Garanhuns, 9 de abril de 2005
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HUMOR

Raulzito


Passeio pelo Agreste de Garanhuns

Confesso a vocês, meus fiéis 24 leitores, que não sou muito de visitar essas cidadezinhas do Agreste. Quem me acompanha sabe que sou quase 100% Garanhuns. Gosto mesmo é de falar das coisas belas e das coisas feias daqui dessa terrinha, que dizem ser a terra do já teve. Já teve cinema, estação de trem, café e algodão em abundância, fábrica de Coca Cola, lojas José Araújo, times de futebol na primeira divisão do pernambucano, deputados em Brasília, uma pecuária forte... Um monte de coisa que agora não tem mais.

Gosto de escrever sobre o centro da cidade, a Brasília, o Magano, as Cohab, Manoel Chéu, os esgotos a céu aberto no Mundaú e a simpatica penitenciária feminina da Várzea. Os negros do Castainho, a gostosona da Viviane, minha namorada do bairro São José, as gafes cometidas no festival de inverno e as briguinhas da Garanheta, esse carnaval local, que sempre me lembra sacanagem, e das boas.

Tenho sido um cronista da Suíça Pernambucana, mostrando tanto esse seu lado europeu quanto a sua face mais terceiro mundo, com os bundas moles dos políticos conseguindo ser mais rídiculos a cada eleição. Às vezes eu consigo ser engraçado, outras vezes somente faço raiva e um bestalhão qualquer, sem senso de humor, tenta abrir um processo contra mim. Veja que até o Paulo Camelo, aquele burguês arrependido do teleférico, na última campanha política tentou me enquadrar. Mas aqui pra nós, o juiz não deu a mínima pra ele e ainda deve ter dado boas risadas quando leu as baboseiras dele pedindo direito de resposta para o Raulzito.

Esses caras todos, o Camelo, o Calado, o Sirvino, o Luiz Carlos do Jardim das Oliveiras, o Izaías Régua, a Orora, o Quichute, o Alexandre Grande, com certeza são mais engraçados de que este colunista. E como pousam de sérios, meus Deus!

Não gosto dessas cidadezinhas porque elas cheiram a fofoca, a maldades, a bosta de vaca e poeira, com suas vaquejadas, suas briguinhas políticas, seus "rídiculos tiranos" (salve Caetano Veloso!), comerciantes mesquinhos, arremedos de intelecutuais, professores frustrados, estudantes alienados e jovens sem perspectiva que sonham apenas com mais uma dose da cachaça e uma festa alimentada pela Nega do Babado, a Banda Capim com Mel e a turma do Bakanas do Brega.

Sou do tempo em que mesmo nesses pequenos municípios se ouvia Roberto Carlos e Raul Seixas. E até o autêntico brega era melhor: Waldic Soriano, Lindomar Castilho, Aguinaldo Timoteo e Odair José. O primeiro fez um clássico quando descobriu não ser da família dos cachorros, o segundo se apaixonou pela mãe da namorada e terminou matando a mulher na vida real; o terceiro virou deputado e o Odair sumiu depois de cantar a última empregada.

Mas posso estar sendo preconceituoso contra o meu Agreste e é preciso saber que Garanhuns teria ainda menos sem o seu entorno, para usar aqui uma expressão de um deputado de Correntes.

Assim, especialmente para esta edição, de olho no livro "As Desventuras de Raulzito na Terra das Sete Colinas", dessa vez eu vou fazer uma incursão pelas cidades da região (até rimou).

Começo por Paranatama, que tem uma praça, uma igreja e um monte de gente nas calçadas. Ficam olhando uns para os outros, passa um carro-de-boi, um menino mangando de um bêbado e os estudantes na carroceria do caminhão, a caminho da escola. Chau, Chau... Eles gritam, e eu não entendo nada.

Pertinho está Caetés, terra do presidente. A praça nova é bonita, a igreja é moderninha e quem vê o prefeito ganha um prêmio, embora ele seja como uma luz a iluminar os primos e subprimos de Lula, que ainda moram no mesmo lugar, numas casinhas sem conforto e um cachorro vira lata cagando no quintal.

Capoeiras, a seis quilômetros, é uma ladeira só. Os moradores são pobres, as mocinhas andam vestidas como as heroínas das novelas e o prefeito desfila em carro de R$ 90 mil. Um comerciante da cidade, conformado, acha que "aquilo al (a prefeitura)i foi feito pra roubar mesmo. Quem entrar tem de roubar".

A mãe de Capoeiras é São Bento do Una, terra de Alceu Valença. É uma cidade antiga, que já foi de Lívio, de Mota, de Bodinho, de Afonso, e que agora é do padre. Festa de Reis, parque de diversão, corrida da galinha... São Bento passa por um bom momento graças ao homem da batina.

De São Bento a Lajedo é um pulo. Esta última tem uma prefeiturazinha feia, mas a cidade cresce fora do centro acanhado e sem praças bonitas. É quente, falta água, mas está numa encruzilhada estratégica, nos últimos anos em sido bem tratada e por isso tem chance de virar um Campo Dourado, embora hoje esteja na dependência de um Maia.

