Garanhuns, 21 de maio de 2005
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Santa Rita, rogai por nós (Vila)

"O tempo, todavia, não é mais que a simples imagem da eternidade, (...) E só por causa dele conhecemos nossa existência, e a de todas as coisas, como transitórias, finitas e destinadas ao aniquilamento." (Schopenhauer)


A imagem ficara certa para o feriado de Tira-dentes. Os homens iriam a pé, mulas. Molambos. As mulheres iriam em carro, alcochoadas. Espremidas. O destino era o sítio Monteiro, nas proximidades de Santa Rita, vizinho a Brejão. Acordei às quatro e meia. Tomei banho frio, após grande resignação; entraria aos poucos ou meteria todo o corpo n´água fria, gelada? Engoli o café choco, friento da noite passada. Quatro bolachas travosas forraram-me o estômago batido. Aquele café fora engolido por necessidade. Um remédio ruim pela manhã. Não queria demonstrar fraqueza de cara, no início da viagem, daí a necessidade de forçar a alimentação minguada. Contudo estava disposto. Rijo. Esses impulsos deixavam-me ansioso. Vontade de avexar o tempo, empurrá-lo, esquecer-lhe a lentidão. Urgílio.

Estive pronto com antecedências. Andava pela casa com passos curtos, lépidos. Inquietos. Que poderia esperar desse dia? Por hora, a essa idéia, a cabeça encontrava-se em vaguidão, folha sem ramo. Seca. Já havia feito outras caminhadas; no começo a gente se punha no asfalto, cheios de conversas, rompendo o vento, passos de seme-corrida, depois se nos afigura a estrada de barro, a rodagem. Mas nada aí de tão longe, uma légua em conta generosa. A rodagem mesmo demonstrava-se gasta no exercício de carros e carroças de burros. O caminho marcado pelos dois pneus, afundando nos cantos destes. Ao meio a terra mantinha-se alta, em planalto. Em alguns locais cresciam matos. Flores. Toda essa manifestação denotava que não encontrava-me longe da cidade, que ali havia trânsito fluente. Estava, a bem dizer, num bairro distante. Que poderia esperar desse dia? O que sabia é que o destino era longe. O que era longe a pé? Que fariamos: caminhar ou viajar?

Dera cinco horas da manhã, fora este o horário combinado, acertado com ímpetos e forte aperto de mãos, na segurança de que não haveria atrasos. Viriam uns passando nas casas dos outros e por fim o bando passaria em casa para pegar-me. Dera cinco horas, o combinado. Tinha que dar um desconto, sempre há atrasos, imprevistos, ainda mais quando se passa de casa em casa, recolhendo os demais. Poderiam as mães os recomendar cautela, "cuidado com os carros e com as cobras. Cuidado onde a sua vai fussar. Devia ter tomado café, tá em tempo ainda, leve um chapéu que mais tarde o tempo esquenta e o caminho deve ser descampado, ao menos na pista é. Abra o olho. Deus abeçõe. Deus e o Papa. Vá com Deus. "Pudera alguém atrasar-se ainda no banho do corpo, no enxágue da boca ou, o que seria mais provável, no arrumar da mochila. Uma roupa de banho para o espojar-se no açude, um lanche; pão com mortadela, suco, iogurte, copos descartáveis. Uma mochila para as costas, os músculos dormidos, porém, prevenida para as necessidades, papel higiênico, bordado e cheiroso.

Escutei vozes aproximando-se rápido, decerto que não era dia de feira, não haveria movimentos por essa hora. Aproximavam-se mais rápido, altas, em algazarra. Era a minha milícia que vinha sem dar pelo sono alheio, animada como convém ao início de caminhada longa. Vinham ali para buscar-me, desconfigurar-me das mazelas habituais do descanso mecânico e travoso do feriado. Dei bença aos de casa. Tranquei as portas fazendo barulho para que soubessem que de fato as trancava, tranquilizassem. Feitas as camaradagens costumeiras, partimos.