Garanhuns, 16 de julho de 2005
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CULTURA
 

A angústia do comandante Byron

As chuvas começaram logo cedo, um domingo, quando quase todo Recife dormia. Quando a cidade acordou, depois das sete horas, as águas já assustavam no corredor da Caxangá, em parte da Boa Vista, no bairro dos Aflitos e também nas Graças, Torre, Afogados, Areias... Na verdade poucas áreas escapavam do verdadeiro dilúvio que mais tarde atrairia helicópteros, bombeiros, jornalistas e toda a estrutura da Companhia de Defesa Civil do Estado e da capital pernambucana. Nos dias seguintes as televisões não falariam de outra coisa, o governador ilhado, o prefeito tentando justificar a queda das barreiras, o próprio presidente da República sobrevoando as pontes e canais da metrópole para mais tarde anunciar as providências contra a onda de destruição.

Os amigos o chamavam de comandante desde os tempos da escola. Por conta de sua disposição de luta, do raciocínio rápido, da capacidade de planejamento e organização digna de um militar. Já nos tempos de pelada, nos campos da Várzea, demonstrara espírito de liderança. Sério que chegava a ser sisudo, teve poucas namoradas na adolescência. Na faculdade, fez amizades com jovens marxistas e encontrou no ideal comunista a sua razão de viver. Uma ditadura infelicitava o Brasil, agora sabia, adquirindo consciência de que era preciso lutar conta o arbítrio e a injustiça.

Byron fez administração de empresas, casou, teve três filhos um homem e duas mulheres e foi cuidar da vida. Manteve, no entanto, a coerência e nunca se aburguesou ou traiu seus ideais. Viu a ditadura findar, os filhos crescerem e pelo menos uma dúzia de amigos mudarem completamente após o amadurecimento.

Clara, uma das mais bonitas do tempo da faculdade, que gostava de poesia e colecionava todos os discos de Caetano, agora ocupava cargo de confiança no governo do estado. Participara de protestos, de greves, mas agora parecia estar do outro lado. Freqüentava até as colunas sociais, sempre maquiada, sorridente, aparentando estar de bem com a vida.

Almir, os mais radical dos colegas de sua época, que em vez de administração concluiu o curso de medicina, era agora um dos mais importantes diretores do Ministério da Saúde, atuando com firmeza no setor de epidemiologia.

O comandante atuou por uns tempos na iniciativa privada, depois instalou sua própria empresa, fazendo consultoria e conseguindo ao mesmo tempo manter a independência e o respeito.

Rosa, a mulher, era professora. Inteligente, meiga, sem maiores pretensões intelectuais ou financeiras. Gostava das aulas, cuidava bem da casa, tratava o marido sempre de forma carinhosa e ainda acompanhava a vida dos filhos com a maior atenção. Uma figura rara, bonita, embora aparentasse, perante os intelectuais amigos do marido, ser uma figura simplória.

Comandante Byron dava duro. Educava os filhos, com o apoio de Rosa comprara um bom apartamento, possuía carro do ano, saía nos finais de semana, via filmes, lia livros, revistas, sem deixar de participar da política municipal, estadual, nacional.

Era feliz?

Uns achavam que sim, outros admiravam a firmeza, o compromisso. Poucos questionavam a determinação.

Nos apartamentos do bairro do Cordeiro, centenas de pessoas ficaram presas, sem poder sair. Os imóveis que ficavam no térreo foram invadidos pela águas, que chegaram ao teto. Aparelhos de televisão, sofás, mesas, cadeiras, camas, pratos, jarros, geladeiras, muita coisa assim saiu boiando, foi levada pela enchente. No primeiro andar do edifício Maurício de Nassau, Ângela, que morava no 101, teve de abrigar os vizinhos do andar de baixo. Ficaram ilhados. No terceiro dia a comida havia acabado, um rapaz moreno mergulhava na correnteza e sumia, voltando depois com banana, laranja e outras frutas que ninguém sabe como conseguia. À noite, dois e até três ocupando uma cama, gente pelo chão, Ângela ficou colada a um desconhecido, sentindo frio e calor ao mesmo tempo, fechando os olhos e ignorando as mãos que em determinado momento lhe tocaram o corpo jovem.

