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Polícia de Garanhuns trabalha em condições
precárias
Fernando Rodolfo
A falta de condições dignas de trabalho está
dificultando o serviço prestado pela Polícia Civil
em Garanhuns. O esforço pessoal dos delegados e dos agentes
esbarra na ausência de material de expediente, no sucateamento
das viaturas, no déficit de pessoal e até na quantidade
insuficiente de armamento. A situação foi denunciada
no jornal Folha de Pernambuco, em março deste ano, e agora
o Ministério Público resolveu instaurar inquérito
civil para apurar o estado de precariedade no funcionamento das
delegacias. "Diante desse problema, a polícia judiciária
tem conseguido oferecer muito pouco à sociedade de Garanhuns,
não por falta de esforço pessoal dos delegados nem
dos agentes, mas por conta da deficiência estrutural",
afirma o promotor Alexandre Bezerra que preside o inquérito.
Somente este ano, foram cometidos mais de 25 homicídios na
cidade.
Para dar andamento aos trabalhos, os delegados compram material
de expediente com dinheiro do próprio bolso. Desde que assumiu
a 2ª DP no mês de fevereiro, o delegado José Silvestre
já gastou cerca de mil reais adquirindo papel, cartuchos
para impressora, fitas que são utilizadas na gravação
de depoimentos e até produtos de limpeza para manter o pleno
funcionamento da delegacia. Fato semelhante tem ocorrido com os
demais delegados, que também já tiraram dinheiro do
bolso, inclusive para revelar fotos que são usadas nos inquéritos,
e até hoje não foram ressarcidos. "Para quem
observa de fora, a coisa não é tão grave. Mas
pra nós que respondemos ao Ministério Público
ou à Justiça quando alguma coisa não anda bem,
é uma responsabilidade assustadora. E o pior é que
nós não temos culpa direta", lamenta Silvestre.
Como não existem funcionários destinados a fazer
a limpeza nas delegacias, a responsabilidade recai sobre os próprios
policiais. Para não paralisar as atividades, eles resolveram
se reunir e fazer cotas entre si. Com o dinheiro arrecadado, o grupo
contrata terceiros que ficam responsáveis pela limpeza do
ambiente. A única verba que o Estado destina para o pagamento
de serviços, é de R$ 4 mil reais. Mesmo assim, o dinheiro
não é repassado mensalmente e ainda precisa ser dividido
para as 23 delegacias que compõe a seccional, o que resulta
num repasse inferior a R$ 175 reais para cada delegacia. Processo
idêntico ocorre com a verba liberada para material de expediente.
A falta de pessoal é um dos fatores que tem preocupado bastante
as autoridades policiais em Garanhuns. Esta semana, por exemplo,
o xadrez da 2ª DP estava com 14 presos e apenas um policial
fazia a segurança da delegacia durante a noite. O maior transtorno
causado pelo déficit de agentes é a demora na investigação
dos crimes de homicídio cometidos na cidade. Só na
1ª DP, que tem à frente o delegado Manoel Martins, cerca
de 100 inquéritos desta natureza aguardam conclusão
e a unidade policial conta apenas com dois agentes de investigação.
Na 2ª DP, o quadro é ainda pior. Dos 488 inquéritos
que ainda não foram concluídos, 129 são de
casos de homicídio e o mais antigo deles é do ano
de 1991. "Desde quando chegamos aqui conseguimos elucidar 15
casos de homicídio e remeter os inquéritos à
Justiça", informa Silvestre.
Antes de ingressar com uma ação na Justiça,
o promotor Alexandre Bezerra pretende abrir uma negociação
com o Governo do Estado, através da Secretaria de Defesa
Social (SDS) na tentativa de solucionar o problema. "A única
intenção do Ministério Público é
poder contribuir para o melhoramento desta situação",
lembra. Segundo ele, órgãos como a Vigilância
Sanitária, Corpo de Bombeiros e o Centro de Apoio Técnico
às Promotorias foram acionados para emitirem laudos técnicos
a respeito das condições físicas dos prédios
onde funcionam as delegacias. Os órgãos têm
um prazo legal de 10 dias para a emissão dos laudos, que
pode ser prorrogado por igual período. O Ministério
Público espera concluir todo o procedimento dentro de 30
dias, inclusive a negociação com o Estado.
A assessoria de imprensa da SDS, garantiu que a secretaria vai
acatar a decisão ministerial. "O Ministério Público
é independente e pode solicitar o que quiser. O inquérito
vai ser acatado e nós vamos responder", informou o assessor
Joaquim Neto. Segundo ele, a resposta às reivindicações
dos delegados é de responsabilidade da Chefia da Polícia
Civil, que por sua vez informou ser o assunto competência
da delegacia seccional de Garanhuns. O delegado seccional, Ernandes
Francisco, reconhece que a verba repassada pelo Estado é
insuficiente e admite que o dinheiro é liberado apenas três
vezes durante o ano. Segundo ele, a saída pode estar na sinalização
que o Município fez recentemente em firmar uma parceria para
contribuir na manutenção de algumas delegacias. Questionado
sobre o déficit de pessoal nas delegacias, Francisco foi
enfático: "vamos ter que trabalhar com o que temos",
finalizou.
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