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A difícil vida da família Capim
Fernando Rodolfo
Se sustentar uma família com quatro ou cinco pessoas é
difícil para muitos brasileiros, cuidar de uma casa com mais
de 60 parentes é uma missão quase impossível.
Esta é a realidade da família Clementino, que vive
numa casa velha na rua Capitão Tomás Maia, 185, no
centro da cidade. A família cresceu muito e sem ter onde
morar, todos resolveram dividir o mesmo ambiente. É difícil
saber quem é quem no meio de tanta gente. Do vocabulário
da família, a palavra "fome" passou a ser a mais
pronunciada. A falta de higiene é visível na casa
e a situação também favorece a prática
de incesto. Mais de 30 crianças moram na residência.
Algumas perderam a mãe e o pai se entregou ao alcoolismo.
O morador mais novo tem seis meses de vida e a mais antiga, Maria
Capim, já está com 68.
A falta de higiene predomina no local. Não existe água
encanada e dois banheirinhos que tem, não dão pra
quem quer. Banho, só numa lavanderia que fica a metros de
distância da casa, onde cada morador também lava sua
roupa. Quanto às necessidades fisiológicas, resta
a família procurar terrenos baldios nas proximidades. Ela
até que tenta colocar ordem, mas como é doméstica
passa o dia no trabalho. Sai às sete da manhã e só
retorna às 22 horas. Eliane é uma das duas pessoas
da casa que conseguiu trabalho. Um irmão também tem
carteira assinada como zelador de uma Igreja. Cada um ganha um salário
mínimo. Dois outros moradores da casa recebem o auxílio
do Governo Federal através do programa Bolsa Família
e três homens que também vivem no local, ganham a vida
lavando carros. Esse grupinho não consegue sustentar a família
inteira.
Desde a morte do avô dela, a família foi crescendo
sem parar. Por isso, como a sala da casa mede apenas cinco metros
de frente e quatro de fundo, os "Capim" tiveram de ir
dando um jeitinho nos fundos do quintal. Já prevendo esta
situação, o avô de Eliane antes de morrer construiu
uns quartinhos de barro e hoje quem não cabe dentro de casa,
se espreme nesses ambientes. Para ter acesso até eles, é
preciso passar por lama formada por resto de comida e enfrentar
dois ou três vira-latas que comem até dentro das panelas.
As crianças, algumas desnutridas, ficam expostas a riscos
de contaminação o dia inteiro. "Aqui não
tem emprego pra ninguém. Todo dia eu vou atrás mas
não acho. Eu sinto uma dor no coração quando
chego com fome e não como duas ou três bolachinhas
pra deixar para os meus filhos", lamenta o pedreiro Clóvis
Lima de Melo, 42, pai de quatro meninos. "Eu varro um quintal
para ganhar um pacote de cuscuz", chorou.
Socorro dos Santos, 30, é outra sofredora dentro da casa
dos "Capim". Ela é esposa do zelador da Igreja,
mas diz que o salário do marido não dá pra
quase nada porque ele divide o dinheiro com outros parentes. "A
dificuldade aqui é grande. Só sabe quem passa",
diz. Os gêmeos Cosme e Damião, irmãos do seu
marido, também ajudam a casa com o que ganham lavando carros.
"É muito pouco, porque eles também têm
as coisas deles", completa. Yolanda Tatiana, 18, filha de Eliane,
sofre com um cisto na barriga há um ano. "Eu já
fui no hospital, mas não compro remédios porque não
posso. Eu só fiz ir mesmo. Nem os exames a gente consegue",
lamenta. Segundo ela, até conseguir emprego fica difícil
porque as pessoas imaginam que está grávida. Juntar
toda a família é tarefa difícil e quase nunca
isso acontece. "Quer ver a família toda junta, só
no natal e olhe lá", acrescenta Leidy Dayana, de 25
anos.
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