Garanhuns, 12 de março de 2005
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OPINIÃO
 

Dom Quixote e o romance do homem depois da queda

Nivaldo Tenório


O conflito é normalmente visto como aquilo que mais identifica o homem às voltas com o complexo instante de sua existência. Ernesto Sabato nos alerta de que uma boa literatura se faz quando nos propomos a sondar a condição humana. Isto posto, muitos são os caminhos escolhidos, dentre eles alguns se repetem como confrontar o homem com seus fantasmas, devassar suas paixões mais avassaladoras, sua busca pela identidade ou sua busca por Deus. Em outras palavras; o homem em conflito consigo mesmo ou com o mundo exterior. Conflito, portanto, traduz-se em inquietação, luta e angústia. Alguns personagens do extenso mosaico da literatura de todos os tempos são nesse particular quase repetitivos e se configuram no mais perfeito arquétipo da representação humana, não me deixam mentir Hamlet, Dom Quixote, Raskólnikov, Gregor Samsa e Riobaldo, só para citar alguns. Como imaginar tais personagens senão acompanhados daquilo que consideramos o mais legítimo legado humano; a saber, o sofrimento?

Estava tudo muito bem no Paraíso, foi Deus se descuidar e Adão, seduzido por Eva, provou da fruta do conhecimento do bem e do mal. Deus não gostou, magoado e decepcionado com sua criação que imaginava fosse a mais perfeita, não vacilou e tratou de instituir aquilo que nos daria a condição de humanos: a mortalidade e o sofrimento. Seria isso a nossa paga; nossa vida teria fim e seria pautada pela dor. Desde então temos empreendido a mais vã de todas as lutas: reconquistar o Paraíso. Nessa empreitada, entretanto, muito aprendemos e amadurecemos e senão reconquistamos nossa antiga condição, lapidamos e sofisticamos a humanidade herdada, e desta feita, ato contínuo, desde que nos predispomos a isso, somos tão cruéis ou piedosos como foram Ricardo III ou Cristo.
Sem a queda decerto não haveria Shakespeare, Cervantes, Dostoiévski, Kafka ou Guimarães Rosa, também não haveria a música ou qualquer outra manifestação artística, e se não há a angústia dos dilemas não há por que haver filosofias nem o riso de Voltaire. Ainda imberbes, estaríamos povoando a terra de muitas e muitas gerações de seres destituídos de dúvida, angustia ou paixão. Muitos e muitos seres a quem Deus olharia do céu e se espantaria de tanta inutilidade. Cansado de resistir, alternativa não restaria à divindade senão nutrir desinteresse pelos filhos seus e numa tarde qualquer desaparecer para sempre sem dar paradeiro algum de seu destino.

Este é o homem de que trata a boa literatura, o único homem possível; o homem depois da queda. E é por haver este homem ainda não resolvido, ainda não acabado que as artes, e a literatura em particular, têm produzido em seus efeitos aquilo que o rastreia, que o busca e que o identifica. Nenhuma ciência ou filosofia foi tão competente na empreitada de desvendar o homem como foi e continua sendo a literatura, notadamente o romance.

Este ano um desses romances que soube como poucos tratar do homem completará 400 anos. Depois de tanto tempo seria justo perguntar: que tem esse livro que tanto impressiona os leitores do mundo todo? Dom Quixote não é uma obra de apurado rigor técnico tampouco estilístico, não raro percebemos verdadeiras trapalhadas do autor que reforça na gente a suspeita de que jamais releu sua obra. Atesta isso os vários descuidos e esquecimentos que ao longo do caminho vamos encontrando como aquele capítulo que nos fala do roubo do burrico de Sancho para desconsolo do pobre infeliz que chora até às lágrimas, e no capítulo seguinte, Cervantes, provavelmente esquecido do último episódio, trata de Sancho e sua montaria como se roubo aquele jamais tivesse acontecido.

Isso, entretanto, não parece constituir demérito nenhum para o livro que mais escritores no mundo influenciou. Então, perguntamo-nos, que tem Dom Quixote para ser tão lido e comentado pelos artífices da palavra, estejam eles localizados em qualquer tempo depois de Cervantes e ideólogos dos mais diferentes estilos de época, como os romancistas do realismo social que encontra em Flaubert seu mais entusiasta leitor do Quixote até Kafka, Joyce, Borges e tantos outros que seria absurdo mencionar num simples artigo de jornal?

Assim posto como um dilema, a resposta parece uma dessas "verdades" das quais se ocupa a metafísica. Eu, entretanto, vejo apenas uma verdade-resposta. Dom Quixote é um grande livro porque se ocupa do homem, desse homem incompleto, a quem foi negada a imortalidade, embora se encontre entre duas eternidades, a que o precedeu e aquela que ele divisa, impotente e efêmero. Enfim, o homem depois da queda.