Garanhuns, 18 de junho de 2005
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OPINIÃO
 

"O pavão misterioso"

Marcilio Reinaux


Volto o pensamento para os meus dias de menino e vejo-me na feira de Garanhuns, em frente a um cantador de Literatura de Cordel. O homem em seu cantarolar desengonçado, discorre as maravilhosas aventuras dos grandes heróis dos Sertões e dos Agrestes e de vários mundos de personagens irreais. Tudo aflorando da incomensurável criatividade de um punhado inteligente de pessoas simples. São aqueles autores que por essa literatura, dita popular, impressionante e bela, enquanto rica em autenticidade e ingenuidade, nos brindam com historias inverossímeis. Com fértil imaginação, eles descrevem figuras de animais alados, dragões, "besta-fera" e ou pessoas comuns, ou príncipes de "Terras Encantadas", princesas, mulheres, coisas banais, o pitoresco, e o picaresco, ou fatos execráveis em contraste com a beleza da narrativa. São sempre episódios fantásticos, enredados e mentirosos, levando todos a mundos irreais, resultado de fertilíssima imaginação. Ouço ainda o cantarolar de poemas como aquele:"A Peleja do Cego Aderaldo e Zé Pretinho", ou "As Lambanças de Lampião", ou lembrando o que mais gostava: "Juvenal e o Dragão".

Mas dentre tantos, nenhum folheto de cordel pode ser mais lembrado, do que "O Pavão Misterioso". Seja pela beleza da composição poética, pela invencionice excepcional do seu autor, ou seja, pela universalidade do tema e da trama da história narrada. Das linhas do cordel, o pavão ganhou os espaços, ou melhor: literalmente ganhou as alturas da Literatura Popular, desde quando em 1985 o cantor Ednardo gravava o disco com a música do mesmo nome. Tão famosa ficou a música com outra letra inventada, que foi usada como trilha sonora da novela global "Saramandaia", que tinha um personagem que expelia formiga pelo nariz. A letra é bonita: "O pavão misterioso / Pássaro formoso / Tudo é mistério / Nesse seu voar / Ah! se eu fosse assim / Tanta coisa teria pra contar." Posteriormente Antonio Madureira, Antonio Nóbrega e Erickson Luna fizeram um CD com 12 músicas, sendo "O Pavão", a principal. E mais "O Pavão", nos seus vôos, chegou ao teatro e com mais força do que palavras, com gestos levam a tanto para um "mundo mágico". Foi o teatrólogo José Mario Austregésilo, e seus colaboradores: Alberto Vinicius e Paulo Góes, que encenaram "O Pavão Misterioso". No cordel, o Nordeste e o Oriente se confundem; a Grecia e a Turquia, parecem ser as "Terras de Simôa Gomes" e Canhotinho. Assim o pavão rasga os céus com João Evangelista o grande herói em busca de Creusa a sua amada aprisionada numa torre.

O autores do folheto: José Campelo de Melo e João Melquíades Ferreira da Silva, (se vivos fossem) ficariam maravilhados vendo o que foi possível fazer com a idéia original, cujo enredo é o amor arrebatado de João Evangelista, que abandona a casa, a terra e o irmão, e vai numa grande viagem levado pelo pavão misterioso, em busca da amada: uma princesa do oriente chamada Creusa.

Não se sabe ao certo onde nasceram os autores, quando a historia foi escrita, quantas edições já foram feitas desse texto. Mas é provável que centenas e que milhares e milhares de livrinhos, tenham passado pelos olhos de muitos milhares de leitores que se deliciaram com a narrativa. Uma quase epopéia direcionada para um forte conteúdo social da luta do Capitalismo, representado pelo personagem Evangelista (um turco abastado dono de uma fábrica) e o Feudalismo, representado pelo Conde, o Grego, pai de Creusa, a amada de João. Por fim, vê-se que a "luta" da filha contra o pai possessivo, dita princesa, aprisionada em uma torre, à espera da libertação, representa de certa forma a vida real, especialmente de algumas mulheres à espera de "príncipes encantados.".

Eis aqui mais um tema empolgante, a Literatura de Cordel, para figurar na programação do pretendido "Festival Literário de Garanhuns", que será possivelmente - realizado ainda este ano. Até porque "O Pavão Misterioso" e seus mistérios, enquanto rica e lúdica literatura de cordel, continua vivo, à espera de uma releitura de tema tão empolgante. Eu gosto muito de pavões. Tenho vários, que são criados no meu quintal. Talvez assim se explique a minha paixão pelo "Pavão Misterioso". O do cordel.


Marcilio Reinaux, é da Academia Garanhuense de Letras e Presidente da Academia Brasileira de Cerimonial e Protocolo.