Garanhuns, 23 de abril de 2005
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A Vila: um belo exemplar da sétima arte

O cinema foi sabiamente classificado como a sétima arte, embora nem sempre mereça essa avaliação. Às vezes é só diversão, besteirol, entretenimento, quando não serve para divulgação de grosserias e ideologias conservadoras. Mas também na música, na literatura, na poesia, no teatro e na pintura temos muita produção que representa a antítese da arte. Um viva, pois, ao artista verdadeiro, capaz de produzir beleza escrevendo, compondo, representando, esculpindo ou dirigindo um filme que mexa ao mesmo tempo com a cabeça e o coração.

Gênios como Chaplin, Bergman, Felinni, Visconti, De Sica, Polanski, Altman e o mestre do suspense Alfred Hitchcock deixaram obras inesquecíveis, que ainda hoje emocionam, estão na memória de milhões de pessoas. Filmes cultuados inclusive por jovens que têm sensibilidade. Outros bons cineastas surgiram, mesmo no Brasil que nos deu os excelentes 'Vidas Secas" e o , "O Pagador de Promessas", mas a indústria americana cresceu demais, comercializou em excesso a "sétima arte" e são tantos efeitos especiais e tantas cifras que esquecemos a capacidade do cinema de ampliar (nem sempre) o universo literário, ou do teatro e principalmente da televisão.

A introdução, no entanto, está um tanto longa. Vamos escrever logo sobre "A Vila", este belo filme que já pode ser encontrado nas locadoras de Garanhuns. O filme é escrito e dirigido por um cineasta de nome complicado, Might Shyamalan, o mesmo que produziu o roteiro do badalado "O Sexto Sentido". E este último trabalho do cineasta até é vendido no trailer e na capa do DVD como se fosse um suspense semelhante ao estrelado por Bruce Wills.

"A Vila", porém, muito mais do que um suspense é uma fábula, uma história narrada num clima de mistério que vai revelando situações reais inesperadas, sem nada de fantástico ou sobrenatural, como se poderia esperar. Os moradores do lugarejo distante do mundo, retratados no filme, que parecem assombrados por criaturas estranhas, estão é rompidos com a civilização, a cidade grande, o mundo globalizado que gera violência e injustiça.

Eles, os habitantes da Vila, estão atrás da natureza perdida, da vida no campo, da utopia. "A Cidade e as Serras", bom livro do escritor português Eça de Queiroz já abordava essa questão no século XIX. Outros escritores fizeram isso. Americanos como Stembeck, franceses como Zola, e brasileiros como José Lins do Rego e Jorge Amado. "Riacho Doce" e "Pureza", do segipano e "Tieta", do baiano, passeiam um pouco por esse campo, embora não tanto quanto Eça.

Voltando ao cinema, lembro que o japonês Kurasava, no belo Derzu Uzalá, retrata com maestria a poesia que pode haver na vida do campo, a partir da pureza do personagem título. Tem ainda um filme italiano, "Árvore dos Tamancos", belíssimo, que também faz a vida entre bichos e plantas parecer melhor que aquela vivida entre carros e edifícios.

Pois "A Vila", mesmo que não tenha o mesmo reconhecimento das obras citadas desses cineastas italianos, japoneses ou ingleses, é gostoso de assistir como a um concerto. A fotografia é singular, com um tom propositadamente desbotado, a trilha sonora é rica, casando à perfeição com o ritmo da história, cenários e beleza dos personagens. Há ainda de se ressaltar o figurino, a interpretação dos atores escalados para o longa e a direção segura e sem afetação do surpreendente Shyamalan.

No elenco ninguém destoa, mas não há como deixar de destacar a participação dos veteranos William Hurt e Signourney Weaver, que fazem o papel de dois dos anciãos que comandam a vida dos moradores da vila. Adrien Brody e Joaquim Phoenix, dois dos jovens do lugarejo também têm muita força expressiva, assim como os outros personagens do bom filme de Might.

"A Vila" não é um filme intelectualizado, tanto que pode ser apreciado até por adolescentes acostumados a coisas mais amenas. Nem é pretencioso, como muitos que são feitos e só podem ser entendidos por iluminados. É uma obra interessante que diverte, provoca reflexões, deslumbra com belas imagens, emociona com revelações inesperadas, sensibiliza com músicas que desfilam na tela como uma sinfonia e deixa a critério do expectador responder as perguntas: Vale a pena se isolar? Tentar criar um mundo diferenciado? É possível eliminar a violência? Por que o amor acontece entre pessoas diferentes? Um homem ou uma mulher são capazes de tudo por amor?

O filme "A Vila" pode suscitar tudo isso. Mas o melhor mesmo é você assisti-lo e fazer suas próprias considerações. (R.A.).