Garanhuns, 30 de junho de 2007
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HUMOR

Raulzito


TELEVISÃO PRA RELAXAR E GOZAR

Nem tudo que se faz na TV Aberta é de se jogar fora. Tirando as chatices do Faustão, a breguiçe do Raul Gil e a cara de anjo piedoso do Gugu, admiro a criatividade dos autores de novela, tenho verdadeiros orgasmos com os escândalos denunciados no Jornal Nacional e tarde da noite, nas minhas insônias, ficou a me perguntar: mas por que não valorizam mais a Ana Paula Padrão? Eu ia bem ficar altas horas, vendo a cara do Serginho...

Contudo, no que eu me amarro mesmo, na televisão, apesar do pouco tempo disponível para vê-la (como se fosse uma deusa ou pelo menos uma bela mulher), além da sessão da tarde, na Globo, que repete centenas de vezes aqueles filmes bobinhos, são os programas vespertinos com dramas da vida familiar.

E aí, quem brilha não é a emissora do plim-plim e sim as pouco prestigiadas SBT (Sistema Brasileiro do Tesão), Rede Pânico na TV, Record do Reino de Deus e a Bandeirantes. Esta última, por sinal, é a musa inspiradora da minha crônica desta quinzena. E nem pense que é por conta da vibração de Luciano do Vale, ao narrar qualquer dos jogos do Campeonato Nacional da 2ª Divisão.
Não, o que chamou a atenção do escriba, uma tarde dessas, foi um programa comandado por uma tal de Márcia, que mostra na telinha de 14 as mesmas histórias mirabolantes que passam na telona de 42 polegadas do meu primo Pedro.

São coisas de fazer chorar. E de fazer rir também. Homens e mulheres da classe média baixa ou baixíssima da periferia de São Paulo que revelam diante das câmeras as mais incríveis histórias que a ficção é incapaz de contar. Sai de tudo, tem hora que mais parece um puteiro eletrônico.

Imagine o meu caro leitor e leitora, cansados das pornografias dos políticos, que outro dia a Marcinha (tô falando da apresentadora) entrevistou no seu edificante programa uma modesta morena (não chegava a ser negra, portanto não se trata de racismo disfarçado) que já tinha sido até capa de revista de fofocas. O motivo para a fama da moça: ele confessava já ter traído o marido 40 vezes. 40! Isso mesmo, um número assim, redondo, digno de figurar na urna eletrônica representando um candidato a prefeito, governador ou quem sabe até a presidente da República.

Assisti ao programa ladeado (olha aí a linguagem chique, influência do colunismo social) pela minha eterna namorada Viviane que usava saia curtíssima, obrigando-me a desviar os olhos de vez em quando para o sofá, a fim de relaxar um pouquinho.

Mas a super traíra, que infelizmente, por conta de uma cruzada de pernas da Viviane, esqueci de anotar o nome, disse à Márcia, aos presentes ao auditório da Band e aos talvez milhões de telespectadores por esse país, que na verdade tinha traído o marido 86 vezes. A revista de fofocas minimizara nas contas.

Explicou que o seu companheiro era grosseiro, desatento, na maioria das vezes quando estava em casa não lhe fazia um mísero carinho. Daí, a vontade de botar gaia foi surgindo naturalmente, virou mania, como jogar na Sorte e quando ela se deu conta já tava feito Romário: somando tudo para ver se chega ao milésimo ou pelo menos centésimo gol!.

Mas não pensem que o programa da tal Márcia trata essas questões superficialmente. Não! É coisa séria e tem até psicóloga pra analisar os desvios de comportamento. Com relação a essa marida mesmo, mãe de três filhos e responsável por tantas pontas no infeliz do maridão, a doutora foi sucinta no diagnóstico: "Você sofre de uma compulsão"! E eu entendi logo que a moça devia estar com uma espécie de vício e não conseguia controlar o bicho lá entre as pernas dela.

A traidora, coitadinha, ao ouvir as palavras da doutora se revelou ingênua ou inocente como o Vavá (o irmão de Lula, pra quem não acompanha as notícias nem pela televisão) e concordou de imediato com a discípula de Freud.

- Deve ser isso mesmo. Pois ontem à noite mesmo, no hotel em que a produção do programa me hospedou, eu vi um cara e pô, trai novamente meu marido.

Não deixou claro se aquele urso era o 86º ou 87º de sua eletrizante contagem. O auditório riu, o marido (também presente ao programa, acredite) fechou a cara e Márcia, de forma eu diria que até elegante deu a sua lição de moral na mocinha compulsiva.

No final, fechando o educativo programa, a mulher traíra, novamente ingenuamente, pediu perdão ao marido. Disse que estava arrependida de tanto trepar (o termo chulo aqui vai por conta do colunista) e queria voltar pra casa.

Como não se tratava da novela das seis, não houve final feliz. O marido não aceitou a mulher de volta, disse que ela fosse cuidar da vida dela. Um coração duro, o desse rapaz. Se ele fosse senador da República, como o Renan do Calheiro, garanto logo que arranjava um monte de colegas solidários e saía da história toda sem um arranhão ou mesmo sem nenhum ponta. E nem precisava fazer uma CPI.

Quem sabe num dos próximo programas a Márcia leva o próprio Renan e a jornalista Mônica pra gente saber as verdades que a imprensa não mostra no escândalo do senado.

Outro programa arretado seria com a sexóloga-ministra Marta Suplicy, de bem com a vida, aconselhando os brasileiros - como se estivessse escrevendo livro de auto-ajuda - a esquecer a crise nos aeroportos, o desemprego e o salário-mínimo.

Tudo se resolve! Pra tudo tem jeito! É só não levar a vida tão a sério, relaxar e gozar.

Mais ou menos como fez a moça que cansada da falta de carinho do marido começou a colecionar homens. Não tenho certeza se ela relaxou e gozou todas às vezes, ela não disse isso no programa, mas que o cara é pra lá de corno, disso eu não tenho a menor dúvida.

O jeito é ele esquecer tudo, relaxar e gozar também, pois todos são filhos de Deus, não somente o senador Renan e a sexóloga Marta Suplicy.

- Concorda comigo, Viviane?

Diante de minha pergunta, feita na maior ingenuidade, Viviane acendeu os olhos, desligou a televisão e determinou: "Vamos, precisamos relaxar". E não deixou nem eu me recuperar da reação disparou o complemento: "É pena que tu não trabalhe pelo menos na TV Asa Branca. Melhor ainda se fosse senador, aí minha vida tava garantida".