Garanhuns, 18 de junho de 2005
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OPINIÃO
 

O resgate do desenvolvimento do Agreste Meridional

Armando Monteiro


Na década de 90, a produção de leite cresceu 43% no Brasil. No mesmo período, em Pernambuco, houve um declínio de 32% de 305 milhões de litros em 1989 para 209 milhões em 1998. Nos últimos anos, as políticas públicas de apoio ao setor não foram capazes de promover a revitalização da bacia leiteira. Hoje, o Estado produz apenas um terço do que consome.

Com 10.828 km² e cerca de 600 mil habitantes espalhados em 26 municípios, o Agreste Meridional é responsável por 42,5% da produção de leite no Estado. A falta de uma política eficiente voltada à pecuária leiteira, que representa a mais expressiva vocação econômica da região, resultou no empobrecimento da população local.

Historicamente, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da região é inferior à média do Estado. A falta de perspectivas de trabalho tem estimulado a migração rural, agravando os índices de miséria e violência nos centros urbanos, especialmente em Garanhuns.

Os pequenos produtores da região sobrevivem com uma margem mínima de lucro: de US$0,16 a US$ 0,21 por litro. Os indicadores de qualidade de vida revelam um elevado nível de pobreza, que se expressa pelo desemprego/subemprego, subnutrição, avanço de doenças infecto-contagiosas e alto índice de analfabetismo. Este lamentável diagnóstico está sintetizado na Nota Técnica elaborada pela Embrapa, com base na análise do documento "Compilação Radiográfica da Região do Agreste Meridional".

Estes problemas devem ser enfrentados em ritmo de urgência. Por essa razão, a Federação das Indústrias de Pernambuco (Fiepe), com o apoio da Confederação Nacional da Indústria (CNI), associou-se ao Ministério do Desenvolvimento Agrário e aos prefeitos da região. A assinatura de um convênio vai beneficiar pequenos produtores de leite e derivados com projetos de aprimoramento tecnológico e capacitação.

Os recursos são da ordem de R$ 25 milhões e a ação será coordenada pela Agência de Desenvolvimento Rural Integrado. A Fiepe, com a participação da CNI, disponibilizou os recursos iniciais para contratação dos técnicos que vão capacitar agricultores e elaborar os projetos de inovação tecnológica a serem implantados.

Em março, participamos de audiência com o ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos, quando discutimos a aprovação do projeto de instalação de uma usina de beneficiamento de leite no Agreste. A unidade terá infra-estrutura adequada para atender produtores de Buíque, Tupanatinga, Ibimirim, Pedra, Venturosa, Capoeiras e Caetés.

Ações como essas, voltadas ao crescimento sócio-econômico dos pernambucanos, são fundamentais para estimular as economias locais. Mas as desigualdades sociais só podem ser de fato reduzidas com investimentos na melhoria da qualidade da educação. Por isso, reforçamos a presença do Senai na região. Em Garanhuns, principal pólo do agreste meridional, um centro de formação profissional está sendo concluído. Como opção especial, vai oferecer à população da região cursos de tecnologia e aperfeiçoamento na produção de derivados de leite.

Em atuação conjunta com o deputado estadual Izaías Régis, também estamos empenhados em viabilizar o compromisso assumido pelo Ministério da Educação de implantar no campus de Garanhuns da UFRPE cursos administrados pela UFPE. Entre eles, o de Enfermagem Superior, com início no próximo ano.

Outro obstáculo ao desenvolvimento da região é a questão do abastecimento de água. Este é o momento de reivindicarmos ações definitivas para o agreste meridional. A construção do canal leste, que iniciará a transposição do rio São Francisco em Pernambuco, não atenderá à região. Está previsto, no futuro, a construção do chamado "canal do agreste", mas nem mesmo foi concluído o relatório de impacto ambiental (RIMA), que ficou a cargo do governo estadual.

A construção do sistema adutor Frei Damião, projeto do DNOCS/PE, é uma reivindicação antiga da população. Para se ter uma idéia de sua importância, basta dizer que poderá abastecer com água de boa qualidade 32 municípios. E mais: a transposição não inviabiliza tecnicamente a construção da adutora, que está inserida nas bacias do Ipanema e do Moxotó.

O desenvolvimento do Agreste passa por um leque mais vasto de iniciativas, além das que foram destacadas aqui. Mas é imperioso reconhecer que as vocações econômicas e os projetos já identificados como viáveis pela própria população devem ser priorizados em um plano de crescimento sério, sustentável e com responsabilidade social.


Armando Monteiro é deputado federal e presidente da CNI.