Garanhuns, 21 de maio de 2005
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Gláucio Costa valoriza a poesia e o forró pé-de-serra

Roberto Almeida


Dias atrás, no Recife, cantores e compositores regionais, poetas que fazem questão de preservar a autêntica música nordestina, fizeram um protesto contra a valorização do falso forró em detrimento do legítimo pé-de-serra. Como se sabe, por todo esse Brasil surgiu uma verdadeira praga de bandas com nomes nem sempre criativos - Mastruz com Leite, Catuaba com Amendoim, Limão com Mel, Calcinha Preta, Cavaleiros do Forró - , que produzem um som extremamente pobre, meloso, brega, pegando carona na riqueza poética e no legado de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino e outros que realmente souberam traduzir em música o sofrimento e a alegria da gente do Nordeste. Acontece que esse forró deturpado e usurpado tem sido privilegiado nas rádios e na cabeça dos governantes que promovem festas, enquanto os verdadeiros artistas da região, a exemplo de Flávio José, Jorge de Altinho, Dominguinhos, Maciel Melo, Santana, Israel Filho e Gláucio Costa ficam em segundo plano. Daí a razão do protesto. A coisa é tão absurda que Silvério Pessoa e o próprio Santana já têm seu talento reconhecido até na Europa, enquanto por aqui são preteridos, principalmente nos shows, por qualquer Rapadura com Caviar recém lançado.

Felizmente, os bons cantores e compositores nordestinos protestam, defendem o seu trabalho (e a cultura regional) e ao mesmo tempo continuam produzindo ótimos discos. Como é o caso do garanhuense de Maraial Gláucio Costa, que lançou há pouco o seu nono CD e, atinado com seus parceiros e companheiros de luta, deu um banho de poesia e valorização do autêntico pé-de-serra da primeira a última faixa. A provocação - no bom sentido - do artista local, começa pelo título do disco: "O Matuto Cantador". Continua nas fotografias da sanfona e casa de taipa, que ilustram o encarte, e fecha nas letras que falam de amor, frutas, terra, saudade, triângulo, zabumba, fazenda e do próprio forró.

Dá a impressão até que ele (Gláucio) ou os compositores que lhe cederam as músicas estão engajados num grande movimento de defesa da música nordestina de qualidade, com a preservação do forró pé-de-serra, do xote e do baião. Um movimento que passa ou começa nos discos, se extende aos shows e chega às ruas, caso do protesto citado, no centro da capital pernambucana. Mas deixemos de "delongas", vamos a uma rápida análise do CD de Gláucio Costa.

O disco abre com "Brocoió", assinada por Celso Cruz, Carlos Zens e G. Costa. É forró e xote dos bons, daqueles que deixa o sujeito com vontade de arrastar os pés e toca fundo no "orgulho de ser nordestino": "Eu sou matuto, gosto de forró/sou raiz, sou verdadeiro/eu sou brocoió". No final, para não deixar dúvida, o recado dos poetas: "Saí da roça/e fui pra cidade/me bateu uma saudade/eu tive que voltar/sou brocoió/nasci no mato/de direito e de fato/aqui é meu lugar".

Depois do "grito de guerra", da exposição no "orgulho de ser matuto", um forró romântico composto por Zeca Brasil. O amor cantado com inteligência, sem nada a ver com as breguiçes de Calypso e Companhia. "Pode ser um jeca no Sertão/pode ter até anel de doutor/pode ser poeta/pode ser profeta/pode ser cantor/pode ser um samurai no Japão/pode ser um pigmeu no Equador/pode ser cientista/não há quem resista/ os encantos do amor"

Aí entra a sanfona do Genaro (que brilha nas onze faixas do disco), já arrazando, e em seguida a voz de Gláucio dispara o mais animado dos forrós do CD. A letra é de Maria Dapaz e Nino e canta à perfeição o clima de certas festas que ainda hoje acontecem nos sítios de nosso Agreste: "É um jogo de empurra empurra/pega pega no salão/é cintura com cintura/é um tal de passa a mão/é um pisa no sapato/e fungado no gogó/é mei quilo de poeira/mas eu passo a noite inteira/eu me amarro no forró/é um gosto de cachaça/misturado com batom/é um bebo cheio de graça/e um chiado no som/é um dedo na sanfona/e um cheiro no xodó/é cantada no ouvido/desodorante vencido/eu me amarro no forró".

A música seguinte, "Visgo de Mangaba", de Zé de Barros, é poesia pura. Gláucio, com sua voz agreste, fala das coisas do coração, num xote ritmado, que é também uma declaração pelo campo, pelas belezas da natureza: "O nosso amor é que nem visgo de mangaba/jabuticaba doce tirada do pé/mel de abelha misturada com farinha/é manhãzinha com cheirinho de café/o nosso amor é um riacho cristalino/onde o destino nos pegou e deu um nó/o nosso amor é feito pela natureza/é uma beleza e cada vez fica melhor".

