Garanhuns, 2 de julho de 2005
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OPINIÃO
 

Festival de Inverno de Garanhuns
Uma Historia de 15 Anos

Marcilio Reinaux


Nos idos de 1980 nós havíamos participado como conferencista, do Festival de Arte e Cultura de São Cristóvão, cidade tombada pelo Patrimônio Histórico do Estado de Sergipe. À época lecionávamos a Disciplina de Historia das Artes, como Professor da Universidade Federal de Pernambuco. Nas mesmas circunstâncias havíamos também naquele período, dado aulas em eventos semelhantes nas cidades históricas de São João Del Rey, Congonhas e Ouro Preto em Minas Gerais.

De tais empreitadas, voltávamos sempre encantados com a repercussão daqueles eventos e, sobretudo impressionados pelos benefícios sócio-culturais e empresariais que eles proporcionavam àquelas cidades e região. Pensamos várias vezes: por que não um festival em Garanhuns? Cidade com um clima maravilhoso, com um povo tão hospitaleiro, uma topografia adequada, poderia muito bem ter evento semelhante. Restava só para a idéia vingar, que ela fosse acolhida por autoridade com decisão política de quem tivesse poder para tanto. Assim pensando, um dia chegamos junto ao nosso amigo Ivo Amaral, então Prefeito de Garanhuns no seu primeiro mandato e dissemos: "Prefeito, precisamos ter um Festival de Inverno em Garanhuns!". O Prefeito olhou-nos, esboçou um largo sorriso e disse-nos: "Com certeza precisamos! Esta é uma excelente idéia, meu caro Reinaux!" Este episódio ocorreu em certo dia , debaixo do frio intenso de catorze graus, no mês de junho do ano de 1982.

Com o Prefeito Ivo Amaral de pronto defrontamo-nos com aquela expressão da qual nos fala o poeta Fernando Pessoa, ao dizer: "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce". Deus quis. Ali com Ivo, sonhamos em muitas conversas que se sucederam, mas depois juntos partilhamos com outras pessoas não apenas sonhadoras, mas também decididas e empreendedoras. E a obra nasceu no seu tempo próprio. Em julho de 1991 foi realizado o primeiro Festival.

Claro que o evento não surgiu tão logo, da noite para o dia. O tempo passou, mas o assunto e a decisão de fazer o festival nunca esmoreceu. Da parte da Prefeitura foram consumidos vários anos de gestões na busca de financiamento. Conversando, falando com pessoas, divulgando a idéia e enfim conquistando simpatizantes e apoiadores e ao final formatando a opinião pública. De nossa parte enquanto jornalista escrevemos várias vezes sobre o festival, como se pode verificar nos arquivos dos jornais: "O Monitor" e "Diário de Pernambuco". Ali têm tudo que publicamos. A semente do festival, fora lançada sobre terra fértil, alicerçada no desejo de alguns homens públicos bem intencionados em fazer o que é bom para a comunidade à qual eles servem.

Sempre tivemos o sentimento de que o FIG (como ficou sendo chamado), transformou-se em uma frondosa árvore sob a sombra da qual, milhares de pessoas trabalham, centenas de empresas acionam seus negócios, instituições públicas e privadas atuam fortemente, a industria e o comercio ficam mais "azeitados" em especial aqueles das atividades informais. Todos se valem do festival. Os artistas desde os famosos aos que vão surgindo a cada ano vão dando os seus recados. A intelectualidade do povo de Garanhuns e de outros da Região do Agreste Meridional, encontram eco nos seus valores e nas suas versatilidades; a capacidade criadora das mulheres, o gênio inventivo do homem simples que faz um artesanato excepcional, afloram em manifestações artísticas, estéticas e culturais de intenso calor humano. Um novo comportamento social regionalista se desenhou com o festival, vez que as pessoas e a cidade se preparam para a festança, seja trabalhando, seja se divertindo, fazendo novas amizades. Assim, tem-se formatado uma nova leitura do valor sócio-antropológico do próprio povo, ao longo destes anos. Estudiosos dessa área poderão com alunos universitários, estudarem a essência cultural que o festival ensejou para a região. Tudo isso foi, é e tem sido e será sempre o Festival de Inverno de Garanhuns.

