Garanhuns, 18 de junho de 2005
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OPINIÃO
 

Um encontro com a felicidade

Renara Almeida


O primeiro show que vi no Festival de Inverno de Garanhuns foi o de MPB4, em 1993. Lembro o meu encantamento com aquela apresentação e, embora não conhecesse muito sobre os quatro "rapazes", adorei a presença deles no palco. O repertório maravilhoso não era bem o que eu e meus amigos de colégio conhecíamos profundamente, mas foi um momento especial que marcou minha vida.

O primeiro passo, a possibilidade de aprender sobre nossas raízes, nossa música e nossa história estava ao meu alcance. Era a realização de um sonho que eu ainda não tinha ousado sonhar, e que já podia viver graças àquela festa. Eu vivia reclamando por não termos opções de lazer, entretenimento e arte. Por mais que algumas pessoas tentassem reverter à situação, a falta de apoio dificultava a concretização dos projetos que, quase sempre, eram condenados e aprisionados em gavetas. Tudo o que eu desejava era conquistar em outros horizontes o que minha cidade não oferecia.

Meus amigos riam quando eu falava que ao nascer eu não tinha chorado por ter levado uma palmadinha do médico, mas sim por perceber que havia nascido em Garanhuns. Ao passar dos anos fui crescendo lado a lado com o festival, nos parques, no teatro, na Guadalajara, nas oficinas, nas exposições e, principalmente, nas pessoas. Como é enriquecedora a grande confraternização que fazemos todo mês de julho.

Como é bom, ainda, sair com a família, marcar encontro com os amigos ou encontrá-los por acaso, comentar sobre os shows, lamentar as ausências, ficar dividido entre as atrações da Esplanada e do Parque Euclides Dourado. Sair correndo do Pau Pombo para não perder as apresentações teatrais no Centro Cultural, comer bolinho de queijo com chocolate quente, ver os ensaios, conferir os shows da frente do palco e sentir calor mesmo com os termômetros marcando 10°C. Andar pelas ruas, tomar banho de chuva, visitar os pontos turísticos e ficar em êxtase ao ouvir alguém falar deslumbrado sobre tudo que conheceu.

Foi assim que comecei a me encontrar, a ter certeza do que realmente gostava. Por isso acredito que o FIG foi um divisor de águas na vida de toda uma geração que encontrou nele uma oportunidade única de crescimento, de um futuro diferente, melhor, mais valioso, movido por nossa riqueza cultural.
Mais de uma década se passou depois daquele dia em que, inconscientemente, comecei a caminhar à procura de algo que nem mesmo sabia o que era. Tinha apenas a convicção de que era possível ir em busca de meus sonhos através daquela porta que se abria na Cidade das Flores, uma passagem que me conduziria e mostraria a trilha por onde eu deveria seguir para escrever minha própria história. Uma passagem de ida e volta. Influenciada por ela fiz minha escolha profissional, ou melhor, me descobri jornalista e, embora tenha passado por momentos de dúvidas, foi sempre com a ajuda do festival que me reencontrei. Como um amigo fiel, ele sempre me mostrou o caminho e seguiu comigo até aqui.

Hoje, apesar de tudo que acabei de revelar, quero deixar bem claro que não retiro nenhuma palavra sobre aquela declaração de que chorei ao me descobrir cidadã garanhuense; porém, preciso acrescentar algo importante: Aprendi que também se chora de felicidade. Tenho orgulho de ter nascido em Garanhuns e renascido com o Festival de Inverno de Garanhuns.