Garanhuns, 4 de junho de 2005
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OPINIÃO
 

O Escritor e a Tradição

Nivaldo Tenório


Dizer que um escritor segue a tradição não é afirmar em outras palavras que ele seja cultor de formas anacrônicas ou temas idem; não confundir com neoclassicismo. Também não é acusá-lo de plágio nem tampouco fazê-lo herdeiro de uma herança segundo a contingência da legitimidade do sangue; nada a ver com a ética aristocrática, mas com a ética segundo Hesíodo; estamos falando do esforço da labuta, do direito adquirido, por que conquistado.
Sondar o Castelo de Kafka, chorar com Riobaldo a morte de Diadorim, amar e odiar Joyce, sonhar com os tigres de Borges e querer lutar ao lado de Quixote mesmo sabendo que os moinhos não são dragões. Talvez seja isso e muito mais o que se queira dizer com seguir a tradição.

Também não estamos falando de apenas ler Borges, Cortázar, Joyce, Faulkner ou Guimarães Rosa, ou tantos outros, mas de tentar penetrar o mundo ali recriado pela magia da linguagem e disso inferir, quem sabe, um novo conceito. Talvez antropofagia seja algo muito mais antigo do que supõe Gilberto Gil e Caetano. Haroldo de Campos nunca dispensou a tradição, foi o melhor tradutor da Divina Comédia de Dante. Também traduziu Homero. Sem conhecer a tradição jamais seria capaz de "acabarcomeçar com a escritura", jamais teria sido um dos pivores do Concretismo.

Dentro de sua oficina, o escritor trabalha sua matéria prima, a linguagem; dispensar a tradição seria o mesmo que abrir mão da ferramenta sem a qual a matéria prima continuaria matéria prima. Há poucas verdades absolutas, mas poucas têm a força deste axioma: "não se cria nada do nada." Nem mesmo Deus foi capaz de tal prodígio, foi preciso haver sua essência para o mundo ser criado.

Uma poesia não é apenas meia dúzia de palavras bonitinhas que falam de amor e outras excentricidades humanas. As palavras requerem sentido maior do que aquele que lhes subordina o dicionário. A escolha dessas palavras não é vulgar, não obedece a mero acaso ou não deve nascer apenas de um espírito inquieto (a inquietação, só ela, muitas vezes gera o animalesco ou o caos e isso são apenas matérias de poesia, e não a poesia). Escolher as palavras, dispor as palavras e emprestar-lhes sentido é dever do poeta. O que dizer então de poetas que ao longo de sua vida não estreitou uma relação (de interesse, curiosidade, de amizade e fidelidade) com o mundo das palavras?

Sentir? Sinta quem ler, já nos disse Fernando Pessoa.

Outro dia, assistindo a uma palestra de um especialista em cinema não me recordo o nome do cidadão chamou-me a atenção uma de suas declarações: "Falta cultura à nova geração de cineastas brasileiros". Pois é, aos cineastas referidos por ele e a uma parcela significativa de artistas plásticos, músicos e até poetas embora seja a poesia, de todas as artes, a que mais apela para o intelecto propriamente dito , com cineastas sem cultura teremos uma produção piegas e superficial, incapaz de sondar o homem e determinar sua identidade. O mesmo diga-se de escritores, artistas plásticos, músicos, diretores de teatro etc.

Incrível que algumas pessoas, certamente movidas por um misto de inocência e estupidez, possam crer que a criação artista não seja produto do intelecto. Seguir a tradição é não dispensar a cultura nem incorrer na inocência e estupidez.

Literatura, cinema, teatro, música, são coisas muito sérias. Praticá-las como mera terapia ocupacional deveria ser considerado crime. Seguir a tradição é considerar toda e qualquer forma de diletantismo uma indignação.