"Vou Deixar Não", faixa cinco do disco, de autoria de Xico Bezerra, prossegue a viagem poética de Gláucio Costa. É uma bela canção, tocante em música e letra quando apregoa que "saudade boa eu nunca vi/só no verso do poeta/ela maltrata ela inquieta/rói por dentro é ruim que só/se fosse boa essa lágrima/que rola no meu rosto/não teria aquele gosto/amargo feito jiló".

O arrasta-pé está de volta com "Amor que faz bem", do bem conhecido Jorge de Altinho, autor da belíssima música que fala de Juazeiro e Petrolina. É um forrózinho animado que não destoa do conjunto do disco, embora não tenha a mesma força de "Eu me amarro no forró" e de outra faixas do CD. Mas vale também pela ironia anti-machista que diz "A minha vida com você tá enrolada/já não mando mais em nada/quem manda é você".

O amor à terra, a saudade, a dor de viver na cidade e a paixão pela natureza se destacam novamente na força dos versos de Zé Barros. "Filho da Terra" é novamente pura poesia: "Esse riacho ainda ontem era docinho/esse umbuzeiro era verde como o quê/aqui meu pai chegava sempre bem cedinho/pra se banhar, pra levar água pra beber/e hoje vejo esse céu avermelhado/meu açude esturricado/vento forte poeirão/sinceramente esse deserto medonho/deixou meu olhar tristonho/e partiu meu coração/mas eu fou filho da terra/qual fugitivo da guerra/retirante sem querer/do campo pra cidade/de tristeza e de saudade/qualquer dia eu vou morrer".

Outro baião "arretado" de Zeca Brasil ilumina o trabalho de Gláucio, insistindo em cantar o amor: "Coração bateu mais forte/cá dentro do peito/não teve jeito/a saudade me apertou/pisei fundo acelerei/levantei poeira/não perdi tempo/ fui buscar o meu amor/do nosso chamego embaixo dos lençóis/vontade de te dar um beijo/acordar cedinho sair pro jardim/pra regar os girassóis/tu e eu a sós'.

Se havia alguma dúvida da intenção do artista em defender com mais vigor o pé-de-serra, esta se dissipa agora, na faixa de número nove do CD, intitulada sabiamente de "Forró pra valer". Galvão Filho e Chico Moraes, os autores, levantam com vigor a bandeira da autêntica música do Nordeste: "Se tem triangueiro pra tocar/se tem zabumbeiro pra bater/se tem sanfoneiro pra fungar/e tem moça pra gemer/pode dizer isso é forró/isso é forró pra valer/o forró da cultura nordestina/tem o cheiro do suor da Carolina/e o verso do aboio do vaqueiro/tem a fala do Nordeste sempre viva/tem a força do cantar de Patativa/e a arte milenar do sanfoneiro". Essa aí até Gonzagão (citado indiretamente na menção à Carolina) e o cearense Patativa do Asssaré agradecem, eles que devem tá lã no céu, animando o universo do criador.

Outro bom forró é "Ração de Amor", de Ilmar Cavalcante. "Se eu pudesse dar um jeito/não sofria tanto assim/e tirava desse peito/toda dor que há em mim/sei que existe esperança/tá tão pouca posso ver/mas quem gosta nunca cansa/nem esquece um bem querer". A letra é boa e a música animada, numa inquietante harmonia de Genaro (sanfona), Mongol (baixo), Quartinha (triângulo e zabumba) e Hito (bombo, chimbau e agogô).

E pra terminar bem o que bem começou, Gláucio Costa encerra o disco com "Céu de Balão", de Xico Bezerra e Luciano Nunes. É música típica de São João, falando de fogueira, balão e amor que dói no peito. Novamente vem aquela vontade de arrastar os pés, pra depois, quem sabe, comer pamonha, canjica e milho assado: "O amor se aboletou de vez/dentro do meu coração/ardo de paixão em meio ao massapê/sou fogueira de São João/oh! Balão que sobe lá no céu/leva à lua o meu cantar/que as estrelas num grande escarcéu/acendam pra celebrar".

Como disse acertadamente a jornalista Jamine Tavares no encarte do CD de Gláucio Costa, "O Matuto Cantador retrata a essência do nordestino, porque fala de nossas origens, das raízes de nossa arte e tradições. E tem o cheiro do pé-de-serra, traduzindo a linguagem do povo através de canções que falam do amor, da terra e de sua cultura. Tudo isso embalado ao som da sanfona, da zabumba, do triângulo e da voz do artista". Parabéns Gláucio por resisistir, insistir e nos brindar a cada ano com trabalhos tão coerentes. E que as rádios toquem a sua música, para que os ouvintes também possam apreciar algo verdadeiro, que é um pouquinho a cara de todos nós.