Garanhuns, 21 de maio de 2005
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OPINIÃO
 

"Amilcar, este insígne homem público"

Marcílio Reinaux


A palavra insigne é muito pouco para designar, qualificar ou sequer traduzir tudo o que tem sido o cidadão, o amigo, o chefe de Família, o político, o homem público a quem Garanhuns e todo o Agreste Meridional de Pernambuco, muito devem: Amílcar da Mota Valença. No dia 19 deste mês de maio, pela Graça de Deus ele chegou aos 90 anos. É uma idade quase centenária, que espelha uma trajetória de homem público dos mais destacados desta nossa Terra das Colinas Verdejantes. Quem se dispuser a dar uma olhada na Historiografia Política de Garanhuns desde a Constituinte, vai encontrar nestes agrestes, a figura de Amilcar pontificando, ora como Vereador, ora como Prefeito, mas em ambas as funções públicas, como destacado batalhador. Prestando relevantes serviços ao município, notadamente nas lides da educação e da cultura, Amilcar começou sua vida política como Vereador Constituinte com o seu primeiro mandato entre 1947 a 1951. Ali esteve junto com outros Pares, dos quais conhecemos alguns: como Alfredo Leite, Deudedith Maia, Ernesto Dourado, Fausto Souto Maior, Othoniel Gueiros entre outros.

Presença marcante na vereança, tanto assim que foi eleito para um segundo mandato entre 1951 a 1955, sendo seus companheiros, outros conhecidos do nosso tempo: Elias de Barros, José Pinto, Uzzae Canuto, Pedro Lima.

Pela terceira vez Amilcar logrou êxito nas urnas sendo consagrado com o voto popular e democrático, para o mandato de 1955 a 1959. Ali estava junto com Aluisio Pinto, José Cardoso, Luiz Pereira Junior, Geraldo Calado e outros. Nos anos seguintes Amílcar deu um tempo a política, porém não se afastando. Já em 1963 retorna à cena agora como Prefeito, dirigindo o Município até 1968. O advogado Everardo Gueiros foi seu vice. Dos Vereadores do período entre outros, Ivo Amaral, perfilando-se também como um político veemente defensor dos interesses do Município, afinou muito com Amílcar, pelos ideais tendo a Cultura e a Educação como um fulcro das suas ações. Da época eram vereadores: Jaime Pinheiro, José Inácio, Paulo Faustino e outros. Esta primeira administração pública, do Executivo do Município, foi assinalada pela criação do Colégio Municipal, uma das grandes conquistas de Garanhuns. Um dos muitos legados deixados por Amílcar. De 1969 a 1972, ele teve outro descanso da política e cuidou de outras atividades, inclusive de sua propriedade, uma fazenda no Distrito de São Pedro. Em 1973 convocado pela quinta vez para atuar no cenário político de Garanhuns, ele volta à Prefeitura e vai alinhar-se no topo da política e pela segunda vez ocupando a Edilidade do Município até 31 de janeiro o ano de 1977, tendo Ivo Amaral como seu vice.

Agora, Ivo não era apenas o companheiro, nem só o discípulo, mas um braço forte. "Ivo é o braço direito de Amílcar", escutava-se na voz do povo. Governaram juntos numa salutar parceria em benefício do município. Pode-se dizer que Ivo Amaral teve em Amílcar, alem de um fraterno amigo, um fiel companheiro de jornada polÍtica. Este foi um período auspicioso para a Garanhuns e Região do Agreste Meridional. Registre-se a criação da Faculdade de Administração de Garanhuns FAGA, empreendimento vitorioso até hoje, fincado que foi com raízes profundas e robustas. O plantio dessa grande "árvore" que é a FAGA, "foi feito em terreno fértil, junto a ribeiros de águas", a quatro mãos: as de Amílcar Valença e Ivo Amaral. Ambos fizeram tudo que os prefeitos fazem: obras publicas das mais diversas, todas em beneficio dos munícipes. São obras quando boas - marcam gestões administrativas. Mas há outro tipo de obras que marcam não apenas gestões, mas que ficam para gerações seguidas. O Ginásio e a Faculdade são exemplos dessa perenidade. Representam uma herança muito rica para Garanhuns. Da convivência sobremodo salutar com Amílcar, Ivo Amaral foi levado à outros degraus de seu destino político. Elevado ao cargo maior do Executivo, foi eleito Prefeito para a legislatura seguinte entre 1977 a l982.

