Garanhuns, 3 de setembro de 2005
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POLÍTICA
 

Agora é moda falar mal de Lula

Tenho, como a maioria dos brasileiros, acompanhado a crise política e a sucessão de denúncias envolvendo o PT, o Governo e o presidente Lula. Da mesma maneira que muitas pessoas, estou um tanto desnorteado, triste, decepcionado e chateado com tudo isso estampado diariamente nos jornais, no rádio e na televisão. Embora não tenha alimentado todas as ilusões e saiba há muito tempo que não existem santos na política, confesso ter esperado mais do Partido dos Trabalhadores e do seu líder maior, hoje presidente da República.

Mesmo assim, não posso compartilhar desse massacre que se pratica hoje no País, com a anuência da imprensa, para desmoralizar de forma completa o presidente Lula, seu Governo e o partido político de base popular construído ao longo de 25 anos de lutas, equívocos, derrotas e algumas importantes vitórias. E quando falo em massacre, se pareço muito ousado, não estou sozinho, pobre jornalista tupiniquim que sou. O escritor Luís Fernando Veríssimo, filho do grande Érico, também usou essa expressão, um dia desses, ao condenar o processo de histeria anti-esquerda que de repente se desencandeou no Brasil, em função dos deslizes cometidos pelos dirigentes petistas.

Massacre, histeria, sensacionalismo, oportunismo e interesses eleitorais também são ingredientes da crise, não tenho nenhuma dúvida disso. E não há porque ter medo de dizê-lo, de contrariar esse samba de uma nota só, esse maniqueismo que transformou o PT e a esquerda no mal, apresentando como heróis gente da qualidade de Roberto Jefferson, Antônio Carlos Magalhães (avô e neto), Jorge Bornhausen e o pernambucano José Jorge.

Sem falar em doleiros e advogados condenados há muitos anos de prisão, repentinamente alçados ao estrelato da delação premiada, com direito a envolver sem provas os dois ministros mais respeitados do atual Governo: Antônio Palloci (Fazenda) e Tomás Bastos (Justiça).

Além de Luís Fernando Veríssimo, o escritor Frei Beto, em equilibrada entrevista na Gazeta de Alagoas, teve coragem de nadar contra a corrente e fez uma ótima análise do momento que estamos vivendo. Os dois jornalista citados, reconhecidamente sérios, conseguem enxergar além do instante atual, comprometidos com o passado e sabendo o que o futuro poderá nos trazer.

Ora, está mais ou menos claro que José Dirceu, Genoíno, Delúbio, Silvio Pereira e outros petistas erraram. Fica difícil acreditar que Lula é totalmente inocente nessa história toda. Mas também com certeza não sabia de tudo. Como bem disse, inteligentemente, o Caetano Veloso, num programa de televisão, "o presidente soube tudo aquilo que queriam que soubesse".

Mas Lula, com seus improvisos, seu português imperfeito, a voz rouca, baixa estatura, mãos de operário e corpo de estivador não pode mais abrir a boca. Para Dora Kramer, Cláudio Humberto (foi secretário de Imprensa de Collor e desde a vitória do PT, em 2002, virou um dos paladinos da justiça), Sebastião Nery (brizolista que também coloriu em determinado momento), Magno Martins, Marisa Gibson e Arnaldo Jabor ele (o presidente) só diz besteira. Mostrar sabedoria e conhecimento histórico virou status diante da ignorância do número um do país.

Assim, que heresia Luiz Inácio querer se comparar a Getúlio, Jânio, a Goulart ou Juscelino. Por que não se compara a Collor? Chega a gritar a imprensa. Pra ser Vargas, o ex-operário certamente teria de dar um tiro no peito, só teria alguma semelhança a Quadros se renunciasse, poderia parecer com Jango se fosse desposto pelos militares e está longe de um JK, pois o fome zero e a transposição do Rio São Francisco nem de longe se assemelham à construção de Brasília.

Não adianta. O presidente está acuado, não deve estar dormindo direito há meses e deveria ser aconselhado a guardar o mais absoluto silêncio sobre qualquer assunto. É um "ignorante", um "grosseirão" e os homens cultos deste país parecem estar fartos dele.