Ao final da Sete de Setembro, pego a Conde da Boa Vista, passo pela Aurora, cruzo a ponte e em poucos minutos estou na Guararapes. Percebo a cada milímetro a decadência do centro do Recife, uma cidade invadida por bêbados, desempregados, camelôs, pedintes e prostitutas que fazem ponto na Pracinha do Diário.

Diferente da cidade da minha juventude, quando saía dos bares às duas da manhã, caminhando tranquilamente 15 ou 20 minutos até chegar à Visconde de Suassuna. A avenida, naquele horário, só era importunada por um tardio ônibus elétrico, pertencente à CTU, hoje privatizada.

Não havia shopping, nem 60 homicídios no final de semana e cinema era mesmo uma grande diversão. As donas de casas e senhores de gravatas desfilavam solenes pelas lojas Mesbla e Viana Leal, que tinham como grandes atrativos escadas rolantes ligando um andar a outro.

Meu pai, funcionário público, nos dava uma vida modesta. Procurava ser correto, justo, transmitindo aos filhos noções de ética, de honestidade e decência.

Mamãe costurava, ajudava no apertado orçamento doméstico e freqüentava a igreja aos domingos.

Eu assistia aos jogos do Náutico, Sport e Santa Cruz. O Íbis, o Santo Amaro - chamado de Vovozinha -, e o Ferroviário, eram sacos de pancada. Bita, Gena, Baixa, Lula Monstrinho... Eram verdadeiras lendas. Gigantes todos eles, mais até do que os craques surgidos depois e vistos pela televisão. Gerson, Rivelino, Jairzinho, Pelé...

O futebol era melhor até do que a praia, paixão dos domingos. Boa Viagem tranqüila, sem tubarões, sem assaltos ou arrastões.

"Byron, vem almoçar...". Mamãe chamava duas, três ou quatro vezes. No quarto, eu lia revistinhas, livros, jornais, conhecia outro mundo viajando na arca das letras daquele tempo.

As águas transbordaram dos rios Capibaribe e Beberibe invadindo tudo, chegando aos locais até então poupados pela força da natureza. A Conde da Boa Vista virou o leito de um imenso rio, os prédios ficando menores. Dos últimos andares pessoas assustadas vivenciavam cenas de filme americano. Carros e ônibus engolidos pela correnteza, cachorros, gatos, cobras, cavalos e bois nadando no centro do Recife, bairros inteiros sumindo, madames aos gritos e pelo menos uma emissora de televisão conseguindo dar flashes ao vivo da tragédia. Evangélicos, reunidos no salão de festas de um condomínio de luxo, em Casa Forte, avaliavam que chegara o fim dos tempos. Era questão de segundos e Jesus apareceria em carne e osso, anunciando a volta triunfal para salvar os bons e condenar ao inferno os corruptos, os cafajestes, os impuros.

Ao se aproximar dos 60 anos, ele começou a ficar triste e definhar. Não mais a alegria dos tempos de futebol na Várzea. Nem a vivacidade do torcedor alvirrubro. Deixou de ir ao cinema, esqueceu a praia e por último abandonou a militância política. Não era velho ainda, mas se comportava como tal. Ficava no apartamento o dia inteiro, lendo alguma coisa, a maioria das vezes nem isso. Ficava na varanda, numa rede, e depois do almoço se trancava no quarto. Dormia. Acordava e saía desanimado para o Parque da Jaqueira, como se fosse por obrigação. Voltava já à noite, beijava a mulher, os filhos, comia alguma coisa leve e cedo se recolhia novamente, reaparecendo na sala de visitas às sete da manhã.

Os amigos notavam a mudança, se preocupavam um pouco, porém ninguém jamais imaginou ser problema sério.

Mesmo a mulher, companheira de tantos anos não percebeu o drama que se desenrolava dentro de casa.

A cidade crescia e crescia. Uma selva de cimento em cada bairro, novos centros comerciais em cada esquina e os adolescentes da classe média empinados, dando lições aos pais. O celular, a TV por assinatura, a internet, como se o mundo se reassumisse a uma parafernália eletrônica.

