Garanhuns, 15 de outubro de 2005
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CULTURA
 

2 filhos de Francisco é um filme com a cara de Brasil

Roberto Almeida


A dupla de música sertaneja Zezé de Camargo e Luciano não é lá grande coisa. As letras dos goianos são melosas, eles miam muito e na maioria das canções são muito mais bregas do que propriamente sertanejos. Os dois, contudo, se tornaram ao longo dos anos num fenônemo popular, vendendo discos como ninguém e lotando casas de shows pelo país afora. A saga dos dois caipiras, agora, está no cinema, num filme que já foi assistido por milhões e que representará o Brasil em mais uma tentativa de conquista de um Oscar, o prêmio máximo da Academia Americana.

"2 filhos de Francisco", com direção de Breno Silveira, já pode ser visto também em Garanhuns, graças às cópias piratas que chegaram a maioria das locadoras. O filme, ao contrário da dupla, é muito bom, tem a cara de Brasil e conta a história de Zezé de Camargo e Luciano de forma extremamente competente e simples, sem firulas, emocionando os fãs e não fãs dos autores de "Meu País", uma música ligada à campanha política de Lula, em 2002.

O melhor do longa, sem dúvida nenhuma, é a dupla de atores mirins Márcio Kieling e Marcos Henrique, intérpretes de Zezé de Camargo e Emival (irmão do artista, que morreu ainda garoto, num acidente na estrada). Esses dois meninos, quando cantam, dão um banho nos artistas originais, embelezando sensivelmente as músicas dos famosos. A cena dos dois cantando, timidamente, na rodoviária de Goiânia, um deles mexendo o pezinho para disfarçar o nervosismo e empurrar a "caixa de dinheiro" é antológica, uma das melhores do cinema brasileiro de todos os tempos.

Os dois são tão bons que quando saem de cena, para entrar o Zezé de Camargo adolescente (Camarguinho, o Emival, morre sem conhecer a fama e a vida boa que os irmãos teriam, no futuro) como que o filme perde um pouco de sua graça, apesar da boa direção de Breno Silveira e de outros ótimos atores em cena. São destaques, entre os adultos, Ângelo Antônio (faz o pai dos artistas), Dira Paes (a mãe), Paloma Duarte (a esposa de Zezé), Lima Duarte (o avô dos meninos), Jackson Antunes (um Zé do Fole pra lá de autêntico), José Dumont (o empresário Miranda) e Thiago Mendonça (Welson/Luciano). É um elenco de peso, sem que ninguém destoe ao longo das mais de duas horas de fita.

Como se fosse pouco tanta gente boa junta, "2 filhos de Francisco" ainda traz produção de Pedro Buarque de Holanda e trilha sonora com participação de Caetano Veloso e Maria Betânia. O compositor baiano, como sempre, faz o brega virar chique, cult e dá até um toque erudito às músicas popularescas de Zezé de Carmargo e Luciano.

O filme de Breno Silveira, como foi dito no início, tem a cara de Brasil. Por contar a história de uma dupla popular que veio do nada, por retratar o interior do país, por mostrar a roça, a periferia da grande cidade, o trabalho na construção civil, a luta da dona de casa, a vontade de vencer na vida de quem vivencia a dificuldade, o desconforto e o sofrimento. Por tudo isso aí o povo (e até a classe média e uma certa elite) está se identificando com 2 Filhos de Francisco, com certeza mais um bom momento do cinema nacional.

Apesar das muitas qualidades, não creio que a produção vença a corrida pelo Oscar. Se isso acontecer será uma surpresa. É que tecnicamente o filme é inferior a "Central do Brasil", "O Quatrilho"e "O Que é Isso Companheiro", outras produções nacionais que lutaram pela estatueta. Talvez ganhe de um ou outro deles em emoção. Mas isso será o bastante? De toda maneira, é bem superior a "Olga", que com seu estilo televisivo também foi derrotado em Hollywood.

Independente do reconhecimento da Academia Americana, no entanto, "2 Filhos de Francisco" é um bom filme, capaz de agradar ao grande público e até as platéias mais exigentes. Tem a cara de povo e do Brasil e isso não é pouco.