Garanhuns, 5 de maio de 2007
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OPINIÃO
 

HUMOR

Raulzito


A INFÂNCIA DO RAULZITO

No meu tempo de criança lá em Piricapicuíba, digo, na cidadezinha em que eu nasci, o único divertimento era jogar bola. A gente corria atrás da redonda o dia todo, debaixo de sol ou de chuva. O jogo era disputado nas poucas pedras de calçamento que enfeitavam a praça, nas calçadas, nos cercados de boi e principalmente no "estádio" principal da vila - um campo ladeiroso, de terra e barro duro e sem uma partícula de grama para amaciar a pelota, para usar aqui a linguagem dos comentaristas de rádio, na época.

Além das peladas de nós meninos, haviam os clássicos entre os adultos, que a nosso ver entendiam de tudo e não apenas de futebol. Era solteiros contra casados (aí incluindo os amancebados, que não eram tantos na década de 60), primeiro contra segundo quadro e os quebra paus contra os times das cidades vizinhas, principalmente a turma do Caetano.

Até pelos sítios a meninada jogava, quando então encontrávamos gente mais ignorante do que bicho, como se a vida/o mundo se resumisse a uma disputa de bola. Uma vez, num sítio Riacho do não sei o quê, foi marcado um penâlti contra o time local. Imediatamente o dono das terras entrou em campo, sacou um revólver e ameaçou: se bater a falta eu atiro! Ninguém foi besta não, e teve atleta que até se mijou, no calção mesmo. E isso é porque era um jogo de meninos, imagina o que acontecia quando o pega era entre os adultos.

Outra coisa que me alembro, nessas memórias sentimentais do tempo em que os militares tomaram conta dessa joça, é dos apelidos. Quase ninguém tinha nome. E era uma criatividade arretada da molecada. Pomba Lesa, Pimpão, Branquinha, Bacalhau, Sebosa, Vaca Véia, Ronie Von, Zé Pezinho, Zé Boy, Cacau, Vanusa...esses eram alguns dos nomes inventados pelos coleguinhas, numa época em que os pais interioranos ainda não tinham descoberto os Charles, Richardsons, Andersons, Sheilas, Tatianas e Katies para vitimar seus filhos e filhas.

Nas décadas de 60 e 70, se não me trai a memória, os nomes verdadeiros eram João, Paulo, Roberto, Ricardo, Eduardo, Pedro, Eraldo, Luciano, Carlos, Francisco, Rosa, Rosana, Vera, Rosângela, Ângela, Eliana, Ana Cláudia, Solange, Cátia... No máximo aparecia uma Ilka Maria, sob protesto da mãe, que não entendia porque o pai insistia naquela combinação estranha. Por sinal que o uso do K, do Y e do W eram raros. Nesse tempo éramos mais brasileiros, menos sujeitos à influência dos gringos.

Mas voltando aos campos de pelada do tempo de menino, confesso que eu jogava muito ruim. Minha mãe, contudo, muito boazinha, comprou pra mim uma bola novinha, de couro. Como dono da pelota, era escalado religiosamente e assim estava sempre em campo, fazendo raiva aos colegas, perdendo gols incríveis e dando passes errados.

Mesmo assim eu me divertia muito e enriquecia a cada dia o meu vocabulário, principalmente quando assistia os jogos dos adultos. Nunca esqueço de um dia de treino, no "estádio municipal", quando um beque brutamontes conhecido como Toinho de Olindrina saiu-se com esta pérola: "Jurindir, mata de estambo e dá de coice pro riba de Opitácio". Se o leitor atento reparar bem, tirando as conjunções, de seis palavras o atleta pronunciou erradamente cinco, um verdadeiro recorde. Por isso naquela tarde, embora nenhum Rui Barbosa estivesse em campo, o linguajar do Olindrina chamou a atenção, o treino parou por instantes e todo mundo ficou rindo. Precisa traduzir? Então vamos, o Toinho quis dizer o seguinte: "Jurandir, mata de estômago e dá de calcanhar por cima de Epitácio".

Nesse tempo distante, meu caro leitor ou leitora, o homem ainda preparava sua descida na lua, não era tão difícil encontrar uma mulher virgem e John Lennon estava vivinho da Silva. Aqui em Garanhuns havia concorrência de cinemas, o maior ponto turístico era o buracão, mas as mocinhas já se esfregavam nos meninos lá no Pau Pombo. Sirvino ainda era menino de calças curtas, na Paraíba; Bartolomeu Quichute estudava na bucólica Flores, no Sertão; Ivo Amará estava chegando de Lajedo, Izaías Régua trocara a pacata Terezinha por Garanhuns e seu Luiz da Farmácia era um modesto professor, vindo das bandas de Calçado.

Eu jogava bola, ouvia a seleção pelo rádio, lia gibi e assistia entusiasmado a turma da Jovem Guarda, na TV. Menino tímido e respeitador, eu nem sonhava um dia morar na capital, muito menos conhecer a Viviane, essa mulher danada do bairro de São José. Com ela, a Vivi, foi que aprendi toda a safadeza do mundo e realizei as fantasias da minha infância. Só assim eu pude esquecer duas diabinhas que desejei na minha puberdade: a Pitoca (o apelido da moça era esse mesmo) e Cabôca. Que eu saiba elas traquinaram com todos os rapazes da cidade menos comigo. Eu ainda não era o Raulzito, não tinha esse charme de hoje, por isso me acabava feito os homens da lavoura, que só trabalham com as mãos.