Garanhuns, 2 de julho de 2005
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OPINIÃO
 

O rótulo

Nivaldo Tenório


Se há uma coisa que o povo gosta, é o de rotular, e quando é alguém rotulado injustamente, mesmo vindo à tona a verdade, prevalece uma tal de impressão à primeira vista, e não há passar dos séculos que desmanche o mal feito.

Vejamos o caso de Judas. Segundo os livros canônicos e apócrifos, teria ele entregado Jesus, por um injustificado punhado de moedas, às mãos sempre tão limpinhas de Pilatos e, arrependido, dá cabo da própria vida, dependurando-se numa corda até a língua esticar. Ora, teria sido Judas um reles traidor ou a segunda pessoa (ou no máximo a terceira se não nos esquecermos Paulo) depois de Cristo, responsável pela consolidação do Cristianismo? Tal cidadão, creio, foi e continua sendo um grande exemplo, senão o maior, de rotulado.

Rotulam a Judas de traidor e ninguém mais discute o fato de haver sido ele usado (e sobre isso, mesmo os teólogos, seres a quem fascina o inverossímil, concordam), como peça fundamental para a estratégia da expiação do cordeiro. Tudo isso, claro, com a melhor das intenções e aquiescência da Providência.

Apontam no pobre Judas suas fraquezas (que nós a temos todos), e esquecem-lhe os méritos. Na hora de citar exemplos de devoção lá se vão enumerados Pedro, Paulo, João, esquecendo-se, talvez, que tenha Pedro a Cristo negado três vezes e Paulo perseguidor, cego ter de ficar para de tal modo ver; e João, bem, muito moço ainda era João, não lhe apontemos falhas.

Talvez tenha sido Judas quem mais fé nutriu pelo Mestre, talvez imaginasse ele que no último instante iria o filho de Deus conjurar as forças do pai e fazer descer à terra tamanha legião de guerreiros alados e num instante precipitar a queda do Império Romano. Recriminemos, pois, a sabedoria de Judas, não sua fé. Não pôde ver (tolo que era), a estratégia já tão bem montada. O povo, Judas, só acredita em mártir, por isso Jesus precisou morrer. Ainda hoje é assim, só tem valor os mortos, pois levam à sepultura suas maledicências e nos corações deste mesmo povo renasce imaculado, personificando um ideal de amor platônico.

Como é função do rótulo distorcer os fatos ou concorrer para que só se enxergue a "verdade" segundo certos princípios e "boas intenções", não raro corrobora para os mais desacertados juízos e conquanto faça vítimas também fabrica seus pseudos-heróis. No caso do bom ladrão, nem falar precisa, depois de Robim Hood, o conceito de roubo deixou o plano comum e passou a figurar nas alturas incomensuráveis das discussões filosóficas. Sua natureza, antes ilícita, tornou-se dualista; configurando-se as boas intenções do ladrão, não devemos pesar dúvida sobre seu caráter lícito, Raskólnikov que o diga.

A alguns assassinos o rótulo também beneficiou. Enquanto na Europa Medieval se rotulavam os islamitas de demônios, os Cavaleiros das Cruzadas, abençoados pela Igreja vigente, se viam no dever de matá-los. No caso de um indivíduo assassinar uma dezena de pessoas, o rótulo tem se mostrado inflexível, taxa-o logo de criminoso e exige sua condenação. Todavia quando esse número excede a casa dos milhares, é notada uma grande condescendência: o antes réprobo se faz notável e ganha o rótulo de herói.

Judas, traidor, não teve a mesma sorte, mesmo morto não lhe perdoaram, contrariando assim os ensinamentos do bom Jesus quando sete vezes setenta trouxe ao mundo uma soma aproximada de quantas vezes o inimigo nosso, nossas escusas merece. A morte de Judas de nada serviu, senão a de acentuar-lhe ainda mais a sordidez, pois se matou e suicídio não é coisa que bom cristão aprove nem kardecista tampouco.

Se Judas escolheu o papel de traidor, não nos deve restar apenas apontar-lhe este fardo, imputando-lhe todo tipo de rigor, pois isso, os rótulos, cega-nos as vistas da razão, não nos deixa entrever o lado outro da moeda.