Garanhuns, 7 de maio de 2005
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OPINIÃO
 

Lula, os papas e os papos

Rafael Brasil


São inegavelmente bonitos os rituais milenares, inventados pelos católicos, e aperfeiçoados ao longo desses dois milênios. Tanto o ritual fúnebre do papa falecido, como o processo eleitoral que elegeu o novo papa, uma eleição essencialmente oligárquica, tão ao gosto dos gregos antigo. Como sabemos, a grande maioria dos filósofos gregos tinha uma clara preferência pelos governos oligárquicos, que para eles significavam governo dos bons. Para eles, a democracia era uma forma degenerada de governo, embora menos maléfica do que a tirania, por exemplo.

Como diria o saudoso Nélson Rodrigues, foi um funeral realmente digno de um papa. Além do mais, foi um funeral amplamente coberto pela mídia, e cada passo, foi registrado pelas milhares de câmaras de todas as partes do mundo. Por isso, certamente, teve garantido a presença de inúmeros chefes de estado, inclusive de países mulçumanos tidos como extremamente radicais e politicamente perigosos como o Irã, do moderado Kathami. E por falar em chefes de estado, claro, estava presente o nosso Lula com sua alegre comitiva. A qual também esteve presente, Fernando Henrique, Sarney, Severino Cavalcanti, além de líderes religiosos judeus, mulçumanos, e uma mãe de santo que chegou atrasada e perdeu a boquinha.

Dizem que Fernando Henrique convenceu Lula a não torcer tanto pela eleição de um papa brasileiro, pois a eleição do mesmo serviria na prática para obliterar a popularidade do próprio Lula. Fernando Henrique disse que, quando presidente, inventou de viajar à Inglaterra com Pelé, e, claro, todas as atenções, sobretudo dos populares, foram direcionadas ao ex-jogador. Pavão como é, FHC ficou chupando o dedo, pois ficou parecendo que ele integrava a comitiva de Pelé, não o contrário. Segundo alguns marqueteiros - esta praga que infesta o país - tudo não passou de uma bela jogada de Lula. Bom, e daí?

Logo depois Lula foi para a África. Ver se garimpa uns votinhos para o Brasil arranjar o tão sonhado lugar no Conselho de Segurança da ONU. Veremos se os EUA vão deixar. Afinal, Lula vem com os abraços e os perdões, e os americanos vem com o dinheiro e investimentos. Por falar em perdões, tal qual o falecido papa João Paulo II fez com os perseguidores massacrados e assassinados pelos cristãos no pasado, Lula pediu perdão aos africanos pelos nosso passado escravista. Deveria mesmo pedir perdão pela discriminação radical no Brasil e pela exclusão do negro da nossa sociedade. Exclusão vergonhosa, como nos mostram todos os indicadores sociais e econômicos. Claro, um gesto de perdão é sempre bem-vindo, está diretamente relacionado com o espírito cristão. Porém lembremos que quem ia pagar os escravos no interior para vendê-los, eram os próprios negros africanos. E a escravidão, como uma forma de trabalho e relações sociais pré-capitalistas, ainda persiste na África. O continente onde, salvo pequenas e honrosas exceções, a vida não vale um "derréis de mel coado". Ademais, em lugares ermos, também pinta uma escravidãozinha no Brasil. Não é Inocêncio Oliveira?

E o novo papa, com aqueles olhos diabólicos? Diante do carismático João Paulo II, parece cara de picolé de chuchu. E, como João Paulo II, um grande conservador, fiel escudeiro da doutrina católica. Claro, os católicos vão solenemente ignorar o conservadorismo da Igreja Católica. Afinal, todo mundo não vai deixar de fazer sexo por prazer, nem tampouco deixar de usar anticoceptivos, nem camisinha. Porém, a Igreja é essencialmente conservadora. Qualquer uma, de qualquer religião. Por isso, quem é religioso, tem que engolir os conservadorismos. Ademais, segundo o historiador Hobsbawn, a grande força anti-capitalista no final do século XX foi a Igreja Católica, sob o reinado de João Paulo II. Claro, um anti-capitalismo conservador, mas disso falaremos depois. Quem não quiser engolir conservadorismo, faça como eu. Não vá à Igreja. Nenhuma. Para quem gosta, claro, felicidades...