retorno
Este ano faço trinta anos de formado, vejo a vida passando, principalmente no exercício da minha profissão (médico neurologista). Todo dia na enfermaria do hospital onde trabalho, vejo pessoas em coma, ou morrendo de patologias neurológicas. Atendo pessoas que, de um dia para outro começam a perder a razão, com doenças demenciais. Em outras palavras
convivo com o sofrimento dos doentes e com as dores dos familiares. Aprendi
a ser forte nesta labuta. A tentar não sofrer a dor dos outros
e, a não perder a esperança de levar algum conforto ao amenizar
a dor do próximo e dos seus familiares. Esta é a parte que o criador me mandou fazer e de onde sustento a mim, meus empregados e a minha família. Às vezes divago, se poderia ter sido mais feliz em outra profissão - se trabalhasse com turismo? Viveria viajando cada dia seria diferente. Se fosse astro do Rock? Teria uma vida repleta de belas emoções com carros de luxo e mulheres bonitas a me rodear. E se fosse escritor? Teria mais tempo para mim, acordaria e trabalharia a hora que melhor me conviesse. Mas, esta não foi a minha parte nos planos daquele que me criou. Fui criado para estar presente nas horas de maior dor e sofrimento do ser humano, à hora da doença. Confesso que dias me sinto cansado e depressivo desta luta. No entanto quando tiro férias me pego doido para voltar para os meus doentes. Tenho uma satisfação que não sei explicar, quando vejo alguém que caminhavam as portas da morte e ajudei a viver. Este prazer acho que nenhum guia turístico, astro do Rock ou escritor terá. Este é impar e é só meu. Como não fui convidado a vir a este mundo, após os meus cinqüenta anos, venho pensando a cada dia que nasce no meu retorno, como e quando será? Não que eu esteja querendo retornar em breve, mas é inconcebível a esta altura da vida não pensar. E vocês já pensaram também no retorno, para onde irão o que vão encontrar ou esta aventura de viver é simplesmente única? As pessoas que mais amei e que já se foram nunca vieram me dizer. |