Mas nem sempre foi fácil e nem sempre tem sido bom. Em meio caminho: pedras. Houve uma época em que alguns aventureiros e "estrangeiros" da terrinha, descompromissados com os objetivos do evento, arvoraram-se "donos do festival";" pintaram" e "bordaram" para tirar vantagens, mas não conseguiram. Afinal, o "Festival de Inverno de Garanhuns", nunca foi, não o é, nem nunca será de ninguém. Não existe nenhum "proprietário" do FIG. Ele é do povo de Garanhuns que o construiu e o prestigiou durante todos estes anos. Por isso mesmo, é que sobreviveu como uma ação vitoriosa. São tantos benefícios decorrentes e recorrentes, que fica difícil enumera-los. Hoje há muitas vidas, muita gente gravitando em torno do festival, cujas ações se inserem no planejamento, na organização e realização a cada ano, sejam artistas, trabalhadores, obreiros, comerciantes, empresários e o público em geral, com a efetiva participação gerencial das autoridades Municipais e do Estado.

Esse cadinho efevercente de tanta agitação sócio-cultural de um povo (que a cada ano se repete), é a razão fundamental da existência do festival. Somente tudo isso, tem sido possível, por conta da determinação, da dedicação, do cuidado, do esforço e até do sacrifício de muitos, alguns dos quais, perderam-se ou até foram esquecidos pela poeira do tempo. Neste olhar retrospectivo da Historia do Festival, surge agora, uma boa oportunidade de se fazer um exercício da mais límpida justiça. Devemos resgatar a memória de quem trabalhou, lembrar quem criou, de quem corporificou o Festival e o transformou nessa grande e respeitada promoção cultural de Garanhuns. Cabe aqui o registro das suas origens, porque elas foram pontilhadas de sacrifícios.

Assim, entendemos que reconhecer o mérito, passa a ser antes de tudo um dever de cidadania. O povo desta Terra de Simôa Gomes deve ter a consciência de que na sua História, o Festival de Inverno já ocupa um capítulo especial, gravado indelevelmente para a posteridade. E mais: nestas páginas leia-se os nomes de tantos que mourejaram pelo festival, como são exemplos: Ivo Amaral, que pegou na idéia e levou-a adiante. Pode-se dizer - por justiça que Ivo Amaral foi o criador do festival. O Governador Joaquim Francisco que apoiou Ivo nas primeiras dificuldades e o seu então presidente da Fundarpe, Rubem Valença. O Professor Jaime Pinheiro(então Secretario de Planejamento do Município). O cantor Dominguinhos que veio fazer suas apresentações, "por amor à sua terra"; Empresários esclarecidos, verdadeiros baluartes, como Ciro Ferreira Costa, esta legenda da vida de Garanhuns. E mais Mario Barbosa Filho, Paulo Tavares Correia, Luciano Oliveira. Estes acreditaram no festival e neles investiram. Ainda as atuações do Governador Miguel Arraes, e os incansáveis Prefeitos Bartolomeu Quidute e Silvino Duarte que deram cada um a seu tempo todo impulso necessário para a realização e continuação dos festival em seguidas edições. Nos últimos anos desponta a figura de Bruno Lisboa, este executivo de mão-cheia, que como Presidente da Fundarpe, tem levado o FIG como uma das suas prioridades nas gestões daquela Instituição. O Governador Jarbas Vasconcelos, homem sensível para a Cultura e para as Artes do nosso Estado, ele mesmo um festeiro, tem exercitado todo seu prestigio e apoio ao festival.

Plaquinhas que com eufemismo e mesmice, costumam sem dadas por Instituições às pessoas que fizeram alguma coisa boa, ou prestaram bons serviços, não cabem nas medidas daqueles aqui citados. No nosso entender eles constituíram os alicerces bem fortalecidos do grande edifício do festival. Que sobre os seus nomes seja exercitado o mérito: Que reconheçamos todos nós o verdadeiro sentido da expressão: "A quem honra, honra".E assim, para quem trabalhou, prestando relevantes serviços à Cultura de Garanhuns. A eles que já são parte dessa eloqüente historia: a Historia do Festival de Inverno de Garanhuns, rendamos as nossas homenagens.


Marcilio Reinaux, Jornalista e Membro da Academia de Letras de Garanhuns