Garanhuns, 21 de abril de 2007
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CULTURA
 

Érico Veríssimo, o brasileiro que influenciou Garcia Márquez

Érico Veríssimo produziu uma vigorosa obra literária, conseguiu se tornar um escritor popular, num país de poucos leitores e passou 15 anos escrevendo aquela que é considerada sua obra prima: a trilogia O Tempo e o Vento, que mostra a formação do Rio Grande do Sul. Apesar de todas as qualificações, o autor gaúcho era extremamente modesto, reconhecia não ser um estilista, como Machado de Assis, por exemplo, e por isso se considerava somente um "contador de histórias".

Alguns críticos literários classificavam Èrico de superficial ou ingênuo, mas possivelmente alguns dos seus livros foram deliberadamente simples para atingir o maior número possível de leitores. Mesmo os romances menos densos do escritor, contudo, caso de Clarissa, Música ao Longe e mesmo Olhai os Lírios dos Campos, têm qualidades que não podem ser negadas mesmo por intelectuais exigentes.

Já os três volumes de O Tempo e o Vento, que juntos têm cerca de duas mil páginas, estão dentre os melhores da literatura brasileira, embora o autor do Rio Grande do Sul não esteja esteticamente no mesmo nível do citado Machado e mesmo de Graciliano Ramos ou mesmo José Lins do Rego. Os três escritores, que retrataram mundos e épocas diferentes, se aprofundaram mais na análise psicológica e esteticamente também estão num patamar superior, mas isso absolutamente não desmerece Veríssimo.

E Érico, que além de ter escrito tantos livros belos ainda nos deixou de herança o Luís Fernando Veríssimo, pode ainda ser apontado como um dos poucos escritores brasileiros a influenciar um vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. Isso mesmo! O colombiano Gabriel Garcia Márquez, autor do celebrado Cem Anos de Solidão, admitiu numa entrevista que uma das obras que o influenciou a produzir seu livro mais famoso foi exatamente O Tempo e o Vento, ao qual já nos referimos.

A obra prima de Veríssimo retrata a formação do Rio Grande do Sul, desde o século XVIII até a era do Governo Vargas, a partir de 1945. No primeiro volume da trilogia, O Continente, publicado em 1949, são particularmente fortes os personagens Ana Terra e o capitão Rodrigo Cambará, que terminaram saindo das páginas do romance para o cinema e televisão, nas décadas de 60, 70 e 80.

Nas páginas de O Tempo e o Vento, talvez um tanto esquecidas a partir dos anos 90, já é possível encontrar doses do realismo mágico que encantaria o mundo no romance Cem Anos de Solidão. Numa releitura de O Continente o leitor pode encontrar semelhanças com o livro de Garcia Márquez e ainda bem que o próprio escritor colombiano admitiu a influência do brasileiro.

No final de 2005, portanto há menos de dois anos, foi comemorado o centenário de Érico Veríssimo. No Rio Grande do Sul, certamente, a data foi lembrada à altura. Mas em termos de Brasil acredito que ficamos devendo um pouco ao escritor que ao lado do baiano Jorge Amado popularizou a literatura no país. O ideal é voltar a mergulhar no universo do autor, divulgar mais sua obra e se possível relançar as adaptações de seus livros para o cinema e televisão.

Seria interessante ter em DVD, nesses tempos de facilidades tecnológicas, cópias ou melhor ainda originais dos filmes Um Certo Capitão Rodrigo (1970), Ana Terra (1971) e Noite (1985). Na televisão O Tempo e o Vento também virou novela, com Carlos Zara e Geórgia Gomide nos papéis principais. Isso foi em 1967. O mesmo romance foi adaptado para minissérie em 85, com Paulo José, Tarcísio Meira e Glória Menezes. E ainda tivemos tranformados em novelas ou séries, os romances O Resto é Silêncio, Olhai Os Lírios dos Campos, Música ao Longe e Incidente en Antares. Que eu saiba não tem nada disso em DVD. Ainda bem que podemos rever qualquer obra dessas na biblioteca particular ou então na biblioteca do Sesc, na biblioteca do Parque Euclides Dourado ou em qualquer outra boa biblioteca que se preze.

No Brasil nunca um escritor foi contemplado com o prèmio Nobel de Literatura. É uma pena. Ainda bem que pelo menos tivemos um autor capaz de influenciar um vencedor do famoso prêmio da Academia Sueca. E isso não é pouca coisa! Mas o conjunto de obras de Érico Veríssimo vale muito mais. Por isso estamos aqui a lembrar a importância do mais conhecido "contador de histórias" do país. (R.A.).