Garanhuns, 19 de maio de 2007
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OPINIÃO
 

A VINDA DO PAPA

Rafael Brasil Filho


Claro, quase não se falou de outra coisa em Pindorama nos últimos dias. Bento XVI, chegou, falou mais para a própria igreja do que propriamente ao público. Falou para o clero latino-americano, que , como sabemos ainda está em parte impregnado da chamada teologia da libertação, que procurou adaptar o marxismo vulgar a um tipo de cristianismo também vulgar. Deu no que deu. A igreja passou a perder espaços para as igrejas pentecostais. Em outras palavras, Bento XVI chamou o clero a estudar mais, e sobretudo trabalhar com muito mais afinco para a igreja católica , se não recuperar o tempo perdido, ou os fiéis perdidos. De todo jeito, usou um tom conciliatório, ressaltando a preocupação da igreja com a questão social, e com o colorido do catolicismo na América Latina, com sua peculiar pluralidade cultural. Demonstrou seu anti-modernismo, com um brilho latente e peculiar sob os olhos, condenando o capitalismo e o marxismo pelas mazelas do mundo globalizado. Talvez , para ele, o mundo medieval fosse melhor, com a igreja mandando, e o povo , muito mais ignorante do que hoje, docilmente obedecendo. De preferência sem fazer sexo, quando muito para procriar.

Já disse certa vez o historiador Eric Hobsbawn, que no final do sangrento século XX, a maior força anti-capitalista no mundo teria sido a igreja católica, e seu líder João Paulo II. Claro, ele afirmou isso, ressaltando a fraqueza e o clima de incertezas das esquerdas e suas perspectivas para o século XXI. E de fato, elas estão sem discurso e correndo para o centro do espectro político e econômico como tábua de salvação. Segundo a visão de Bento XVI, a igreja venceu, tanto o marxismo materialista, como o capitalismo liberal, seus principais algozes, desde a Revolução Francesa e seus filhotes , as esquerdas que surgiram no bojo da classe operária, e das desigualdades do capitalismo selvagem do século XIX.

O advento da sociedade dita pós-moderna, fez das críticas do papa, digamos mais plausíveis, sobretudo com a questão ambiental. È atribuído ao capitalismo e ao comunismo a destruição da natureza, dentre muitas outras mazelas. Porém, todos sabemos, se não fosse o capitalismo, como viveríamos hoje? Muito pior, certamente. Talvez ainda no medievo, onde se vivia cerca de trinta e cinco anos, e quem não seguisse os dogmas católicos estava frito. Literalmente, na fogueira.
Também Bento XVI quis distorcer a história com a cara mais lisa deste mundo, ao afirmar que o processo de conversão dos índios nas Américas foi tranqüilo e pacífico. Ora, quantas tribos e nações indígenas foram literalmente destruídas, com a mais perfeita conivência da igreja católica?

Ademais, segundo Gilberto Freyre, muitos índios odiavam a igreja e o clero, por terem a prática de roubar os indiozinhos (os culumins) das suas famílias, para criá-los e catequizá-los, sob a orientação católica. Centenas de milhares de meninos foram roubados pelos padres sob o pretexto da conversão. Embora, o próprio clero atolava os pés em sexo, no dizer do próprio Freyre, ao aportarem num lugar depois chamado Brasil. Será que o papa pensa que somos tão bêstas, tal quanto os nossos ingênuos antepassados? Creio que sim, pelo que ele deve ter pensado quando observou a recepção calorosa de nosso povo, até carnavalesca eu diria, na recepção dos nossos ancestrais algozes.

O processo de reconversão da igreja ao conservadorismo, vem desde a época de João Paulo II. E ademais, a igreja está certa em tentar reafirmar seus dogmas, pois naturalmente, não há religião que resista sem eles. Porém quer queiram ou não os líderes i ideólogos cristãos ou não, como diria Galileu, a terra e os outros planetas se movem. Quer queiram ou não as igrejas ou seus papas. Poucas pessoas vão seguir os aconselhamentos papais, sobretudo nas questões sexuais, já que para a igreja, sexo só para reprodução. E a questão da camisinha, e do aborto? E da biogenética, cujas questões nem sonharíamos discutir há pelo menos uma década atrás? Por essas e outras, as igrejas estão mais vazias, e, quanto mais escolaridade, mais, digamos, teremos evasão religiosa. É o progresso inevitável do mundo, partirmos para uma sociedade cada vez mais laica, como pensavam os iluministas do século XIX, embora um iluminismo também laico, portanto um pouco diferente do iluminismo daqueles tempos. Bons tempos diga-se de passagem. Hoje, como estamos na pós-modernidade, viva a pluralidade, vivam os candomblés, as mães e os pais de santo deste Brasil afora. Viva o sexo e a sexualidade. Viva a sacanagem tupiniquim. Só precisamos, afinal, acabarmos com com a violência e a corrupção, não? Inclusive a pedofilia de muitos padres.