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EDITORIAL
GARANHUNS SEM HUMBERTO
Era um homem franzino, tímido, modesto como a cidadezinha
que o jogou no mundo: a pequena Calçado, espremida entre
Jupi, Lajedo e Garanhuns. Mas foi aqui, entre as sete colinas, que
Humberto Alves de Moraes exerceria um papel importante como homem
público, jornalista e radialista.
Nas décadas de 60 e 70, principalmente, a força do
seu pensamento influenciou milhares de pessoas em Garanhuns e todo
o Agreste Meridional. Betinho, como era chamado carinhosamente pelos
amigos, escrevia crônicas memoráveis que eram lidas
pelos locutores da então Rádio Difusora, durante muito
tempo a única emissora da cidade e toda região.
"O Comentário do Almoço". Com esse título
o programa foi ao ar durante anos, arrebatando uma legião
de admiradores e fazendo a cabeça de jovens e adultos, comerciários
e profissionais liberais, agricultores e domésticas, numa
época em que nem ao menos se podia sonhar com videocassete,
DVD e muito menos internet.
Mas as palavras de Humberto eram ouvidas, se multiplicavam pelas
ruas, e ainda mais que o jornalista também produzia nos periódicos
da cidade, especialmente no respeitado O Monitor, que marcou época.
Uma coluna que assinava no jornal da prefeitura, chamava a atenção
já pelo título, um acinte ou uma porrada em cima dos
políticos: "Calçando 40". Mas como, se ele
mesmo, o Betinho, era um político?
Sim, além de redator de rádios e jornais, criador
do Grêmio Cultural Ruber van der Linden e Academia de Letras
de Garanhuns, Humberto de Moraes tinha a política nas veias.
Seu pai, Raimundo de Moraes, foi vereador do município e
hoje dá nome ao Legislativo garanhuense.
E o inquieto jornalista foi político militante, de filiação
partidária definida, num tempo de cerceamento da liberdade
e restrições ao pensamento dos democratas. Era a ditadura,
que só permitia dois partidos em cena: o velho MDB e a ARENA.
Este último defendendo os princípios do golpe militar
de 1964 e o primeiro fazendo oposição ao regime dos
generais.
Humberto foi vice-prefeito de Luís Souto Dourado, foi vereador
duas vezes (numa das legislaturas foi o mais votado do município)
e ainda arranjou um tempo para dar aulas de jornalismo, para turmas
de ensino médio, no centenário Colégio Quinze
de Novembro.
Garanhuns sem Humberto é Garanhuns sem Mário Matos,
sem Monsenhor Adelmar, sem Ivonita Guerra, sem o Professor Lustosa,
sem Ivo de Souza, sem Padre Tarcísio, sem Zi Ferreira, sem
Jaime Pinheiro, sem a professora Eva, sem Manoel Cipriano, sem Manoel
Gouveia, sem Michel Zaidam, sem S. Moraes... Sem tantos outros que
construíram a cidade com a sua voz, a sua pena, a sua boa
vontade e inteligência.
O nosso Betinho, que de certo modo lembra o outro, o da luta contra
a fome, o irmão de Henfil, morreu pobre, como viveu durante
toda a sua vida.
Não deixa fazendas, apartamentos na praia, carros ou boiadas.
A sua herança é a vida honrada que teve. Suas "teimosias",
os contos guardados na gaveta, a voz que ecoa distante - na inesquecível
"Cidade em Foco" -, o exemplo da coragem e da coerência.
E esse exemplo de militante político e da imprensa teve
seguidores em quase todas as cidades da região: Pedro Araújo,
Gildo Marques e Zé Gila, em Capoeiras; Dr. Altino, em São
Bento do Una; José Cavalcanti e depois Ademar Inácio,
em Jupi. O próprio Rômulo Tenório, de Iati,
e Paulo Lins, de Itaíba, certamente sofreram a influência
de Betinho.
Garanhuns homenageou com justiça, durante o FLIG, o paraibano
Ariano Suassuna. Agora, no Festival de Inverno, vai, já na
abertura, saudar o grande cantor e compositor Luiz Gonzaga. Esperemos
que encontrem uma oportunidade de fazer também uma grande
homenagem a Humberto de Moraes. Ainda mais que o atual prefeito,
Luiz Carlos de Oliveira, é também de Calçado,
que nos brindou com a sobriedade de um e a doçura do outro.
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