Garanhuns, 12 de março de 2005
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OPINIÃO
 

Transpondo barreiras

Marcílio Viana Luna Filho


O Agreste meridional, como todo o nordeste brasileiro, está longe de se livrar do cenário de seca e de contínuos racionamentos de água. As barreiras para mudar esta realidade são grandes, mas de maneira alguma insuperáveis. A questão é: quem deve tomar a frente do problema e domar as rédeas deste que castiga durante décadas o nordestino.

Durante anos o tema, seca, foi debatido em vários segmentos da sociedade que se envolveram e até hoje o problema persiste. Políticas públicas foram desenvolvidas ao longo dos governos e ficaram conhecidas por um velho bordão "indústria da seca". Mas podemos ter um fiuzinho de esperança com a transposição do rio São Francisco, a qual está rodeada de questionamentos técnicos, econômicos e, principalmente, de ordem ecológica.

A transposição do rio São Francisco, bacia hidrográfica inteiramente brasileira, vem com o intuito de acabar com as conhecidas medidas emergenciais, as quais até hoje mau conseguem "matar" a sede do nordestino. O que deve e pode ser objetivado com a transposição é proporcionar condições estruturais favoráveis à geração de atividades econômicas, possibilitando assim o desenvolvimento sustentável das regiões que sofrem com a escassez de água. O Agreste Meridional dificilmente será beneficiado diretamente pela transposição do rio, porém existem outras saídas para superar a deficiência hídrica da região, haja visto que as precipitações nesta região são de pequeno volume, no entanto apresentam uma certa regularidade. Neste sentido, políticas públicas devem ser elaboradas com o intuito de aproveitar o regime de chuvas característico do Agreste.

As possibilidades de armazenamento de água são várias, vão desde a construção de pequenas cisternas, até a construção de barragens e açudes. Porém ninguém vive apenas do consumo de água, cabe aos governos municipais, estaduais e federal, disponibilizar ao homem do campo condições estruturais, técnica e econômica, que possam dar subsídio as atividades produtivas no campo, pois o que realmente fixa o homem ao campo não é apenas a existência de água, mas sim condições dignas de trabalho.

O nordeste brasileiro, especialmente o interior, tem grandes potencialidades, tanto na área agrícola, quanto no turismo e na indústria. O que realmente falta é uma maior atenção do poder público em todas suas esferas. Hoje, a sociedade tem uma clara conclusão sobre a seca, pois atualmente percebemos que os investimentos em políticas públicas tornam mais válidas as estruturas econômicas da comunidade e geram mais resultados que as ultrapassadas ações assistencialistas, que durante anos alimentaram a "indústria da seca".

Com uma ação pública definitivamente voltada ao homem do campo poderíamos viabilizar o desenvolvimento sustentável com atividades específicas as características do nosso ecossistema, como por exemplo o plantio de mamona para viabilizar a produção do biodiesel, o qual está com o mercado bastante promissor; poderíamos promover ainda reflorestamentos visando tanto o abastecimento de lenha para a comunidade, pois grande parte da população rural utiliza-se desta para fins doméstico e ainda disponibilizar matéria-prima à possíveis carvoarias; e ainda teríamos a possibilidade de viabilizar uma prática pouco explorada, ou até mesmo inexplorada na região, que é a Aqüicultura, que poderia aproveitar os açudes e barragens da região, e que dentro de parâmetros específicos podem ser uma excelente fonte de renda e alimentação sem prejudicar estes mananciais. As oportunidades para o desenvolvimento econômico e social existem, nos resta saber se conseguiremos transpor as barreiras da vontade política do Brasil.


Marcílio Viana Luna Filho é engenheiro Florestal / consultor Ambiental) E-mail: marciliovlf@zipmail.com.br