Garanhuns, 30 de julho de 2005
  Início
  Colunas
  Opinião
  Política
  Cidade
  Geral
  Especial
  Sociedade
  Ed. Anteriores
  Expediente
 
OPINIÃO
 

Circo Brasil

Thiago Almeida


É engraçado ser humano, é engraçado ser chamado de racional quando nosso corpo sucumbe à irracionalidade furiosa do mundo material, e chega a ser cômico o nosso comportamento de palhaço diante do picadeiro infindável que se estende ao nosso redor. E aqueles que pensam ser donos deste mundo circense nos escolheram para atuar nele como artistas, é isso mesmo, somos os maiores artistas a pisar neste palco, e aqueles que nos fizeram assim, nos disseram para pintar a cara, pôr uma roupa colorida e uma bola vermelha no nariz, e foi assim que nos fizeram palhaços. Sendo assim, chamaram seus familiares e amigos, sentaram nas arquibancadas e começaram a se divertir, e nós artistas fazíamos o nosso papel, o papel de divertir a burguesia, de fazer com que nossos superiores se sentissem felizes e realizados.

Nossos espetáculos tinham números novos quase que diariamente, e os donos do circo tratavam logo de divulgar o show:

---Hoje, imperdível! O palhaço João morre de fome junto com seus quatro filhos. Logo após, a palhacinha Martha, de apenas oito aninhos vai vender drops no sinal para levar comida para casa, e pra fechar o espetáculo com chave de ouro, teremos a troupe circense meninos de rua, com o espetáculo: "ei dona Maria, me dê um prato de comida e uma roupinha velha que eu estou morrendo de fome e de frio" e o resultado já era de se esperar, arquibancadas lotadas, e os pagantes exigiam bis.

Não gostávamos de atuar, desejávamos ardentemente o fim de tudo aquilo, tanto que fomos falar com os "patrões", que para aliviar a barra fizeram um trato conosco:

--A partir de hoje vocês serão profissionais.

E foi aí que legalizaram a profissão de palhaço. Pensamos:

--Que bom, agora que somos profissionais, tudo mudará!

E parecia que mudaria mesmo, recebíamos uma ajudinha pra comprar o gás de cozinha, e as crianças tornaram-se o nosso comércio particular, pois nossos patrões falaram que se as crianças fossem à escola, receberíamos uma tal de bolsa auxílio, e a idéia foi tão boa que logo foi incluída como o apse dos nossos espetáculos. E assim vieram os shows seguintes: palhaça Maria morre de sede no sertão nordestino, palhaços ambulantes pagam propina para poder trabalhar, bandidos seqüestram dois bobos da corte, palhaço José é vítima de um assalto, acaba ferido e pode perder a perna por negligência médica.

Depois de tanto trabalho, ficamos cansados e novamente pensamos em abandonar tudo, foi então que tivemos a notícia de que o circo mudaria de dono e que quem escolheria o novo comandante seríamos nós. Os candidatos a dono do circo começaram a aparecer, pareciam muito legais, apertavam nossas mãos, colocavam nossos filhos nos braços, nos davam roupa, comida, diziam que se os escolhêssemos, tudo mudaria, teríamos moradia, saúde e emprego, nossos espetáculos mudariam pra melhor.

Foi então que começamos a convencer nossos amigos e familiares a votar naquele que nos prometia mais melhorias, mas quando escolhíamos, tudo voltava a ser como antes, às vezes até piorava. De quatro em quatro anos escolhíamos um novo dono, e sempre aconteciam às mesmas coisas, choviam promessas, mas depois nada se concretizava, foi aí que cansamos de escolher as pessoas erradas e resolvemos votar em um dos nossos, escolhemos um "companheiro palhaço" como a gente.

Com o passar do tempo, começamos a perceber que nosso escolhido não estava conseguindo cumprir com as promessas feitas, nos pediu paciência, falou que tudo melhoraria, mas palhaço que tem fome não come promessas, palhaço que tem sede não bebe paciência, pois não dá pra ficar matando a sede na saliva.

E o nosso ex-palhaço, agora dono do circo, até tentou fazer com que deixássemos de ser artistas e pensou em nos dar outra profissão, mas logo vieram seus novos "companheiros" e falaram que ele não fizesse isto, que era melhor nos deixar como estávamos, que estávamos bem, e que palhaço é profissão, bobo é quem ri.

Bobo é quem faz da morte um espetáculo, quem faz da fome seu sustento, quem faz da sede o seu oásis e da felicidade alheia o seu lamento. Bobo é quem consegue sentar nas arquibancadas do circo dos miseráveis e sorrir, deliciando-se com o espetáculo lamentável dos palhaços da vida.

Por fim, digo que bobo é quem está lendo esta crônica neste exato momento e não se identificou como sendo um palhaço, e você que continua lendo e não consegue se identificar como sendo um dos nossos, vamos nos apresentar, muito prazer, somos palhaços, mas pode nos chamar de povo brasileiro.