Garanhuns, 18 de junho de 2005
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OPINIÃO
 

Do real comhecimento da história

Pe. José Inácio de Medeiros


Li recentemente o artigo escrito pelo professor Antonio Vilela neste jornal e gostaria de tecer sobre ele alguns comentários. Primeiro fiquei me perguntando sobre a real motivação que o levou a escrever tal artigo e se o referido professor é jornalista, como eu também não sou. Mas gostaria de dizer que entre o jornalismo e a fofoca existe uma linha bastante nítida. O jornalismo quando é sério, investigativo e analítico presta um grande serviço à sociedade. Aliás é até bom esclarecer que o jornalismo está colocado, segundo pesquisa, entre as entidades ou instituições que gozam de maior credibilidade neste país. Mas a fofoca, ao contrario, lota as bancas de jornal e revistas de informações com a única finalidade de suscitar polêmicas baratas e sem sentido. Quantos que, por estes meios, procuram ter os seus 5 minutos de fama. E só! Fiquei me perguntando se o referido professor tem a preocupação de se encaixar em qual dessas categorias?

Outra dúvida que passou pela minha mente foi sobre as fontes de informações ou qual bibliografia foi por ele consultada. Porque em seu artigo ele cometeu alguns erros grossos, como o que se refere à papisa Joana. Aquilo que as pesquisas e estudos mais sérios colocam como simplesmente uma lenda, o professor coloca como se fosse uma verdade. Sabemos que, diferentemente do que acontece em outros níveis de governo, a escolha do sucessor de Pedro passa por outros critérios e que, mesmo naquele tempo (século IX), dificilmente uma mulher seria colocada no trono pontifício.

Outro erro cometido pelo dito professor foi esconder certas verdades sobre a origem das dificuldades enfrentadas pela Igreja no que se refere ao governo Pontifício. Sabemos e isto as fontes mais seguras mostram, que grande parte das dificuldades enfrentadas pela Igreja vinha da cobiça do poder temporal e das tentativas variadas que seus ocupantes faziam para se apoderar do trono pontifício.

Na sua série de papas indicados como aqueles que "envergonham a humanidade" o dito
professor negligenciou dados e fatos que mostram que o mal não foi tão grande assim como ele nos apresenta. Porque ele não falou dos papas reformadores e de seu contributo? Aqueles que se dedicam ao estudo da história sabem que um erro que podemos cometer e de falar de fatos isolados, sem contextualizá-los. Não podemos cometer o erro de julgar um fato fora do seu contexto, ao ponto de cometermos uma injustiça muito grande. A história medieval precisa ser compreendida, estudada e analisada dentro dos critérios próprios daquele tempo e daquele contexto. Como que eu com minha mentalidade e conhecimento de alguém que vive no século XXI, posso julgar alguém que viveu num outro contexto? Se isto acontecer, o que o artigo acima citado mostra, os fatos sairão distorcidos,correndo o perigo de que escreve sobre eles ser tendencioso e maléfico.

Entre tantos erros cometidos no artigo em questão fala-se dos 100 mil protestantes mortos em 1211, sob o pontificado de Inocêncio III, mas como, se o movimento protestante somente começou a partir de Martinho Lutero lá no futuro século XVI?

Outro erro que apareceu, entre aqueles já indicados, foi a colocação de um papa João XXIII no século XV, sendo que todos nós sabemos e lembramos de papa João XXIII do Concílio Vaticano II e do ingente trabalho de atualização na Igreja a partir dos anos 50, no século XX. Aquele que o professor indica como papa entre 1410 e 1415 não faz parte do longo número dos 265 papas que governaram a Igreja, mas sim na relação dos anti-papas que muito prejudicaram a Igreja e a sociedade de seu tempo, sendo que vários deles foram colocados como papa pelo imperador ou por outros grupos de interesses.

Não existe da parte de nenhum de nós a preocupação ou o desejo de esconder a verdade, querendo "cobrir o sol com a peneira", pois sabemos que a Igreja é santa, mas também é pecadora, porque é formada de seres humanos falhos e imperfeitos. Sabemos outrossim que todo erro quando assumido.serve de lição para o presente e para o futuro. Se, como ele afirma tantos papas envergonharam a humanidade, o que dizer dos 77 reconhecidos pela sua santidade, espiritualidade e virtude heróicas, que servem sim de modelo não só para os cristãos, mas para toda a humanidade. São santos, não apenas por serem venerados pelo povo, mas por servirem de exemplo, sobretudo em nossos dias quando a humanidade vê os seus valores basilares sendo solapados e destruídos.

Para clareza maior lembramos que todo aquele que sobe às honras dos altares o faz após um longo processo criterioso e sério. Estes tantos não contribuem muito mais do que aqueles que, de uma forma exagerada, incompleta e imperfeita foram apresentados?


Pe. José Inácio de Medeiros, CSsR, Mestrado em História da Igreja pela, Universidade Gregoriana de Roma.