Garanhuns, 26 de março de 2005
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OPINIÃO
 

O cerimonial e o "pão-de-ló"

Marcilio Reinaux


O que tem a ver o Cerimonial com o delicioso bolo português "Pão-de-ló"? A princípio parece não haver nenhuma co-relação, mas relembrando um pouco a Historia do Brasil ao tempo do Império, vamos encontrar indicativos interessantes da então sociedade burguesa daqueles dias distantes. A Corte Imperial durante toda a sua vigência até o advento da República pelos idos do final do século XIX, primou pelo exercício salutar de bem receber as pessoas. Era por assim dizer uma prática amiudada das Boas Maneiras, que se tornava mais observada e respeitosa, quando da presença de altas autoridades e em eventos especiais com a presença do Imperador. Em ocasiões nas quais o serviço de anfitrionato não exigia muito requinte, como por exemplo pequenas rodas de conversas entre seleto grupo de freqüentadores palacianos e ou quando dos Saraus, ou as conhecidas Tertúlias, a Mordomia do Imperador Dom Pedro I costumava servir um delicioso bolo de receita portuguesa: o "Pão-de-Ló". Costume dos Lusos passado ao Brasil Império, a iguaria era servida com vinho preferencialmente licoroso usualmente, o vinho do Porto, este vindo constantemente nos suprimentos enviado do Reino de Portugal.

Disputadíssima a Corte, quem era agraciado, com um convite para uma noitada de Sarau, onde se escutava um bom piano sem ser necessariamente um Concerto e ou declamação de versos dos Lusíadas sem ser uma Sessão Solene Cultural, era um felizardo. Em reuniões alinhadas, com requinte e bom gosto, ou até com pompa e circunstância, à todos os convivas - muito bem vestidos com os melhores trajes europeus - era servido o "Pão-de-Ló acompanhado do vinho do Porto. O bolo é simples: farinha de trigo, ovos, água, pitada de sal, algum açúcar e pronto. Uma delícia. Mas o segredo está no fazer, pois a sua fofura é inimitável. O serviço, também simples, é compensado pela finesse no ato de bem receber. No Império, quando um convidado era indagado como fora a festa palaciana, invariavelmente respondia: "Fui tratado a Pão-de-Ló". A expressão generalizou-se, saindo da Corte, chegando à antiga República e depois em épocas mais recente, à nossa sociedade atual, popularizando-se em muitos lares brasileiros. Ainda hoje quando alguém deseja referir que foi bem recebido, sempre exclama: "fui tratado à Pão-de-Ló". E, se esse tratamento se completa com um tinto licoroso tanto melhor. E mais: se for um Porto de castas seletas, como por exemplo: um Thauny, ou um Ruby, de qualquer vinícola, como o "Real Vila Velha", ou "Ferreiros", tanto melhor.

Hoje, o melhor Cerimonial das altas-rodas e aquele da seleta sociedade brasileira, vem optando por este tipo de recepção, pois além da simplicidade no serviço, com menores custos, torna-se um excelente indicativo de requinte e bom gosto, na maestria da arte de bem servir e de bem receber as pessoas. No seu próximo evento, se quer um serviço requintado, ofereça: Pão-de-ló, com Vinho do Porto.

Em Garanhuns em tempos distantes, (década de 1950) na Avenida Santo Antonio (que ainda não era de toda de comercio), no lado de baixo havia um casarão de quatro janelas, onde moravam duas conhecidas e respeitadas senhoras, Foram professoras de várias gerações na Cidade. Dona Dulcina e Dona Elisa. Se a memória não falha, tinham o sobrenome:"Coelho". Pois bem, a Dona Dulcina fazia sob encomenda, o mais famoso "Pão-de-ló" que Garanhuns já conheceu.


Marcilio Reinaux, é cerimonialista e oresidente da Academia Brasileira de Cerimonial e Protocolo ABCP.