Garanhuns, 26 de março de 2005
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CULTURA
 

A história de Olga emociona e faz pensar

Roberto Almeida


O escritor e jornalista Fernando Morais é autor de livros importantes como "A Ilha", uma reportagem simpática ao governo do comunista Fidel Castro e "Chatô', uma biografia do poderoso homem de imprensa Assis Chateubriant. As duas obras viraram best seller, num país que lê tão pouco, assim como "Olga", que narra a incrível história da mulher de Luís Carlos Prestes, o "Cavaleiro da Esperança" da primeira metade do século XX no Brasil.

No primeiro livro temos a história de um país, no segundo a vida de um empresário que foi uma espécie de Roberto Marinho dos anos 40 e 50, e por último o registro do maior crime cometido por Getúlio Vargas, quando governava o Brasil e namorava com o nazi-fascismo de Hitler. Naturalmente, as grandes massas não tiveram acesso a essas obras, embora elas mereçam ser conhecidas pelo maior número possível de pessoas.

"Olga", felizmente, foi transformado em filme. E embora o resultado do trabalho feito por Jaime Monjardim mereça sérias críticas, tem de positivo exatamente o fato de tornar mais conhecida a vida da alemã que veio para o Brasil, acompanhando o líder comunista Luís Carlos Prestes, e terminou por se apaixonar por ele.

O filme de Monjardim tem uma qualidade técnica acima da média da produção nacional. Ótima fotografia, som perfeito, direção segura, trilha sonora acertada e bons atores. Camila Morgado convence como Olga, Fernanda Montenegro é simplesmente soberba como a mãe do cavaleiro da esperança e mesmo Caco Ciocler, que interpreta Prestes, não chega a comprometer, embora me pareça o mais fraco dos três personagens centrais.

Como o diretor é homem egresso da televisão, conhecido por trabalhos como "Pantanal" e "Ana Raio e Zé Trovão", a linguagem, as tomadas de câmera, o ritmo narrativo é semelhante ao das novelas da telinha. É mais ou menos como fez Guel Arraes em seus filmes (Auto da Compadecida e Lisbela), com a grande diferença que o pernambucano optou pelas comédias e Monjardim trata de um tema por demais sério.

O grande defeito do filme, e isso é bem visível para quem tem o mínimo conhecimento da história política desse país, é que o diretor romanceou demais a vida de Olga Benário e Luís Carlos Prestes, tranformou em dramalhão um fato político e com seus exageros certamente chegou a falsear a história.

Eu que cheguei a ver Prestes pessoalmente uma vez, no Recife, ele já com seus 80 e poucos anos, que li o livro de Fernando Morais e uma biografia publicada pela Vozes, sobre o líder comunista, tenho certeza de que ele e sua companheira não eram dados aqueles arroubos amorosos mostrados no filme. E por isso muitas das cenas, mesmo bonitas, soam falsas, forçadas.

O que interessa na história de Prestes e Olga Benário, na minha opinião, é a trajetória deles por uma causa, são as idéias que eles defenderam, é o contexto da época em que viveram, é fazer uma reflexão sobre o nazismo e suas ramificações pelo Brasil, é poder através deles saber dos equívocos do PCB e seus militantes e também a respeito dos crimes cometidos contra os comunistas nesses país e por todo o mundo. Todos esses elementos aí estão presentes em "Olga", mas ficam em segundo plano na produção de Jaime Monjardim, que errou ao dar um ar de Romeu e Julieta a esse drama político vivenciado por um brasileiro e uma comunista alemã.

Apesar dessa distorção no enfoque, contudo, o filme vale por permitir que um número maior de pessoas tenha conhecimento do que aconteceu em certa época da história do país. Muitos, por certo, até se atreverão a ler o livro de Fernando Morais incentivados pelo produto do cinema. E até nos colégios e faculdades discussões poderão ser levantadas em torno do assunto.

Como sou nacionalista à antiga, defendo o cinema brasileiro e não tenho dúvida de que "Olga", com as suas qualidades e defeitos, é mais importante para nós do que qualquer "Aviador" e sua premiação na noite do Oscar. O trabalho de Monjardim, de Guel Arraes, de Fernando Meireles e de outros diretores merecem ser prestigiados, discutidos e apoiados.

Parte da imprensa que só vê mérito no que é feito pelos americanos é culturalmente dependente, ou atende a interesses escusos para defender o imperialismo de Bush e companhia.

Nos últimos anos temos visto muita coisa boa do cinema brasileiro, que quase foi destruído pela era Collor. Lembro assim, rapidamente, do belo "O Quatrilho", "Central do Brasil", "Que é Isso Companheiro?", "Cidade de Deus", "Uma Onda no Ar", o já citado (embora um tanto bestinha) "Lisbela", "Deus é Brasileiro" e o instigante "Cazuza", que traça um belo retrato do genial cantor e compositor.

Voltando à crítica de "Olga", pra fechar esse comentário, quero insistir que apesar das incorreções o filme cumpre um papel importante e mesmo em meio ao melodrama consegue mostrar os crimes da polícia de Getúlio Vargas. O ex-presidente, que anos depois viria a dar um tiro no próprio peito e por isso passou a história como um mártir, não merece perdão.

Como disse um de seus comandados, em frase que aparece no filme: "Um presente de Getúlio para Hitler". Ora, quem namorou o nazi-facismo, mandou torturar e matar dezenas ou centenas de brasileiros, e entregou uma mulher grávida de sete meses aos alemãs para ser assassinada na câmara de gás, não pode ser cultuado como santo ou pai dos pobres.

Olga merece ficar na memória como uma grande mulher. Podia até estar equivocada, como o próprio Prestes, mas ninguém merece um destino daqueles. E muitos, como a mulher do líder brasileiro, foram vítimas da bárbarie dos nazistas. Não podemos esquecer disso. Nem na Alemanha, nem na França, na Inglaterra, na Polônia, na Áustria ou no Brasil.

A história de Olga emociona e faz pensar. Não por ser uma história de amor qualquer. Mas por tudo ter acontecido de verdade, envolvendo brasileiros e mostrando do que sãos capazes os homens quando estão inebriados pelo poder.