Garanhuns, 30 de junho de 2007
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CULTURA
 

A pureza em José Lins do Rego

José Lins do Rego nasceu no Engenho Corredor, município de Pilar, Estado da Paraíba. Estudou um tempo em Itabaiana, depois se fixou no Recife, passando a cursar Direito na histórica faculdade hoje instalada nas proximidades do Parque 13 de maio. Chegou a exercer a magistratura em Minas Gerais, mas terminou se apaixonando pela literatura e pelo jornalismo, que praticaria intensamente quando passou a morar no Rio de Janeiro, então capital da República. Apaixonado por futebol, colaboraria com o Globo, Diário Associados e Jornal dos Esportes.

O nome do paraibano ficaria mesmo na memória dos brasileiros de Norte a Sul graças aos livros que publicou, a maioria deles mostrando como foi o ciclo da cana-de-açúcar no Nordeste. Estreou com "Menino de Engenho", um pequeno volume singelo que conquistou crítica e público já no primeiro momento. Depois viriam outros: Doidinho, Moleque Ricardo, Usina, Pedra Bonita, Riacho Doce, Banguê, Eurídice e Fogo Morto. Os primeiros são leves, poéticos, como a obra inicial, mas há também narrativas densas, duras, como acontece por exemplo em "Fogo Morto".

Um dos livros desse grande escritor, que guardo com carinho na estante, é "Pureza", em sua 7ª edição pela Editora José Olympio, com ilustrações do nosso querido (principalmente por ser garanhuense) Luiz Jardim, este autor de uma obra literária significativa, notadamente no campo da ficção infantil.

Sou daqueles que acreditam que escritores como José Lins, Graciliano Ramos, Lima Barreto, Jorge Amado, Machado de Assis, Raquel de Queiroz, o romântico José de Alencar, Mário de Andrade, Clarice Lispector e Érico Verissimo são mesmo imortais. Muito do que escreveram jamais perderá a atualidade, por isso precisam sempre ser lidos e relidos.

Mas neste breve ensaio, gostaria apenas de relembrar o autor de "Menino de Engenho", enfocando especialmente o romance "Pureza". Certamente não é a sua obra prima, nem tenho certeza se foi levado ao cinema e a televisão, como é o caso do seu livro de estréia, de "Fogo Morto" e de "Riacho Doce", este último tendo até inspirado mini-série da Globo.

"Pureza" é dedicado ao poeta pernambucano Manoel Bandeira e já no título o paraibano Lins do Rego transforma a prosa em poesia. E o romance todo, de apenas 200 páginas nos brinda a cada instante com lufadas de beleza que vêm do campo, dos riachos, da vegetação e dos personagens, principalmente as duas belas irmãs que "enfeitam" a história.

Resumindo o livro, "Pureza" conta a história de "Seu Lola", um rapaz dos seus 24 anos que deixa o Recife, por uns dias para procurar no campo ar puro, capaz de lhe devolver a saúde, que julga abalada. É o trauma da morte da mãe e de uma irmã, levados pela tuberculose, tão fatal àquela época.

No pequeno lugar chamado Pureza, que se resumia a um sítio, algumas casas e uma pequena estação de trem, o personagem descobre não só que está bem de saúde, longe de contrair a doença da família, como também abre os braços e os olhos para o amor físico, que lhe é ofertado generosamente pelas duas irmãs: primeiro Margarida, uma loira carnuda e desinibida, e depois por Maria Paula, morena e ainda mais fogosa do que a outra.

Com uma paisagem pintada com maestria pelo escritor, sem muita preocupação de análise psicológica e umas pinceladas na moral dos coronéis e paus mandados da época, o livro flui como música, numa das leituras das mais agradáveis que se pode ter. A prosa de José Lins está bem viva, como atesta esse excelente Pureza, e também Menino de Engenho, Riacho Doce e outras obras desse grande autor nordestino. (R.A.).