E ai do presidente se num discurso qualquer fizer a mínima referência aos jornais. Manchete do Jornal Nacional acusará logo Lula de criticar a imprensa, mesmo que ela (a crítica) não tenha sido feita. É fácil carregar nas tintas, distorcer a coisa sutilmente e fazer uma coisa parecer outra. E todos são passíveis de erros: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, menos o quarto poder, que é infalível, formado por operários abnegados, incorruptíveis, mesmo recebendo salários algumas vezes aviltantes.

A imprensa, valorosa imprensa, que ajudou a eleger Fernando Collor e a derrubá-lo! Que fez do real a moeda forte capaz de eleger um presidente da República duas vezes! Que criou e liquidou, antes da era FHC, os incríveis fiscais do Sarney...

Imprensa da qual faz parte a revista Veja, tão bem feita, bem escrita, magnificamente editada e mais de 30 anos de jornalismo respeitado neste país. Sempre fustigando o comunismo, o socialismo, o MST, o Partido dos Trabalhadores e todo movimento ou ideologia que conteste de algum modo o capitalismo americano ou o pré-capitalismo brasileiro. Pois bem, essa publicação está há cerca de 10 semanas publicando matérias, capas, colocando em xeque o Governo Lula e o PT.

Jornalismo investigativo que ignora os governos peemedebistas do Rio de Janeiro ou Rio Grande do Sul, a tucanada de São Paulo e Minas, ou qualquer outro fato que aconteceu ou esteja acontecendo que não esteja relacionado com a república dos petistas.

Boa parte dessa gente que fustiga Lula, ao que parece, não o conhecia antes de ele chegar à presidência. Imaginavam, talvez, que ao sentar na cadeira de presidente adquirisse pela força do cargo a cultura de Fernando Henrique e José Sarney. O primeiro, como se sabe, fala vários idiomas, enquanto o outro escreve romances e é da Academia Brasileira de Letras.

Certamente por isso, pela origem nobre, por pertencerem a uma elite econômica e intelectual, jamais foram tão fustigados, perseguidos, investigados e massacrados. E nem eram do PT, "o partido perfeito, defensor da ética, incorruptível e guardião da moralidade".

Eu, como Veríssimo, Frei Beto e outros ingênuos que acreditaram e ainda acreditam em uma sociedade justa e igualitária não concordo com corrupção nem aprovo os erros dos integrantes do Partido dos Trabalhadores. Nem por isso estou disposto a satanizar o PT, o presidente Lula, muito menos a ideologia de esquerda.

Sei que existem safados e pessoas de mau caráter independente de ideologia. Os corruptos podem estar no PSDB de Geraldo Alkmin, no PMDB de Garotinho, no PSB de Arraes, no PPS de Roberto Freire, no PFL de Marco Maciel, no PP de Severino Cavalcanti, no PTB de Armando Monteiro e no PT de Genoíno e Dirceu.

O que não pode é um momento episódico da história de país ser transformado para mostrar que o Partido dos Trabalhadores é o pior deles, que o presidente Lula é o mais corrupto ou o mais idiota, que a esquerda não presta.

O que não pode é se mostrar todos os erros do PT e do Lula, deixando de lado a herança de FHC, o crime das privatizações, o milhão gasto na campanha de deputado de Raul Jungman e as falhas que estão sendo cometidas por José Serra na prefeitura de São Paulo, de repente alçado, com a crise, no "melhor prefeito da cidade" nos últimos tempos.

E Serra, pelas pesquisas do Ibope, poderá ser o futuro presidente do país. Não é de admirar que Lula caia e o prefeito de São Paulo suba no gosto popular. Quem poderia resistir a um bombardeio desses por mais de 100 dias? O super homem ou talvez o Roberto Jefferson, o herói que começou toda essa história e único comprovadamente corrupto, mas que ainda não foi cassado.

Lula, na eleição do ano que vem (se conseguir ser candidato) não será julgado pelo povo. Será enforcado, crucificado, esquartejado em praça pública, execrado da política brasileira, se comprovando ou não que tem culpa por tudo que está acontecendo de ruim no país.

Estará provado que a esquerda não sabe governar. Que alguém do povo não pode dirigir os destinos do país. Que o PT era uma farsa. Que é temerário votar em quem não tem diploma. Que o Lula é um despreparado. Que só a elite pode administrar o Brasil.

Assim, tudo voltará a ser como d`antes e na próxima gestão as manchetes dos jornais voltarão a ser positivas. (R.A.).