Garanhuns, 17 de setembro de 2005
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COLUNAS
 

HUMOR

Raulzito


NA PARADA DE ÔNIBUS

Imaginei que juntando umas economias do ordenado do Correio Sete Colinas e da venda do meu livro eu poderia comprar um carro, mas me enganei redondamente. Os trocados que consegui não me permitiram nem mesmo pagar os pneus de uma bicicleta.

Assim, o jeito é andar a pé, que faz bem a saúde e, quando a distância é muito grande e o corpo está um pouquinho cansado, viajar num dos coletivos confortáveis da empresa São Cristóvão, o único monopólio que tem nome de santo em Garanhuns.

Não pense que reclamo. Andar de ônibus pode ser muito pedagógico e relaxante, apesar da zoada do motor nos ouvidos, dos freios bruscos e de um ou outro passageiro ao seu lado com um fedor de suvaco de lascar.

Mas viajando nesses coletivos eu tenho grandes idéias e tenho certeza de que muitas outras pessoas na cidade seguem o meu exemplo. O Paulo Camelo, por exemplo, perdeu a eleição, continua sem carro, porém não se queixa. Nem poderia, pois seus projetos geniais nascem todos entre uma viagem e outra do centro ao bucólico bairro de Heliópolis. Foi assim que nasceu a idéia do teleférico, que já teria sido implantado na cidade caso o povo não tivesse preferido eleger um charlatão laranja para governar essa joça.

Deixemos o engenheiro que anda de ônibus e o prefeito em paz, contudo. A coluna não pretende enveredar pela política. A pretensão aqui é mais modesta, é só registrar um flagrante colhido numa parada de ônibus dessa edificante Suíça Pernambucana ou cidade quase sem flores.

Outro dia estava eu numa dessas paradas, ali perto da delegacia, por trás da igreja dos crentes, a mais ou menos 50 metros da Caixa Econômica, quando tive oportunidade de comprovar mais uma vez a perspicácia e a inteligência popular.

Estava lá no ponto de ônibus, entre caixas de engraxates, vendedores de pipoca e laranja cravo, um senhor de meia idade pra lá de simpático, esperando sua condução no maior bom humor, disposto a sorrir e fazer rir por qualquer motivo. Mesmo que tivesse de "cortar na própria carne", zombando dele mesmo e dos seus semelhantes.

Próximo a ele tinha uma jovem recém saída da adolescência, livre de espinhas e com umas pernas tão compridas que parecia caminhar auxiliada por uma escada. O senhor de meia idade, moreno, de bigode preto, palito na boca, cabelo espetado e quase todos os dentes no lugar foi logo gentil:

- Sente minha filha. Aproveite que por enquanto ainda não precisa pagar.

- Obrigada - agradeceu a jovem, achando engraçado o jeito dele falar.

- É que do jeito que vai logo a gente vai precisar pagar por isso também. E o prefeito irá usar o dinheiro para fazer alguma coisa lá no bairro onde moro.

- E por que o Sr. não senta? - respondeu a mocinha de pernas compridas.

- Não, acho melhor ficar de pé, pois assim eu já vou me acostumando. Do jeito que vão as coisas eu não vou ter condição de pagar mesmo.

- O Sr. mora onde? - perguntou a mocinha de pernas compridas.

- Na Cohab III, que de Bela Vista só tem o nome. Fica já no caminho de Caetés, numa das entradas feias de Garanhuns. Lá a escola das crianças é uma droga, no posto de saúde falta tudo, até médico, e daqui pra próxima eleição devem fazer o calçamento da primeira rua. Mas tem um motel que é jóia. Quando a gente vai dormir de noite dá até pra escutar uns gemidos e saber que o movimento tá bom.

A jovem pareceu se interessar e perguntou:

- E só tem isso mesmo?

- Ah! Tem também muito menino descalço pelas ruas, durante o dia. E à noite a gente recebe a visita das amigas muriçocas. Agora, que tá terminando o inverno, elas vieram com gosto e fazem a maior cantoria pra embalar o nosso sono.

Enquanto conversavam chegou o ônibus do Indiano. Depois outro. Vila do Quartel, Cohab I, Cohab II. O povo se acotovelando e cada um procurando um lugar pra sentar. O morador da Cohab III olhou de modo curioso a agitação e terminou por fazer mais uma observação:

- É uma mundiça danada. E é esse povinho aí que bota esses ladrões pra governar a gente. - disse o homem, enveredando pela infeliz da política, que eu queria evitar.

- Só quem não vai roubar mais é o Arraes, que morreu e agora virou santo.

- O senhor acha que o Lula também é ladrão?

- Só não é o maior porque tem um dedo a menos. Mas é tudo uma cambada só, minha fia. Tá vendo que não voto mais em nenhum cabra safado desses.

Estava por perto estava também uma mulher do bairro do Mundaú. Morena, gordinha, usava óculos e só fazia rir o tempo todo. Gargalhava mesmo, com a situação, enquanto ouvia o morador da Cohab III e a estudante da Cohab II.

Ela não disse uma palavra, mas com certeza achava os dois tipos mais engraçados do que os palhaços do Circo Fantástico, que estava outro dia no Parque Euclides Dourado.

- Na próxima eleição em vou é votar em branco. Não agüento mais esses políticos - prosseguiu o senhor de meia idade, sem deixar o tom irônico e brincalhão.

- E na eleição passada o Sr. votou em Luiz Carlos? - voltou a falar a moça da Cohab II.

- Na outra eleição eu já não votei em ninguém. Nem no Luiz, nem no Sivaldo. Não sou dessas mocinhas bonitas, que vota em alguém por causa da beleza - fustigou.

Enfim, chegou o ônibus do Mundaú e ficamos sem a gargalhada da gordinha. Depois veio o expresso pra lá de chique do bairro Francisco Figueira e por último o coletivo da Bela Vista. De dentro do ônibus, o espirituoso cidadão ainda gritou pra pós-adolescente, que já seguia no seu transporte;

- Quando vir pra essa parada de novo tenha cuidado, pois já mataram um aqui!

E disse isso rindo, o gozador.

Fiquei sozinho, esperando não sei o quê, pois nesse lugar, por essas horas, não passa mais o ônibus da Brasília, via São José. E é lá que mora a Viviane, a minha namorada gostosa a quem dediquei meu primeiro e último livro.

Ainda bem que a Vivi não tem pernas de girafa, está com todos os dentes no lugar, evita ficar muito gordinha e prefere andar de mototáxi, pra combater o monopólio da São Cristóvão.

Mas aqui pra nós (que a Viviane não saiba), ficar em parada de ônibus é tão edificante.