Garanhuns, 26 de março de 2005
  Início
  Colunas
  Opinião
  Política
  Cidade
  Geral
  Cultura
  Sociedade
  Ed. Anteriores
  Expediente
 
OPINIÃO
 

Vaidade feminina: necessidade ou imposição?

Dra. Ana Crsitina


Não é fácil ser mulher. Considerada como o sexo frágil, dele é exigida uma força sem limites. Tem de ser mãe, esposa, profissional, dona de casa e não se admitem erros. Estar sempre bela, cabelos bem cuidados, ter um corpo perfeito, uma aparência jovem e lá estão elas de desdobrando. Correndo feito loucas, dentro de academias, clínicas de estética, comprando revistas de beleza. Para satisfazê-las? Nem sempre. Precisam estar mais bonitas para serem mais amadas. No fundo é apenas isso que importa: o amor. E muitas vezes não percebem que só esse sentimento as pode tornar verdadeiramente bonitas. Amar e ser amada.

O padrão ideal de beleza estabelecido pela sociedade é apenas uma máscara usada para encobrir seus defeitos, para disfarçar as imperfeições de um mundo infeliz. A felicidade sim traduz a beleza. Se olhar no espelho e poder dizer a cada manhã: "Esta sou eu. Estou viva. Que presente maravilhoso o meu corpo! Sou única. Não há outra pessoa igual no mundo". Quando estamos bem, felizes, nos sentimos mais bonitas. E todos os outros enxergam a nossa beleza.

A vaidade deve ser necessária em nossa vida. Cuidar da beleza, melhorar a auto-estima, faz bem à saúde do corpo e da mente. Mas, não pode existir um padrão. Que graça teria se todos fossem iguais? Como reconheceríamos nossos entes queridos no meio da multidão...? A beleza estereotipada é feia, no meu modo de ver... Ser espontânea, sorrir, nos torna bem mais bonitas. Beleza é fundamental. Sim. Mas em nenhum dicionário encontraremos definidos formatos de rostos, modelos de cabelos, medidas de cinturas ou quadris. Conheci um rapaz certa vez que dizia em tom jocoso na época da faculdade: "O interior são apenas vísceras, a beleza externa é fundamental". Brincava, mas refletia o retrato da sociedade hipócrita em que vivemos, onde mulheres são violentadas a todo momento. Violência física, psicológica, muitas vezes por aqueles que são por elas mais amados, seus maridos, companheiros.

Me torno repetitiva: não é nada fácil ser mulher. A sociedade nos exige essa vaidade que nos sufoca e nos tira o prazer das pequenas coisas. Por que não ir a uma festa, conversar, dançar sem os saltos altos, comer todos os doces que quisermos, não exigir aquele refrigerante light, não precisar ir ao banheiro retocar o batom ou pentear os cabelos? Precisamos mostrar aos homens que eles também envelhecem, criam rugas, aumentam a barriga, perdem os cabelos e continuam lindos se nos fazem felizes.

Continuaremos vaidosas; sempre. Mas, façamos isso por necessidade nossa, buscando sempre o nosso bem-estar. Não importa o que os outros possam pensar. Amemos o nosso corpo; ele é o mais perfeito instrumento que jamais iremos possuir. Experimente perguntar a uma criança pequena quem é a mulher mais bonita do mundo, e a resposta sempre será a mesma: "Minha mãe". Não deixe a vida endurecer teu coração. Liberte aquela criança pequena, inocente, que sábia, pode enxergar a verdadeira beleza.


Ana Cristina Monteiro é dermatologista