Garanhuns, 9 de abril de 2005
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OPINIÃO
 

A eutanásia no Brasil

Rafael Brasil


Muito interessante o debate sobre a eutanásia nos Estados Unidos. Aliás, devemos considerar a riqueza e importância dos debates travados pela sociedade civil norte-americana, o que demonstra o vigor e a tradição dos poderes dos cidadãos de lá. Como todo mundo viu na televisão, lutavam os setores religiosos da sociedade, contra uma decisão judicial, permitindo o desligamento das máquinas que mantinham viva uma cidadã, há mais de uma década. O marido, que cuidava dela lutou e conseguiu abreviar o sofrimento dessa pobre mulher, seguindo inclusive a vontade dela, segundo o próprio marido e testemunhas.

Até o presidente, muito ligado aos fundamentalistas religiosos de lá, apelou, mas não teve jeito. A pobre mulher morreu de inanição, quando poderia mesmo receber uma dose letal de medicamentos já há algumas semanas abreviando ainda mais suas secretas dores. Porém, o que importa é que, a eutanásia foi autorizada judicialmente, e por isso o debate foi intenso.

Particularmente sou a favor. Claro, desde que com critérios muito específicados, como na Holanda. O cidadão ou cidadã está tão ruim, que a pessoa deveria ter o direito de optar pelo abreviamento de uma vida, que nem mais vida é. Pessoalmente, se um dia chegar a uma situação dessas me suicidaria, isto é, se tivessem coragem. Creio que de certa forma abreviar uma vida vegetativa se constitui num ato humanitário.

Claro, a igreja é contra, até pela filosofia cristã, de uma valorização infinita da vida. Porém, a eutanásia é praticada a cada dia no Brasil, todos os dias, e ninguém, salvo algumas reportagens esporádicas na imprensa, discute o assunto. E a eutanásia praticada no Brasil, como o aborto, se constitui num assunto tabu, embora as duas práticas sejam comuns nesse país. Quem tem dinheiro, paga um bom aborteiro em clínicas privadas. Quem não tem, corre sérios riscos em clínicas clandestinas, que não são poucas, tal a demanda.

Porém, a eutanásia é praticada no Brasil todos os dias, pela incapacidade de atendimento nos hospitais públicos, onde os médicos, com a constante falta de leitos, escolhem quem vai morrer e quem vai sobreviver, ou mesmo escapar com vida. Claro, todo mundo minimamente informado sabe disso. Claro, os ricos e remediados, ou seja, os com hospitais, que são uma minoria, nem se preocupam com isso. E, afinal, quem morre são os pobres, e disso também as igrejas nem falam. Será que desconhecem? E este é um dos problemas que mais afligem os médicos, trabalhando em clima de guerra, pela precariedade do sistema, e estourando seus sistemas nervosos, quebrando todos os códigos de ética e juramentos profissionais. Um horror.

A eutanásia foi levada a cabo, em massa, durante o reinado de Hitler, nos anos negros do terror nazista na Europa. Com o eugênico intuito de purificar a raça alemã, em 1940, começaram a matar os deficientes mentais dos hospiais. Só em 1940 mataram 80 mil pobres-diabos nos hospícios. E convenhamos, Hitler mataria todos os que não parecessem com os ideais homens nazistas, que eram os homens das SS. Os que matavam, torturavam, enfim faziam o diabo em nome do estado e da ideologia nazista. Para os nazistas, estes era os bons.

Voltando mais no tempo, em Esparta, também se praticava a eutanásia. Mas por motivos militares. Quem nascia com algum defeito físico, era logo exterminado, pois não poderia lutar. Assim como não eram valorizados os homens e mulheres que não fossem férteis. No caso da Holanda, onde a eutanásia foi legalizada, e agora nos Estados Unidos, a questão vem sendo discutida dentro dos parâmetros democráticos, como deve ser. E, claro, a visão da eutanásia dentro de uma perspectiva democrática, é bem diferente dos horrores perpetrados por estados totalitários, ou mesmo militaristas. No Brasil, como vimos, reina a hipocrisia, apesar de sermos um país de maioria cristã e católica.

Equanto isso, ficamos a discutir as cachaças do presidente, ou as estripulias do folclórico presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti. Enquanto escrevo, centenas de pessoas passam pela eutanásia tupiniquim, nas pocilgas que se transformaram nossos hospitais públicos. Salvo, é claro, honrosas exceões. E os abortos coninuam acontecendo ilegalmente, causando mortes inúmeras doenças pelo país afora. E, por causa da grande influência das igrejas, sobretudo da católica, inclusive no Congresso Nacional, estas questões nem chegam a ser discutidas. E seguimos caminhando em clima de guerra civil. Até onde ninguém sabe. Amém.