Garanhuns, 14 de julho de 2007
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OPINIÃO
 

EDITORIAL


GARANHUNS SEM HUMBERTO

Era um homem franzino, tímido, modesto como a cidadezinha que o jogou no mundo: a pequena Calçado, espremida entre Jupi, Lajedo e Garanhuns. Mas foi aqui, entre as sete colinas, que Humberto Alves de Moraes exerceria um papel importante como homem público, jornalista e radialista.

Nas décadas de 60 e 70, principalmente, a força do seu pensamento influenciou milhares de pessoas em Garanhuns e todo o Agreste Meridional. Betinho, como era chamado carinhosamente pelos amigos, escrevia crônicas memoráveis que eram lidas pelos locutores da então Rádio Difusora, durante muito tempo a única emissora da cidade e toda região.

"O Comentário do Almoço". Com esse título o programa foi ao ar durante anos, arrebatando uma legião de admiradores e fazendo a cabeça de jovens e adultos, comerciários e profissionais liberais, agricultores e domésticas, numa época em que nem ao menos se podia sonhar com videocassete, DVD e muito menos internet.

Mas as palavras de Humberto eram ouvidas, se multiplicavam pelas ruas, e ainda mais que o jornalista também produzia nos periódicos da cidade, especialmente no respeitado O Monitor, que marcou época.

Uma coluna que assinava no jornal da prefeitura, chamava a atenção já pelo título, um acinte ou uma porrada em cima dos políticos: "Calçando 40". Mas como, se ele mesmo, o Betinho, era um político?

Sim, além de redator de rádios e jornais, criador do Grêmio Cultural Ruber van der Linden e Academia de Letras de Garanhuns, Humberto de Moraes tinha a política nas veias. Seu pai, Raimundo de Moraes, foi vereador do município e hoje dá nome ao Legislativo garanhuense.

E o inquieto jornalista foi político militante, de filiação partidária definida, num tempo de cerceamento da liberdade e restrições ao pensamento dos democratas. Era a ditadura, que só permitia dois partidos em cena: o velho MDB e a ARENA. Este último defendendo os princípios do golpe militar de 1964 e o primeiro fazendo oposição ao regime dos generais.

Humberto foi vice-prefeito de Luís Souto Dourado, foi vereador duas vezes (numa das legislaturas foi o mais votado do município) e ainda arranjou um tempo para dar aulas de jornalismo, para turmas de ensino médio, no centenário Colégio Quinze de Novembro.

Garanhuns sem Humberto é Garanhuns sem Mário Matos, sem Monsenhor Adelmar, sem Ivonita Guerra, sem o Professor Lustosa, sem Ivo de Souza, sem Padre Tarcísio, sem Zi Ferreira, sem Jaime Pinheiro, sem a professora Eva, sem Manoel Cipriano, sem Manoel Gouveia, sem Michel Zaidam, sem S. Moraes... Sem tantos outros que construíram a cidade com a sua voz, a sua pena, a sua boa vontade e inteligência.

O nosso Betinho, que de certo modo lembra o outro, o da luta contra a fome, o irmão de Henfil, morreu pobre, como viveu durante toda a sua vida.

Não deixa fazendas, apartamentos na praia, carros ou boiadas.

A sua herança é a vida honrada que teve. Suas "teimosias", os contos guardados na gaveta, a voz que ecoa distante - na inesquecível "Cidade em Foco" -, o exemplo da coragem e da coerência.

E esse exemplo de militante político e da imprensa teve seguidores em quase todas as cidades da região: Pedro Araújo, Gildo Marques e Zé Gila, em Capoeiras; Dr. Altino, em São Bento do Una; José Cavalcanti e depois Ademar Inácio, em Jupi. O próprio Rômulo Tenório, de Iati, e Paulo Lins, de Itaíba, certamente sofreram a influência de Betinho.

Garanhuns homenageou com justiça, durante o FLIG, o paraibano Ariano Suassuna. Agora, no Festival de Inverno, vai, já na abertura, saudar o grande cantor e compositor Luiz Gonzaga. Esperemos que encontrem uma oportunidade de fazer também uma grande homenagem a Humberto de Moraes. Ainda mais que o atual prefeito, Luiz Carlos de Oliveira, é também de Calçado, que nos brindou com a sobriedade de um e a doçura do outro.