Garanhuns, 19 de maio de 2007
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HUMOR

Raulzito


RELEMBRANDO CAZUZA

"A burguesia fede", dizia o poeta Cazuza. Muitos discordaram, convencidos de que quem fede mesmo é o povo, os lisos, os lascados, que não têm dinheiro para comprar sabonete Lux, muito menos desodorante Rexona. Os fedidos, segundo raciocínio dos que contestam o bom Cazuza, acham que no máximo os representantes da plebe usam limão no suvaco, sem conseguir resolver o problema da inhaca do mau cheiro.

Mas talvez o cantor não tenha se referido propriamente ao odor das axilas, da xiranha ou ao chulé da burguesia. Possivelmente ele usou uma linguagem figurada, como na Bíblia, e pretendeu, com o seu hino - o seu grito - alfinetar os burgueses por outras sujeiras: a falta de sensibilidade, a arrogância, a atitude despudorada diante do sexo, a roubalheira generalizada dos que detêm o poder...

Tudo isso que vemos aí, estampado nos jornais, nas investigações da CGU (a tal de Controladoria Geral da União) e do Ministério Público, também fede e incomoda. Às vezes muito mais que o cheiro do povão, que tanto irritava um ex-presidente da época do regime militar.

E não pense o amigo leitor (ou amiga leitora) que estamos falando grego, como a danada da Viviane me acusa, quando começo com meu diletantismo. Pertinho de você, nas cidades em redor, talvez até mais perto do que você imagina, alguém está metendo a mão no dinheiro público. Desvia um pouquinho da merenda, outro tiquinho do SUS, superfatura a construção da praça e do calçamento, faz uma lavagem do dinheiro na agência publicitária mais próxima, pronto: está garantido o dinheiro da próxima campanha política, o diretor da repartição poderá trocar de carro e o coronel não terá problemas para sustentar a amante.

"...A burguesia quer ficar rica". É, era disso mesmo que o Cazuza queria falar. O profeta da MPB não se referia ao suor dos trabalhadores do Magano, nem ao esgotos a céu aberto na Cohab II. Se estivesse vivo, estaria talvez aloprado com os novos burgueses, indignado com os neo-petistas, fazendo músicas contra os odores disseminados pela nova elite dirigente.

É. O irreverente Cazuza era um sábio. Morreu pobre e sofrido, como vai acontecer comigo e outra porção de falsos trouxas. Porque não se vendia, não se dobrava e enxergava a fendentina com muito mais acuidade: no meio das gravatas, dos ternos cortados, nos gabinetes com ar refrigerado, entre os sorrisos dos hipócritas, que se acham espertos e muito normal roubar regularmente o dinheiro dos pobres.

A nova burguesia fede.

Não é de estranhar, já que anda usando dólares na cueca.