Garanhuns, 15 de outubro de 2005
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OPINIÃO
 

Boi com sede, bebe lama

Pedro Jorge Valença


A Vale do Alto Rio Canhoto, possuía a maior concentração de gado leiteiro do Nordeste, sendo um dos primeiros lugares do Agreste, onde foi cultivada a Palma Forrageira. Na metade do Século XX, chegava em São Pedro, os primeiros reprodutores "Taurinos" e vacas das raças Holandesas, Normandas e Red Polled.

Três Fábricas de Queijo de Manteiga, produziam ótimos produtos, que eram levados para o Recife, nos trens da Great West. Todo leite consumido pela população da Cidade de Garanhuns, vinha de São Pedro, onde um batalhão de Leiteiros, conduzia seus "bules" na cabeça, num trote que ficou característico da Classe.

Tanto progresso, contrastava com a passagem do gado, que na maioria dos meses de verão, eram levados para beber água em bebedouros, cavados no leito seco do Rio Canhoto. A qualidade da água deixava a desejar, alem de bastante salgada era constantemente enlameada, por porcos que se deliciavam nas poucas reservas destinadas aos grandes animais.

Os açudes das propriedades eram cavados a mão e a terra era retira por "Tropa de Jumentos", que em fila faziam um trabalho digno de ser olhado. Outro sistema era uma junta de bois, puxando um couro, e retirando o barro cavado no leito do açude. O Trabalho era lento mas engenhoso, pois compactava o paredão. Os tratores de esteiras eram raríssimos, só vindo a se popularizar depois do ano 1960, quando o Governador Cid Sampaio, adquiriu uma frota de Tratores de pequeno porte, os "Famosos D-4", que eram alugados através de uma seleção, obedecendo a uma longa fila de pretendentes. A inovação foi feita por Amílcar Valença, que no seu caminhão, equipado com tambores de 200 litros, dava várias viagens, trazendo água da fonte do Sítio Matinhas de propriedade de Sr. Izidoro. No princípio os tambores eram cheios na "lata" e o progresso veio com uma bomba de água. Seu Mica, na sua visão de empreendedor, fez um empréstimo no Banco do Brasil, e através de um projeto elaborado pelo Ministério da Agricultura, adquiriu a fonte das Matinhas e construiu uma adutora, com 3 quilômetros de distancia e usando o desnível entre a reserva dàgua e a fazenda São Pedro, onde foi construído um reservatório com 200 metros cúbicos. Para atender a população e os pequenos rebanhos foi feito um chafariz.

Os imóveis médios e grandes, tiveram oportunidade de construir algumas reservas dàgua, pois na Secretaria de Agricultura, na coordenação dos Técnicos: Epitácio, José Malta e João Monteiro sob a administração de Ivo Amaral, "se viravam" para distribuir os pequenos tratores D-4. que tinha de atender a uma área que atingia a todo o Agreste Meridional..

Novamente Amílcar Valença, intervem para ampliar as reservas dàgua da região, quando conseguiu com o seu amigo, Major Vilarinho Neto, na ocasião Presidente da Comape, construiu uma grande Barragem no Riacho do Farias, que atendia o entorno da Roncaria, Bravos e Cajarana. A obra, para época, monumental pois tinha capacidade de reservar, 550 mil metros cúbicos de água.

Exatamente metade da Barragem do Mundaú, que abastecia a Cidade de Garanhuns. Os proprietários dos imóveis vizinhos, passaram a usar a água, retirando em carros de bois ou levando os rebanhos para beber diretamente na Barragem.

Seguindo o exemplo de meu pai , resolvi também fazer uma adutora que saindo da Barragem do Farias, para abastecer minha propriedade no Sito Furnas, que ficava a 1.600 metros de distancia. Fazendo "sangrias" nos imóveis do percurso e quando atingia a estrada que demanda para São Pedro, enchia bebedouros dos imóveis de Jeová Barros , Fernando Ferreira e uma para atender aos transeuntes.

O grande empreendimento coube ao Governador Dr. Miguel Arraes, que aproveitando um estudo elaborado ainda no Governo de Marco Maciel, mandou construir um Grande Açude, com 2 milhões e meio de metros cúbicos de água, que serve de Barragem Mãe, para perenização do Rio Canhoto.

Apesar da qualidade da água, que da não atende ao consumo humano, dado a sua salinidade, desde que bem manejada, é viável para uma boa irrigação e é o que vemos hoje, com vários hectares cultivados com Capim de Corte e Tomate, trazendo emprego e riqueza para Região. Acrescentando-se a Piscicultura que apesar de ainda não ser explorada racionalmente, têm alimentado a muitos, chegando a existir pescadores que tem na atividade sua única fonte de subsistência.

Apesar do grande empreendimento, muita coisa ainda esta faltando. É necessário se racionalizar a pesca predatória, criando uma Associação que preserve sua utilização e evite a contaminação das águas, muito embora toda irrigação esta sendo feita a jusante da Barragem.

Estou tomando conhecimento que a Deputada Aurora Duarte, solicitou a ampliação da Barragem , já que o projeto inicial era para 3,5 milhões de metros cúbicos. Parabéns pela iniciativa.

Quanto ao desejo de alguns para que o abastecimento da Vila de São Pedro, seja feito com águas da barragem, é uma falácia, pois a alta salinidade não atende ao consumo humano.

É sabido que Boi com Sede, Bebe Lama, mas a População não consome Água Salobra.

Aproveitando que o novo Prefeito, pensa em dinamizar nossa Pecuária Leiteira, vou me juntar com meu filho o Engenheiro Agrônomo André de Mendonça Valença para elaborar um Ante Projeto, sugerindo a construção de duas adutoras que partindo da Barragem da Cajarana, a primeira, abasteça as pequenas propriedades da Cooperativa até os Caldeirões e uma segunda que atenda a área do Trapiche, indo até a estrada da faixa da Chesf. O projeto não vai despender altos recursos pois os recalques são pequenos e a maior despesa será com tubulação e para cavar as valetas. O empreendimento pode ser financiado diretamente aos contemplados, desde que tenha a participação da Prefeitura. O Prefeito Luiz Carlos irá receber esse documento em breve.

Concluindo,uma pergunta, não é hora de se dá o nome da Barragem? Uma homenagem ao seu empreendedor, o Governador Miguel Arraes, não seria justa?