Os jovens pobres tomando cerveja e cachaça cada vez mais cedo, ouvindo muito forró estilizado, freqüentando os cybers e fazendo de tudo para também possuir um celular de cartão. Outros nem isso conseguiam, deixavam a escola, não arranjaam emprego e findavam empunhando um revólver que disparavam com raiva contra o primeiro rico que aparecesse à frente.

Talvez Byron fosse um animal pré-histórico, jurássico mesmo, como acusara uma amiga, ao ler o seu texto redigido numa máquina de escrever.

Mas não era isso que o entristecia, nem a ausência de Deus na sua vida, a falta dos amigos ou mesmo a não realização de sonhos da juventude.

Simplesmente estava cansado. Sem saber por que nascera e, pior ainda, por que tinha de morrer. E antes disso ficar doente, inútil, dando trabalho e preocupações aos seus.

Rosa era boa, era bela ainda. Mas reclamava do ritmo do trabalho, dos afazeres complementares em casa e de dores no corpo. E outras doenças que surgiam, exigindo médicos, remédios, tomando tempo e paciência.

O mundo parecia ser só dos jovens. Byron sentia isso e estava claro que não se preparara para envelhecer.

Por que, como no tempo de Noel, Deus não avisara da chuva, do mar invadindo as cidades e engolindo as pessoas? Se antes fora possível construir uma enorme arca, capaz de salvar homens, mulheres e diferentes espécies de bichos, imagine hoje, com tanta tecnologia, do que o ser humano seria capaz? Mas não houve alerta nenhum. Não apareceu um anjo, nem figuras rasgando o céu, não se utilizou o telefone, nem as ondas de rádio. O criador, no início tão pródigo em mensagens, conselhos e cobranças, agora não tinha a menor preocupação em prevenir os pecadores. Não se sabe também o porquê do Recife ter sido escolhida para a invasão das águas. Nas outras metrópoles, a tragédia não tinha a mesma dimensão, os carros circulavam, os operários compareciam às fábricas e quando terminava a jornada todos sentavam diante da TV, acompanhando os lances da novela e as denúncias veiculadas no telejornal.

Eu estava no mercado de Casa Amarela, comprando carne, queijo e umas verduras solicitadas pela mulher. Bêbados, empregadas domésticas, carroceiros e desempregados andavam em redor do velho centro comercial. Uns tomavam café com pão e ovos, nos boxes que serviam de lanchonete, e outros preferiam a cerveja, acompanhada de agulha frita. Tipos feios, mal vestidos, diferentes dos burgueses do Espinheiro, Graças, Apipucos e outros bairros não muito distantes. Tinha completado 32 anos, estava em boa fase, o corpo inteiro e muita disposição para namorar. Vera chamou logo a atenção, em meio aos proles que circulavam pelo velho bairro do Recife. Um pouco baixinha, branca, cabelos curtos, ostentava olhos de quem sabia o que queria. A boca era sensual e a voz, quando pude ouvir, transmitia doçura e segurança ao mesmo tempo.

Não foi a primeira nem a única, cometi o mesmo pecado várias vezes, sem que Rosa tivesse oportunidade de descobrir um Byron semelhante à maioria dos homens. Somos mentirosos, canalhas, hipócritas, sacanas, biologicamente destinados à infidelidade? Acho que até essa discussão um dia será desprovida de qualquer significado e tanto homens quanto mulheres poderão ser fiéis porque se bastam e não porque estão condicionados pela moral cristã, que vê pecado em tudo.

Portanto não vou ser hipócrita e negar que foi gostoso conhecer e amar Vera, beijá-la, senti-la, provar do seu jeito meio selvagem de se entregar.

Mas ficou só a lembrança, uma relação não resiste sem amor ou algum interesse mútuo. Só sexo e pronto, acaba logo, fica só aquela recordação de um corpo que um dia esteve colado ao seu. Confesso a vocês que é difícil falar dessas coisas, sou um cara circunspeto, silencioso, detesto me expor. Na verdade carreguei esse sentimento de pecado todas as vezes que troquei o corpo e o amor de Rosa por uma aventura fugaz. Felizmente, depois dos 40 anos comecei a aquietar, cansei de experimentações e constatei minha paixão definitiva pela companheira de tantos anos.

