Garanhuns, 16 de julho de 2005
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Os muito significados do "Saia Rodada"

Confesso que fiquei impressionado com a extensa procissão que seguia da Cohab II, do Mundaú, Novo Mundaú, Aloísio Pinto e outros bairros de Garanhuns em direção à Esplanada Cultural Guadalajara. Dezenas e dezenas de pessoas - a maioria jovens - em plena segunda-feira buscando simplesmente um pouco de diversão. Querendo dançar, beber, namorar, como complemento à catarse promovida pela banda que desde a campanha política passada adquiriu um significado especial no inconsciente coletivo da população da província.

Na praça, as centenas de pessoas dos bairros citados iriam se juntar a outras de diferentes áreas da cidade - Cohab I, Parque Fênix, Indiano, Brasília, São José, Magano, Manoel Xéu, Várzea... - formando um dos maiores públicos do Festival de Inverno de Garanhuns em suas 15 edições. E ainda tinha gente de São João, Angelim, Canhotinho, Lajedo, São Bento do Una,Jupi, Calçado, Caetés, Capoeiras, Paranatama, Terezinha, Bom Conselho, Brejão... Enfim de todo Agreste Meridional.

No sábado, o cantor alagoano Djavan levara de 50 a 60 mil pessoas ao pátio de eventos. Os meninos do Saia Rodada, que já haviam se apresentado na cidade em setembro de 2004 e na festa de Santo Antônio, em 2005, foram muito além. Tinha talvez 20 mil pessoas a mais do que no show do final de semana. Um espanto mesmo, a identificação da massa com o grupo de vozes grosseiras e músicas de gosto duvidoso.

Antes das estrelas subirem ao palco, o garanhuense de Maraial Gláucio Costa fez uma apresentação correta, com rapazes e moças fazendo uma coreografia bonita, enquanto a banda caprichava na execução da autêntica música nordestina. Um bom show, prejudicado pela pressa que forçou o artista a encurtar o repertório e sair da arena antes do previsto. E pra dizer a verdade o público nem se ligou tanto assim, porque todos esperavam o tal de Raí, a Coelhinha e demais componentes da companhia.

A multidão foi ao delírio quando Marcelo Jorge e Kitty Lopes anunciaram o Saia Rodada. O show começou com cenas do DVD, um disco mau produzido, de imagens tecnicamente pobres, expostas num telão e capazes de causar sensações de euforia na massa presente. E eis que desponta a voz do cantor, depois vêm todos os componentes do grupo, umas mocinhas até bonitinhas, outras nem tanto, rapazes de cabelos avermelhados, coreografias estranhas e canções de uma breguice primitiva, numa mistura de forró estilizado com lambada, bolero, samba ou se sabe lá o quê.

O vocalista nem é bonito. Se veste mal e sua voz é horrorosa. Não se consegue nem entender certas frases, pois a sua dicção é ruim, o som é gutural, como se estivesse por sair de uma caverna. O povão, contudo, não quer saber de nada disso, grita, dança, curte as frases pobres de sentido dividoso e admira os que rebolam lá em cima, certamente muito identificados com os artistas. Estes, tão limitados quanto os fãs, nem parecem saber o que representam, o significado de tanto sucesso.

O Saia Rodada não pode ser ignorado. Nem esnobado. Deve ser respeitado. Não se pode fazer crítica de um fenômeno assim sem um pouco de reflexão e conhecimento. O ideal seria fazer um estudo sociológico, político, talvez psicológico. Aliás pra entender as massas é preciso muita psicologia.

Karl Marx, no século XIX, escreveu que os homens do campo vivem em estado de "idiotia rural". O velho comunista, autor do capital, livro que informo logo não ter lido, sabia das coisas. Tanto que já estamos no século XXI e a observação do grande pensador está atualíssima e possivelmente nos ajuda a entender coisas como "Cavaleiros do Forró" e "Saia Rodada".

As nossas massas da periferia dos grandes centros, da periferia de Garanhuns, dos pequenos municípios do Agreste e da zona rural do Nordeste parecem estar ainda neste estágio de "idiotia rural" do qual falava Marx. São inocentes, ingênuos, desinformados, carentes de educação e valores culturais mais profundos.

Como podem pensar diferente jovens que têm uma péssima escola pública, que vêm de lares desestruturados e são submetidos a uma mídia alienante e sem nenhum compromisso com a cultura e a informação? Como podem evoluir pessoas que não lêem livros nem jornal, moças e rapazes que não conseguem emprego e assim muitas vezes não têm dinheiro sequer para a passagem de ônibus?

Como pode gostar de Djavan, Zeca Baleiro, João Bosco ou Renato Texeira quem só ouve Calypso e Limão com Mel? Quem não tem orientação nenhuma em casa ou na escola, quem vive uma vida primitiva e sem alternativos num mundo de internet e TV por assinaturas só para uma minoria de privilegiados...?

Ora, não é só Garanhuns. É o Brasil. No Recife, recentemente, no período junino, os grupos que fazem pé-de-serra, inclusive os consagrados Fagner e Elba Ramalho se apresentaram para um público reduzido, enquanto as bandas de forró estilizado ou coisa parecida atraíram multidões.

Num país em que a cultura do Congresso Nacional - a "Casa do Povo" - passa pelo mensalão e outros expedientes, não é de assombrar que os pobres, os excluídos, sejam tão pouco exigentes em relação aos seus ídolos. E tem a televisão, com essa força enorme, vomitando os Gugus e Faustões, promovendo sempre uma música falsamente sertaneja, falsamente nordestina, falsamente romântica - não merecendo muitas vezes nem o título de música.

Precisamos de mais livrarias, de mais bibliotecas, de melhores programas de rádio e TV, de melhores escolas, de políticos menos picaretas, mas o que temos? O sociólogo falador, governantes que só pensam em superávit, Garotinhos, Genoínos, Delúbios, prefeitos que praticam o crime legalizado, hipócritas, omissos...

Tudo isso tem a ver com o Saia Rodada e similares. Eles, claro, não sabem de nada disso. Se contentam com o sucesso e o dinheiro que ganham (e nessa sociedade capitalista saber ganhar dinheiro é tudo) e acreditam sinceramente que estão produzindo forró.

Será? Pode se comparar o produto de Luiz Gonzaga, de Dominguinhos, de Flávio José, de Maciel Melo, de Flávio Leandro, de Jorge de Altinho, de Santana e Gláucio Costa ao espetáculo grosseiro de Saia Rodada e Cavaleiros do Forró? Sinceramente, não. É como comparar um prato de camarão ou lagosta a uma buchada mal preparada, ou como achar que Paulo Coelho é tão profundo quanto Jean Paul Sartre.

É um estado de indigência cultural. E existem culpados por isso. Os empresários de comunicação, os responsáveis pela educação, os mercantilistas, os governantes que oferecem apenas circo, sem compromissos maiores com o futuro, a Igreja quando se omite, os jornalistas e radialistas quando se contentam com as políticas adotadas, os conservadores que apóiam a manutenção da ignorância por interesse de classe e os eleitores que erram tanto na hora de escolher os seus dirigentes ou representantes.

Engraçado. A Câmara Municipal de Garanhuns, na última eleição, ganhou uma representação fortemente rural. Estaríamos avançando (ou retrocedendo) para o estado discrito por Karl Marx mais de 100 anos atrás? Temos no grupo Saia Rodada um bom caminho para acharmos a resposta a essa pergunta. (R.A.)