A viagem prossegue em Jupi, que segundo a lenda abunda de homem de chifre. Dizem que é assim: em cada rua tem um, uma casa e outra não, só que voltando é a mesma coisa. A praça é a mais bonita dessas das cidadezinhas, as meninas ficam lá aos domingos, namorando, pecando e olhando para a igreja que tem arquitetura avançada.

Calçado, não muito distante, pode ser vista de uma olhada só. Dizem que lá ainda está para ser inaugurado o primeiro pára raio, cerveja se toma sem passar pela geladeira e Coca Cola é sempre uma novidade. É mais ou menos como em Jucati, que ainda faz seus bailes de formatura no mercado de farinha.

Não poderia ter deixado de ir também em Cachoeirinha, onde encontro carne de sol, queijo de coalho e belas putas. A turma que adora falar mal diz que Jupi se destaca pelo número de cornos, Lajedo pela quantidade de veados e Cachoeirinha pelas quengas. Mas isso é só conversa, são três cidades maravilhosas e corno, fresco e puta tem em qualquer lugar. Quem não lembra da Garanhuns do tempo da rua da Madeira, quando não existia motel e todo mundo iniciava sua vida sexual na zona? E Rosinha, Matéria e Medeirola? Eles se foram mais hoje dá até pra fazer um sindicato da classe.

Vou a Saloá e me divirto no Sundow Park. Tomo banho de piscina misturado com mais de mil, ouço pagode em toda altura e depois como uma feijoada daquelas, rezando pra não ter dor de barriga. Melhor do que na bica de Correntes, o rio embaixo todo poluído com bosta de cavalo.

Águas Belas já é sertão, mas está perto. Outra cidadezinha feia, mas parecendo aqueles lugares do faroeste. Tem até índio, vestidos como brancos, cheirando a cachaça e fumando muito, sem deixar de reinvindicar os seus direitos e o dinheirinho do governo federal.

Em Angelim tudo é salgado. E não for, tem de ficar calado. Lá tem a Chesf, a igreja e o cemitério. Os rapazes reclamam que a cidade é parada, as moças casam cedo, movidas pela impaciência e o padre espera a festa de São José para ver se entra alguma coisa na paróquia.

São João tem o açude. Era Antônio, agora é Pedro e o carnaval continua bom. É tão perto de Garanhuns que parece um bairro. E assim quem estiver irritado com a monotonia pode trocar a de lá pela de cá. Comer uma pizza na Modelo ou tomar um sorvete na Milk Shake.

Escondido é Palmeirina, que tem um prefeito com nome de guerreiro. Catão. Lembro que o campo de futebol fica entre serras, por lá já inventaram também uma quadra de esportes e assim o pequeno município pode progredir. Como Lagoa, que é de Ouro. Ou Ibijaruba, que recentemente quase se acaba de vez, com tanta Chuva. E tem ainda Jurema, que é planta, mas agora quem manda lá é um cara que vendia bolos na feira. Sem falar em Quipapá, que tem um nome dos mais engraçados, embora a praça principal não tenha graça nenhuma.

Canhotinho agora está toda álvara e quem sabe amanhã vai encontrar o porto. Lá é a terra da Mucuri, que sumiu, acho que o cavalo preto já baixou as patas. Venturosa já não é Agreste, fica depois da serra do Tará, por isso eu deixo pra lá, o dentista Eudes que cuide dos dentes de sua gente.

Terezinha é coisa de esaú. Melhor mesmo é Brejão, onde quem tem vez é soldado de polícia. Mas pra terminar com um Bom Conselho conheça a terra de Pedro de Lara: a praça e a igreja estão ainda mais bonitas e no açude da Nação você pode compensar a falta de praia, vendo homem buchudo e mulher fazendo festa de celulite.

Essas cidades, gente, são muito parecidas. Têm muito bêbado, muita fofoca e muita ruindade. E coisas boas também: mulheres sinceras, camponeses de bom coração, fruta no pé, festa do padroeiro, futebol, bola de gude, pião, conversa na calçada, feijão verde na feira, banho de açude, namoro na praça, político safado e também governantes bem intencionados, que fazem alguma coisa pela sua gente.

Não tem Pau Pombo, nem Euclides Dourado, nem Ferreira Costa. Mas tudo isso é besteira porque eles vêm aqui a hora que querem e são bem vindos. Eles também não tem Sirvino, Luiz Carlos do Jardim das Oliveiras, nem Izaías Régua. Mas até agora não reclamaram, sinal de não estão sentindo falta.

Em compensação essas terras nos mandaram gente como Gláucio Costa (esse já é de Maraial), José Veríssimo, Aluízio Alves, Dra. Ielma e Auderjan, cada um com sua arte.

Pensando bem, o Agreste não é tão ruim assim. Com um pouco mais de chuva, de boa vontade dos homens, aqui se plantando muita coisa dá. E quem sabe no futuro eu saio mais de Garanhuns e passeio mais por essas cidades que visitei nessa edição.

Um grande abraço aos agresteiros e desculpem pelas brincadeiras. Que ninguém vire meu inimigo, pois em Garanhuns já tenho demais. É que falta o gosto pela graça e pela piada. Mas tudo tem jeito, é só aprender a rir do próprio umbigo.