Garanhuns, 17 de setembro de 2005
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OPINIÃO
 

Miguel Arraes

Rafael Brasil


Podemos dizer, sem titubear, que, Miguel Arraes sempre foi um dos políticos da esquerda, que efetivamente tinha pensamento próprio, ou seja, pensava. E escrevia também, e muito bem por sinal. Talvez por isso, não estava preocupado em modas intelectuais, nem tampouco se aprisionaria em ortodoxias, como os comunistas pátrios, prisioneiros das estreitas ortodoxias escrevinhadas a partir de Moscou, e quase sempre destoadas das nossas tristes e múltiplas realidades. Era, vamos dizer assim, um nacionalista de esquerda, independente. Passaria a maior parte do exílio trabalhando para sustentar sua grande família, aliás uma bela família, na Argélia, e estudar, sob a ótica nacionalista, o Brasil, que sabia, no fundo que iria voltar. Era disparado um melhor intelectual do que Brizola, e também um melhor estrategista político, embora não tão impetuoso e voluntarista como o outro, felizmente. Cerebral, era um homem que tinhs todas as condições de ser presidente do Brasil, e estava preparado para isso, aliás muito mais do que inúmeros caciques da esquerda pátria. Ao conversar com Lula, e constatar sua colossal ignorância, devia soltar sus famosos pigarros, e pensar na ingratidão da vida pública...

Seu primeiro governo ficou na história como um exemplo de conciliação e observância da legalidade democrática. Que muitos esquerdistas malucos queriam romper, seguindo o modelo da revolução cubana, e outros radicais como Julião que, antes do golpe afirmara que tinha duzentos mil camponeses em armas, prontos para a revolução. Foi, como sabemos um dos primeiros a correr, no golpe virgem de um mísero tiro. Queria a conciliação no campo, dentro da legalidade, ao contrário de umas esquerdas burras e voluntaristas, e de uma direita que sempre foi um cacareco ideológico. Como Vargas, pregava a união da esquerda com setores da direita, inclusive do meio rural, ampliando as possibilidades de alianças políticas, e naturalmente quebrando barreiras ideológicas. Como aliás faria o próprio Lula, na sua eleição vitoriosa para a presidência da república.

Espremido na frente do MDB, depois PMDB, dirigente do PSB, até sua morte, nunca conseguiu extrapolar o caráter regional de sua liderança. Podemos dizer que o velho Arraes, ficaria prisioneiro de Pernambuco, tendo que governar por três vezes nosso falido estado, o que na prática só o faria desgastar politicamente. Ademais, ser governador de província significava, no dizer de Roberto Magalhães, ficar eternamente com um pires na mão, diante do poder do governo federal, e administrando crises, sejam paroquiais, ou mesmo greves de funcionários públicos. Foi quando o chamaram , injustamente, e "velho caduco...o Pinochet de Pernambuco", o mesmo movimento sindical que hoje apóia Lula e a república petista repleta de corrupções mil.

Morreu já com uma idade avançada, e respeitado, não só por aliados, mas sobretudo pelos adversários. Trabalhei, quando jovem como militante, em seu comitê político, na campanha para deputado federal, no ano de l982 , junto com o também saudoso Arthur Lima Cavalcanti, que depois, melancolicamente, romperia com ele. Porém, de certa forma, sempre o admirei e o respeitei, pois geralmente o velho quando falava, não dizia bobagens, e tinha um finíssimo senso de humor, apesar do jeitão de sertanejo carrancudo. Deve ter morrido um tanto quanto desiludido, ao ver as maracutaias perpetradas pelo governo petista, e o besteirol de Lula toda vez que se defronta com um mísero microfone. Um horror. Mas foi um grande homem, um personagem importante da política brasileira a parir da segunda metade do sangrento e ideologizado século XX. Viva o velho Miguel Arraes de Alencar! Que os deuses e orixás o protejam para sempre!


Rafael Brasil é professor da FFPG, FDG e da Rede Estadual de Ensino.