Nunca procurei saber, também não me deixei levar por ciúmes. Acredito, no entanto, que Rosa teve igualmente experiências extraconjugais. Pode até ter sentido prazer, rejuvenescido diante da coisa nova, sem, contudo deixar de amar o seu comandante Byron de tantas jornadas.

Não sou proprietário do seu corpo. Nem sou propriedade tua.

E hoje estamos livres da fogueira da juventude, dos vanguardismos e mesmo da busca por quaisquer sentidos da vida.

Os hospitais não conseguiam atender a demanda, os colégios interromperam as aulas logo nos primeiros dias de aguaceiro e o comércio simplesmente teve de fechar as portas. Os jogos de futebol foram ignorados, o metrô enguiçou e no zoológico de Dois Irmãos boa parte dos bichos morreu. Afogados ou libertados de suas jaulas, saíram nadando pela Avenida 17 de Agosto. Os sinais de trânsito se tornaram logo inúteis, antes mesmo da falta de energia elétrica que provocou engarrafamentos e suspensão das transmissões de rádio e televisão. Um caos. Loucura. Gritos, orações e como resposta mais chuva. Deus dava sinais de estar com raiva, disposto mesmo a punir a humanidade, que já tivera todas as chances. Não se sabe como, já que as comunicações estavam cortadas, veio a informação de que outras cidades já estavam sendo atingidas. Maceió, Natal, João Pessoa. Devia ser ironia. Começara pelo Nordeste e só depois os estragos chegariam ao centro-sul.

Faltavam apenas alguns meses para Rosa se aposentar. Chegou do trabalho cansada, dormiu cedo e logo às primeiras horas da manhã levantou e foi preparar um café. Achou estranho Byron não estar mais na cama e pensou encontrá-lo na cozinha. Na varanda, junto à mesinha de revistas localizou o bilhete. Leu sem entender nada, como se tivesse sido escrito por um ser de outro planeta. Uma brincadeira. Uma peça pregada por outra pessoa. Depois de ler três vezes começou a acreditar no texto surrealista do amante, marido, esposo, companheiro.

Um choque. Como um soco no estômago.

"Rosa, não dá mais. Não quero envelhecer e ficar cheio de manias, doenças, dando trabalho a você e gerando preocupações, inquietando os meninos. O mundo é deles, deixa eles se divertirem. Estou indo embora. Outro país, um abrigo qualquer me espera. Não serei feliz, mas evitarei sofrimentos. Fique certa de uma coisa: amo você, amo Júnior, Elisa e Madalena".

Ela e os filhos reviraram a cidade, procuraram a polícia, foram às redações dos jornais, das rádios, das TVs. Contataram os amigos todos, telefonaram para conhecidos de Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio, Florianópolis, Fortaleza, o Brasil inteiro.

Nada. Inútil.

Byron sumiu. Como que foi tragado por um tsunami invisível ou tele transportado por um disco voador.

Virou um desaparecido. Ele que suportara a ditadura, agüentara as torturas, o assassinato dos amigos, sumia assim, sem explicações, sem deixar culpados.

Porque tudo é mistério. Brasília Teimosa e Pina vêem o mar enfurecido, pessoas já impacientes e incrédulas pulando dos telhados e edifícios, como se as cenas do filme Titanic estivessem novamente sendo rodadas, num outro contexto e com outros figurantes. O bairro São José e o Recife Antigo desmoronando, sem que a correnteza poupasse ao menos a livraria Cultura, esta já totalmente destruída pela enchente, como um dia a Livro 7 perecera por conta da decadência do centro. Será que é mesmo o fim? Não sobrará ninguém, nem mesmo alguns, capazes de registrar a história e tentar recomeçar? Na bíblia, esse livro de tantas profecias, estava previsto essa catástrofe? Os cientistas terão alguma explicação convincente, uma explicação mais lógica de que a teoria do big bang para nos contar como se deu a origem do universo? Haverá futuro? Teremos novamente pessoas capazes de escrever um novíssimo testamento, mostrando como aconteceu o segundo dilúvio?

