Garanhuns, 15 de outubro de 2005
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OPINIÃO
 

"O Diocesano e o desaferrolhar dos tempos"

Marcilio Reinaux


Alvissareira esta data de 12 de outubro, há pouco transcorrida. Registrou-se nela o transcurso do nonagésimo aniversario de fundação do Colégio Diocesano de Garanhuns. Por estas nove décadas, uma eloqüente historia se escreveu e se que repete a cada ano, em páginas candentes e memoráveis, com capítulos indeléveis. Toda esse visão historiográfica, forma um compendio de muitas vidas que ficaram, assinaladas como parte integrante da "História dos Tempos de Garanhuns". São centenas e até milhares de jovens que pelos bancos e pelas vetustas paredes do Diocesano, passaram parte de suas vidas, preparando-se para a luta pela sobrevivência, em busca do aprendizado educacional e no somatório da formação profissional. Mas é bem de ver que o maior mérito do Diocesano sobre tantas vidas, é e tem sido, o formatar o caráter e o ajustar personalidades preparando-as para a vida.

Nós tivemos o privilegio, de enquanto aluno do então Ginásio, nos idos da década de 1940, ali estudar no chamado Curso Infantil. Na classe de aulas, lembramos das pequenas cadeiras e das mesinhas baixas. Ali ficávamos a ouvir as preciosas lições da Professora Nísia Caldas. Naquelas quatro paredes estava o nosso pequeno-grande mundo. Aprendíamos tudo e em especial aquilo que mais gostávamos, que era desenhar, pintar e interpretar as paisagens de grandes quadros policromados. O caderno de caligrafia também ficou nossa amigo. Nele e por ele íamos trocando nossos garranchos por letras mais harmoniosas e legíveis.

Em 1999 escrevemos o livro: "Garanhuns a Enevoada Perola Fugidia", lançado em comemoração aos 120 anos da Cidade, obra publicada mercê das gentilezas do então Prefeito Silvino Duarte. São páginas candentes e apaixonadas, nas quais derramamos todo nosso amor pela querida cidade das Colinas Verdejantes, invocando as mais lúcidas e ternas lembranças de um passado, atrelado à uma infância saudosista e bela. No livro em vários capítulos - exaltamos o Ginásio e o destacamos em loas, prosas e versos, além de desenhos a "bico-de-pena", tudo o que o Gisnásio representou para nós. Ver o Diocesano hoje completando noventa anos é um "desaferrolhar dos tempos".

Do alto padrão de civismo e de gloria, no olhar retrospectivo do passado, uma sombra triste de uma saudade imorredoura da grande Casa de Ensino, de Saber e de Cultura, toma conta de nós e suscita um entalo que corta-nos a garganta. Ouvindo e palmilhando as letras do hino: "Ginásio amigo, querido lar, tudo faremos por te exaltar". Vemo-nos na estacada da vida desabrochante. Ora subindo as escadarias da entrada, ora ouvindo as admoestações do Padre, ou mesmo vendo em memória a nossa correria pelo pátio do recreio. Tudo enternecido e sobremodo marcante. Um penhor de justiça e estupenda vitória, com lições preciosas de vida, que permanecem guardadas ate hoje desde os tempos de menino. Guardamos ainda como uma relíquia - a nossa primeira farda do Ginásio que usamos no ano de 1940.

Por traz de todo cenário grandiloquente do Ginásio Diocesano de Garanhuns, despontaram grandes vultos da Historiografia de Garanhuns. São exemplos o Padre Tarcisio, o Padre Godoy, o Professor Mario Matos, o Bispo Dom Moura, o Bispo Dom Mario Vilas Boas, e então encanecido Monsenhor Callou. E esta figura impávida, caráter sem mancha, do sempre lembrado Padre Adelmar da Mota Valença. Mais que uma vida dedicada à educação em Pernambuco, ele foi uma legenda. À ele Garanhuns, Pernambuco e a Região Nordeste muito devem. Ele que construiu pedra-sobre-pedra um monumento à Cultura do Estado, contribuiu para o desenvolvimento educacional da Região do Agreste Meridional, façamos a mais lidima justiça.

Sugerimos que o Colégio Diocesano de Garanhuns, crie a Comenda e honraria: " Colar do Mérito Adelmar da Mota Valença", para que se preserve o seu nome na história da Instituição e de Garanhuns.

Particularmente ao Padre devemos a nossa primeira formação, nossos primeiros passos na alfabetização, nossos primeiros ímpetos e até o contingenciamento das nossas primeiras transgressões de menino super-ativo. Ali sim, com alguns cascudos e puxões de orelhas, - em boa hora dados pelo Padre - sentimos a transmissão da realidade da vida, da correção dos atos, da honradez das pessoas, do respeito aos mais velhos e do comportamento ético que deve presidir tudo, na busca da disciplina e comportamento irrepreensível. Tudo isso o Padre Adelmar e o Ginásio nos ensinaram nos primórdios da nossa vida. E aqui vem a lição preciosa do Livro Sagrado, a Bíblia, que em Provérbios de Salomão recomenda: "Ensina a criança no caminho que deve andar e até quando for velha não se desviará dele. "

Não sendo velho como não o somos, mas sim de idade avançada, ainda guardamos os preciosos ensinamentos daqueles mestres. Tão ricos em conteúdo, pejados em afeto, carregados de amor e carinho da Professora Nísia Caldas, do olhar firme e complascente do Padre Adelmar e enfim do Ginásio Diocesano, que juntos pela Graça de Deus - moldaram em nós o que temos e o que somos.


Marcilio Reinaux, ex-aluno da década de 1940, Jornalista, Advogado, Membro da Academia de Letras de Garanhuns, Presidente da Academia Brasileira de Cerimonial e Protocolo.