Homem público por natureza, Amílcar foi em toda sua vida, de uma dedicação, extremada à educação. Parecia ouvir sempre o ensinamento do grande Pensador francês Michelet, (1798-1874) que lembrava: "A primeira parte da política, é a educação. A segunda: a educação. A terceira: a educação". Deste modo Amílcar, nunca entendeu política sem educação, pois vivendo essa premissa e esse ensinamento, em tudo que fazia, colocava sempre em primeiro lugar a educação.

Ele vinha de uma linhagem de educadores, onde estava o caráter e as ações de quase todos os membros da sua família. Uma plêiade com origens nos costados da Serra de Ororubá, do Município de Pesqueira, e de São Bento do Una, outros. Porém, Amílcar já nasceu mesmo em Garanhuns, na Praça João Pessoa. Dos doze irmãos, seis, foram professores e educadores. Grandes educadores diga-se de passagem. Quem em Garanhuns não conheceu os Mota Valença? Quantas gerações foram moldadas no caráter e na educação por eles? Vale lembrar as Professoras: Arlinda, Almira, Alcina, Anita. Abigail foi Secretária ) . Alódia e Armida não foram professoras. E mais: os imrãos Padre Agobar, e o Padre Adelmar e os irmãos: Asnar e Abgar (foram bancários).

E do seu irmão o Padre Adelmar da Mota Valença como educador,o que dizer dele? Este foi e continua sendo uma legenda na Historia da Educação de Garanhuns Pernambuco e repercutindo no Brasil. Com efeito foi a mais excepcional figura de educador que se conheceu no século passado. É nesse cadinho de religiosos e educadores que Amílcar foi forjado, em boa têmpera. Sua vida e sua obra, assim o provam. A bênção de Deus esteve sempre com essa família de longevos. Quase todos que já se foram, foram depois dos oitenta anos. Os pais Abílio: faleceu com 98 e a mãe, Emilia com 97 anos. Foi o único casal que conhecemos que completou "Bodas de Diamante"(75 anos de casados)

O homem público Amílcar da Mota Valença, legitimado pela consagração do voto popular, trazia sempre consigo aquela premissa Napoleônica, que dizia: "En politique il faut guérir lês maux, jamais les venger". "Em política, é preciso curar os males, nunca vinga-los". Como religioso que sempre foi, Amílcar nunca teve ímpeto de vingança em qualquer momento de sua vida pública. Ele representa ou tipifica como exemplo para várias gerações, um exponencial de uma safra de grandes e competentes políticos que Garanhuns produziu no século passado. Vem de uma fornada de homens públicos, sérios, corretos, íntegros. Uma geração de políticos com reserva moral, que floresceu em Garanhuns à época, com muitos, dentre os quais Amílcar foi o timoneiro.

Voltamos á reflexão inicial de insigne. Diz-se de insigne a pessoa, assinalada, destacada, ou extraordinária, em algum aspecto da vida, do trabalho, algo referente à Família, ou do comportamento pessoal, ou ainda com respeito à atitudes de caráter excepcional. A qualificação ainda distingue como insignes, pessoas famosas, eminentes e célebres. Amílcar se não é um pessoa famosa ou mesmo se não foi uma celebridade no sentido amplo da palavra, com certeza, o cidadão Amilcar da Mota Valença, foi, é e tem sido, esse homem público extraordinário. O grande líder político da Alemanha, Von Bismarck (1815 / 1898) em memorável discurso político proferido em 1863, afirmava que: "A política não é uma Ciência exata, mas é uma arte". Amílcar como um Mestre da Arte, maneja bem os instrumentos da política em beneficio do povo. Por isso afirmamos: "Amílcar, este insigne homem público".


Marcilio Reinaux, é da Academia Garanhuense de Letras e Presidente da Academia Brasileira de Cerimonial e Protocolo