Comandante Byron, que um dia foi menino. Leve e solto pelas ruas do Recife. Jovem determinado capaz de vencer os desafios e conquistar respeito dos colegas. Tímido diante das mulheres, na maturidade encontrando um jeito de conhecê-las melhor. Companheiro. Pai. Trabalhador incansável, acreditando numa saída, na justiça, no desenvolvimento do Brasil. Homem de cabelos brancos, avô, evitando reclamar das dores do corpo e da alma, causadas pelo tempo e pelos que o decepcionaram.

"Rosa eu te amo. Rosa eu te amo".

Poucas vezes disse à companheira que a amava, detestava sentimentalismo. Mas estava explicito, ela sabia, por isso a cada dia procurava corresponder uma paixão que se outros não enxergavam estava estampada diante dos seus olhos.

O andar firme, o nariz saliente, os cabelos ondulados, as mãos pesadas e paradoxalmente macias.
Um homem, o seu homem. Sem nenhum medo de esconder os próprios erros, pequenos diante das grandes qualidades.

Saudade enorme. A vida nunca mais seria a mesma. A cidade perdera seu encanto e sua referência. Bares, parques, tribunas, pasquins, tudo agora infinitamente menor.

Tragado pela dor, pela angústia, pela não compreensão dos fatos e não aceitação do ritmo natural das coisas.

Desaparecido. Não estava nos cemitérios nem nos estádios. Tampouco fora se exilar no Chile de Allende ou outro país da América do Sul.

Nunca iria se esconder nos Estados Unidos e não teria como ficar na Europa.

Ninguém jamais descobriria como sumira assim, porque sumira assim, deixando-a tão só. Sem otimismo, alimentada pela ausência, a fé. Pensando sinceramente em também desaparecer. Da mesma maneira, tendo de escrever um bilhete curto sem maiores significados. E nunca saberiam do seu paradeiro, porque outra vez era somente ela e o querido comandante Byron.

A morte veio selvagem pela Avenida Norte e não poupou nem os habitantes dos morros. Santo Amaro, Torreão, Rosarinho, Nova Descoberta sentiram o mesmo sentimento da área Sul da cidade. O asfalto molhado, engolindo e milhares tentando se safar. E o calor. Teimava em esquentar mais e mais, quanto mais chovia. Os pobres, os ricos, os médios, agora nivelados pelo medo, imaginavam que de repente podia estiar. Recife amanheceria com os ônibus lotados, os carros avançando os sinais, pedintes e ambulantes no centro, desajustados assaltando nos bairros nobres, os jogadores do Sport em treino tático na Ilha do Retiro, madames entregando seus cabelos aos experts de Boa Viagem, homens obesos nos restaurantes da Ilha do Leite, carros da radiopatrulha, ambulância, jornais, meninas no semáforo, mulheres grávidas, operário sendo levado esfaqueado para o Hospital da Restauração, festa no estádio do Arruda, putas na Pracinha do Diário, estréia no multiplex, espera no consultório médico, rapaz conectado na internet, movimento nas feiras livres, promoções no supermercado, traições no motel da Antônio Falcão, greve dos funcionários da prefeitura, comerciais na TV e o sol forte, castigando, enervando, trazendo de volta à normalidade a capital pernambucana.

Os jornais noticiaram com destaque o gesto incompreensível do comandante Byron. Durante três dias foi investigado o mistério. Rosa, numa entrevista, falou de amor, saudade e episódios do tempo da militância política. Uma foto grande, na primeira página do velho Diario, expôs uma mulher bonita, sofrida e até certo ponto incrédula.

Depois os periódicos esqueceram o assunto, Byron sumiu também do noticiário. Rosa e os meninos se recolheram às miudezas do dia-a-dia e a cidade (o mundo) começou a esquecer o comandante.

O cheiro da juventude nos bares, uma nova apresentadora de TV, programas populares no rádio, reforma no aeroporto, engarrafamentos, discursos vazios no legislativo, demagogia dos governantes, velhos jogados em abrigos, crianças implorando nos sinais, assaltos, lembranças da enchente...

O Recife, apesar de tudo, sobrevivia.