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HUMOR
Raulzito
TELEVISÃO PRA RELAXAR E GOZAR
Nem tudo que se faz na TV Aberta é de se jogar fora. Tirando
as chatices do Faustão, a breguiçe do Raul Gil e a
cara de anjo piedoso do Gugu, admiro a criatividade dos autores
de novela, tenho verdadeiros orgasmos com os escândalos denunciados
no Jornal Nacional e tarde da noite, nas minhas insônias,
ficou a me perguntar: mas por que não valorizam mais a Ana
Paula Padrão? Eu ia bem ficar altas horas, vendo a cara do
Serginho...
Contudo, no que eu me amarro mesmo, na televisão, apesar
do pouco tempo disponível para vê-la (como se fosse
uma deusa ou pelo menos uma bela mulher), além da sessão
da tarde, na Globo, que repete centenas de vezes aqueles filmes
bobinhos, são os programas vespertinos com dramas da vida
familiar.
E aí, quem brilha não é a emissora do plim-plim
e sim as pouco prestigiadas SBT (Sistema Brasileiro do Tesão),
Rede Pânico na TV, Record do Reino de Deus e a Bandeirantes.
Esta última, por sinal, é a musa inspiradora da minha
crônica desta quinzena. E nem pense que é por conta
da vibração de Luciano do Vale, ao narrar qualquer
dos jogos do Campeonato Nacional da 2ª Divisão.
Não, o que chamou a atenção do escriba, uma
tarde dessas, foi um programa comandado por uma tal de Márcia,
que mostra na telinha de 14 as mesmas histórias mirabolantes
que passam na telona de 42 polegadas do meu primo Pedro.
São coisas de fazer chorar. E de fazer rir também.
Homens e mulheres da classe média baixa ou baixíssima
da periferia de São Paulo que revelam diante das câmeras
as mais incríveis histórias que a ficção
é incapaz de contar. Sai de tudo, tem hora que mais parece
um puteiro eletrônico.
Imagine o meu caro leitor e leitora, cansados das pornografias
dos políticos, que outro dia a Marcinha (tô falando
da apresentadora) entrevistou no seu edificante programa uma modesta
morena (não chegava a ser negra, portanto não se trata
de racismo disfarçado) que já tinha sido até
capa de revista de fofocas. O motivo para a fama da moça:
ele confessava já ter traído o marido 40 vezes. 40!
Isso mesmo, um número assim, redondo, digno de figurar na
urna eletrônica representando um candidato a prefeito, governador
ou quem sabe até a presidente da República.
Assisti ao programa ladeado (olha aí a linguagem chique,
influência do colunismo social) pela minha eterna namorada
Viviane que usava saia curtíssima, obrigando-me a desviar
os olhos de vez em quando para o sofá, a fim de relaxar um
pouquinho.
Mas a super traíra, que infelizmente, por conta de uma cruzada
de pernas da Viviane, esqueci de anotar o nome, disse à Márcia,
aos presentes ao auditório da Band e aos talvez milhões
de telespectadores por esse país, que na verdade tinha traído
o marido 86 vezes. A revista de fofocas minimizara nas contas.
Explicou que o seu companheiro era grosseiro, desatento, na maioria
das vezes quando estava em casa não lhe fazia um mísero
carinho. Daí, a vontade de botar gaia foi surgindo naturalmente,
virou mania, como jogar na Sorte e quando ela se deu conta já
tava feito Romário: somando tudo para ver se chega ao milésimo
ou pelo menos centésimo gol!.
Mas não pensem que o programa da tal Márcia trata
essas questões superficialmente. Não! É coisa
séria e tem até psicóloga pra analisar os desvios
de comportamento. Com relação a essa marida mesmo,
mãe de três filhos e responsável por tantas
pontas no infeliz do maridão, a doutora foi sucinta no diagnóstico:
"Você sofre de uma compulsão"! E eu entendi
logo que a moça devia estar com uma espécie de vício
e não conseguia controlar o bicho lá entre as pernas
dela.
A traidora, coitadinha, ao ouvir as palavras da doutora se revelou
ingênua ou inocente como o Vavá (o irmão de
Lula, pra quem não acompanha as notícias nem pela
televisão) e concordou de imediato com a discípula
de Freud.
- Deve ser isso mesmo. Pois ontem à noite mesmo, no hotel
em que a produção do programa me hospedou, eu vi um
cara e pô, trai novamente meu marido.
Não deixou claro se aquele urso era o 86º ou 87º
de sua eletrizante contagem. O auditório riu, o marido (também
presente ao programa, acredite) fechou a cara e Márcia, de
forma eu diria que até elegante deu a sua lição
de moral na mocinha compulsiva.
No final, fechando o educativo programa, a mulher traíra,
novamente ingenuamente, pediu perdão ao marido. Disse que
estava arrependida de tanto trepar (o termo chulo aqui vai por conta
do colunista) e queria voltar pra casa.
Como não se tratava da novela das seis, não houve
final feliz. O marido não aceitou a mulher de volta, disse
que ela fosse cuidar da vida dela. Um coração duro,
o desse rapaz. Se ele fosse senador da República, como o
Renan do Calheiro, garanto logo que arranjava um monte de colegas
solidários e saía da história toda sem um arranhão
ou mesmo sem nenhum ponta. E nem precisava fazer uma CPI.
Quem sabe num dos próximo programas a Márcia leva
o próprio Renan e a jornalista Mônica pra gente saber
as verdades que a imprensa não mostra no escândalo
do senado.
Outro programa arretado seria com a sexóloga-ministra Marta
Suplicy, de bem com a vida, aconselhando os brasileiros - como se
estivessse escrevendo livro de auto-ajuda - a esquecer a crise nos
aeroportos, o desemprego e o salário-mínimo.
Tudo se resolve! Pra tudo tem jeito! É só não
levar a vida tão a sério, relaxar e gozar.
Mais ou menos como fez a moça que cansada da falta de carinho
do marido começou a colecionar homens. Não tenho certeza
se ela relaxou e gozou todas às vezes, ela não disse
isso no programa, mas que o cara é pra lá de corno,
disso eu não tenho a menor dúvida.
O jeito é ele esquecer tudo, relaxar e gozar também,
pois todos são filhos de Deus, não somente o senador
Renan e a sexóloga Marta Suplicy.
- Concorda comigo, Viviane?
Diante de minha pergunta, feita na maior ingenuidade, Viviane acendeu
os olhos, desligou a televisão e determinou: "Vamos,
precisamos relaxar". E não deixou nem eu me recuperar
da reação disparou o complemento: "É pena
que tu não trabalhe pelo menos na TV Asa Branca. Melhor ainda
se fosse senador, aí minha vida tava garantida".
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