Garanhuns, 21 de abril de 2007
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A difícil vida da família Capim

Fernando Rodolfo


Se sustentar uma família com quatro ou cinco pessoas é difícil para muitos brasileiros, cuidar de uma casa com mais de 60 parentes é uma missão quase impossível. Esta é a realidade da família Clementino, que vive numa casa velha na rua Capitão Tomás Maia, 185, no centro da cidade. A família cresceu muito e sem ter onde morar, todos resolveram dividir o mesmo ambiente. É difícil saber quem é quem no meio de tanta gente. Do vocabulário da família, a palavra "fome" passou a ser a mais pronunciada. A falta de higiene é visível na casa e a situação também favorece a prática de incesto. Mais de 30 crianças moram na residência. Algumas perderam a mãe e o pai se entregou ao alcoolismo. O morador mais novo tem seis meses de vida e a mais antiga, Maria Capim, já está com 68.

A falta de higiene predomina no local. Não existe água encanada e dois banheirinhos que tem, não dão pra quem quer. Banho, só numa lavanderia que fica a metros de distância da casa, onde cada morador também lava sua roupa. Quanto às necessidades fisiológicas, resta a família procurar terrenos baldios nas proximidades. Ela até que tenta colocar ordem, mas como é doméstica passa o dia no trabalho. Sai às sete da manhã e só retorna às 22 horas. Eliane é uma das duas pessoas da casa que conseguiu trabalho. Um irmão também tem carteira assinada como zelador de uma Igreja. Cada um ganha um salário mínimo. Dois outros moradores da casa recebem o auxílio do Governo Federal através do programa Bolsa Família e três homens que também vivem no local, ganham a vida lavando carros. Esse grupinho não consegue sustentar a família inteira.

Desde a morte do avô dela, a família foi crescendo sem parar. Por isso, como a sala da casa mede apenas cinco metros de frente e quatro de fundo, os "Capim" tiveram de ir dando um jeitinho nos fundos do quintal. Já prevendo esta situação, o avô de Eliane antes de morrer construiu uns quartinhos de barro e hoje quem não cabe dentro de casa, se espreme nesses ambientes. Para ter acesso até eles, é preciso passar por lama formada por resto de comida e enfrentar dois ou três vira-latas que comem até dentro das panelas. As crianças, algumas desnutridas, ficam expostas a riscos de contaminação o dia inteiro. "Aqui não tem emprego pra ninguém. Todo dia eu vou atrás mas não acho. Eu sinto uma dor no coração quando chego com fome e não como duas ou três bolachinhas pra deixar para os meus filhos", lamenta o pedreiro Clóvis Lima de Melo, 42, pai de quatro meninos. "Eu varro um quintal para ganhar um pacote de cuscuz", chorou.

Socorro dos Santos, 30, é outra sofredora dentro da casa dos "Capim". Ela é esposa do zelador da Igreja, mas diz que o salário do marido não dá pra quase nada porque ele divide o dinheiro com outros parentes. "A dificuldade aqui é grande. Só sabe quem passa", diz. Os gêmeos Cosme e Damião, irmãos do seu marido, também ajudam a casa com o que ganham lavando carros. "É muito pouco, porque eles também têm as coisas deles", completa. Yolanda Tatiana, 18, filha de Eliane, sofre com um cisto na barriga há um ano. "Eu já fui no hospital, mas não compro remédios porque não posso. Eu só fiz ir mesmo. Nem os exames a gente consegue", lamenta. Segundo ela, até conseguir emprego fica difícil porque as pessoas imaginam que está grávida. Juntar toda a família é tarefa difícil e quase nunca isso acontece. "Quer ver a família toda junta, só no natal e olhe lá", acrescenta Leidy Dayana, de 25 anos.