Garanhuns, 18 de junho de 2005
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OPINIÃO
 

E a Caixa Econômica inventou o limbo...

Nivaldo Tenório


"Não há nada tão ruim que não possa piorar."
velho adágio militar


Uma vez escrevi um pequeno artigo sobre as filas de Banco; algo num tom jocoso, fazendo uma aproximação entre a fila e o Purgatório. Parece que a Caixa Econômica resolveu legitimar ainda mais a analogia feita por mim naquela ocasião.

E tudo começa com um grande malogro que sofre o pobre do cliente. O leitor logo, logo vai entender aonde eu quero chegar, mas partamos do princípio. Pois bem. No princípio eram as filas, e as filas as promoviam o Banco. Então a Caixa viu que não era bom e resolveu promover um novo atendimento (tudo em nome do bem estar do cliente). Você, cliente amigo, não precisa se preocupar, basta ligar de casa ou do orelhão e o 0800 fará o resto. Uma moça de voz aveludada do outro lado da linha, depois dos cumprimentos de praxe: "Bom dia, boa tarde, o senhor isso, o senhor aquilo e blá,blá,blá. Depois, enfim, da cantilena, vai informa-lo de que seu atendimento estará marcado para a hora de sua preferência.

Então você fica feliz e até sente diminuir um pouco o descrédito que normalmente o acompanha quando tem de lidar com as Instituições do Governo. Mas como diz o ditado: alegria de cliente de Banco dura pouco; e tudo cai por terra tão logo você se encontre no setor dos caixas.

A primeira coisa que nos chama a atenção é a fila; nem mais nem menos longa e sinuosa. Mas, com uma agravante: Quem disse que você pode se pôr ali e garantir seu último lugar?Nada disso. Uma atendente com uma cara de poucos amigos e uma pré-disposição à ressaca (não a de Capitu, nada a ver com olhos dissimulados que nos seduz), a ressaca da atendente sugere miopia ou entorpecimento; seus olhos fitam-nos, mas não nos enxergam; somos números que desfilam. Números pequenininhos, insignificantes.

Pois bem, a tal atendente nos convida a fazer parte de um limbo, onde encontramos outros infelizes que aguardam a redenção de serem chamados para figurarem como último lugar na fila. De tempos em tempos, fitando uma enorme lista no computador, a funcionária já descrita por mim, nem mais nem menos simpática, resolve chamar por aqueles que acreditaram no 0800 e que marcaram seu atendimento para às 10h30min, não obstante o relógio, o símbolo maior da modernidade e da correria, indicar que já passe da hora do almoço e o nosso finalmente alcançado último lugar na fila nos separa ainda em pelo menos uma hora e meia do caixa.

Muitos que me conhecem sabem do meu fervor religioso e não estranharam quando eu disse que as filas de Banco servem ao menos para que nós (pecadores) possamos purgar um pouco os nossos pecados. De fato, todos hão de concordar que é a fila de Banco (embora sobre isso Dante nada tenha dito), a mais perfeita versão moderna do Purgatório.

Corroboram comigo todos os governos que, embora diferentes nisso e naquilo, são (ninguém há de negar) do mesmo e sacratíssimo interesse pela salvação de nossa alma. Amém!