Garanhuns, 4 de junho de 2005
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OPINIÃO
 

O dragão Chinês

Rafael Brasil


Ouvia muito um tio querido, tio Ronaldo, sempre a repetir: "Como dizia Napoleão, quando a China acordar, o mundo tremerá". O mesmo mostraria que tem conhecimento de causa, e um ótimo faro de analista político. Já nos tempos de Napoleão, a China, prestes a ter suas portas arrombadas pelos imperialismos, mais notadamente o inglês, já era uma grande potência. Só que fechada em torno de si mesma. Aliás, desde os tempos renascentistas, com a expansão comercial marítima européia, a China já era uma potência. Uma potência impenetrável, mas que legou aos ocidentais, coisas como a pólvora, o papel, a bússola, e o nosso conhecido e delicioso macarrão. Muitas dessas invenções, segundo relatam historiadores das fofocas do passado, foram arrancadas pelos europeus através do velho instrumento da tortura. Que ainda sobrevive em lugares como o Brasil, a China, e por que não dizer territórios dominados pelo imperialismo americano, como está acontecendo com os prisioneiros de Guantânamo. E por falar em Guantânamo, em Cuba também, com àquela ditadura cada vez mais horrorosa.

Depois de humilhado pelo ocidente, a China ressurge depois da revolução liderada pelos comunistas, sob o comando de Mao Tsé Tsung, autodenominado de o grande timoneiro. A revolução de 1949, dirigida pelo partido comunista, foi feita quebrando a ortodoxia dos manuais marxistas-leninistas, do campo para a cidade. Ou seja, uma revolução camponesa, que o PC do B quis imitar aqui no Brasil, na região do Araguaim no início dos anos 70. Talvez pela escassez de camponeses no lugar, a guerrilha comunista foi facilmente abortada pelos militares, comandados pelo paraquedistas Hugo Abreu, da linha dura do exército, e que, para o bem de todos, Geisel mandou para casa.

A revolução maoísta causaria um grande cisma no mundo comunista, com o rompimento com a União Soviética, nos fins dos anos 50. Contrariando também o imaginário marxista-leninista, de que duas nações socialistas não brigariam, o rompimento foi quase total. Novamente fechada em si mesma, Mao leva os chineses à aventura da então chamada revolução cultural. Que visava erradicar o que os comunistas maoístas propugnavam de resquícios pequenos burgueses na sociedade chinesa, e a adoção radical do modelo coletivista, onde a juventude revolucionária, embebida pelo livrinho vermelho do grande timoneiro, tornaria-se na vanguarda do movimento. Que teve o apoio de intelectuais famosos de esquerda, como Jean Paul Sartre, nos anos 60.

A remoção dos resquícios burgueses da sociedade chinesa, significava também no aniquilamento das universidades e escolas técnicas do país, com a prisão, morte exílio, de milhares de professores, considerados perigosos, porque intelectuais pequeno-burgueses. Dentre os perseguidos, um velho e resoluto baixinho, que iria mudar tudo, o reformista Deng Chiao Ping.

Dizem que a revolução cultural, pela deterioração da já acanhada estrutura econômica do país, matou milhões de pessoas. Vinte? Trinta? Talvez o número exato, nunca saberemos, mas não morreram só de fome, mas de perseguições e humilhações públicas. O próprio Deng, escapou por pouco. Só que, com a morte de Mao, Deng e seu grupo reformista, ganharam a sucessão, contra a viúva de Mao, e seu grupo, denominado pelos partidários de Deng depois da vitória, como a gang dos quatro. Que ainda devem estar presos enquanto escrevo, senão mortos. É assim que se travam as sucessões em regimes fechados e totalitários, como o chinês. Onde, através de julgamentos sumários, se executam pessoas em estádios de futebol, dentre tantas arbitrariedades características dos regimes totalitários.

Deng, ao assumir, começou as reformas capitalistas na china. Começou pela descoletivização da agricultura, alugando terras aos camponeses, e permitindo o lucro e as leis de mercado, diminuindo significativamente a fome, endêmica, naquele país. Depois, com a assessoria do ultra liberal Milton Friedman, começou a abrir o país, de uma forma controlada por zonas especiais, para o capitalismo, nacional e estrangeiro. E não é que o capitalismo deles é mais liberal que o nosso? Bem, depois comentaremos o assunto. Mas Lula quer liberar o bloco econômico o qual pertenceria a China. Os chineses, com seus habituais orgulhos nacionalistas milenares, diga-se de passagem, riem das pretensões brasileiras. E já estão tratando na prática nosso país como fornecedor de produtos primários ou comodites, e consumidor de produtos de alto valor tecnológico agregado. Na verdade, hoje a economia mundial depende da China, cada vez mais. O espantoso crescimento chinês e seu imensdo mercado, mexem com corações e mentes do capitalismo contemporâneo. Já o nosso capitalismo, como sempre, não favorece a todos. Na China, esperam entrar na economia capitalista, pelo menos uns 800 milhões de chineses. Será que a economia de mercado vai abrir possibilidades de uma democratização na China? Veremos. Segundo analistas, daqui a 20 anos, seguindo o atual ritmo de crescimento, a economia chinesa empata com a Norte-Americana. Quem for vivo vera´. E nós onde estaremos? Discutindo reforma tributária?