Garanhuns, 12 de março de 2005
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O vendedor de bolo que virou prefeito e impressionou Lula

José Ailton, mais conhecido como Galego, era apenas um vendedor de bolo. No município de Jurema, localizado entre Lajedo e Panelas, ele montou a sua fábrica artesanal, trabalhando com a ajuda de familiares e todos os dias saia de cidade em cidade, vendendendo o produto feito na indústria de fundo de quintal. Simpático, sorriso fácil, espírito de liderança, terminou conquistando uma legião de amigos e foi ser presidente da cooperativa dos agricultores. Aí começou o gosto pela política e Ailton terminou prefeito.

Antes, quase 10 anos atrás, foi administrador do distrito de Queimadas, que tem quase o mesmo número de moradores da sede do município e foi decisivo na sua vitória, em outubro de 2004. Como vendedor de bolos Galego ficou conhecido da população e administrando a vila se credenciou como político e gerente da coisa pública. "Fiz um bom trabalho lá, a turma gostou, por isso tive muito apoio no distrito", revela José Ailton.

MUDANÇA - Mesmo filiado ao PFL, um partido tido como conservador, em Jurema Galego encarnou a mudança. Sem dinheiro, sem nunca ter exercido sequer o cargo de vereador, enfrentou nas urnas um médico apoiado por um grupo político que estava há 28 anos no poder. A campanha foi feita na base da raça e, fato raro no interior nordestino, os eleitores é que deram dinheiro ao candidato, cada um ajudou como pôde e assim Ailton conseguiu vencer a eleição, promovendo uma verdadeira revolução no pequeno município do Agreste.

"Uma vez o vice-governador Mendonça Filho foi um comício nosso em Jurema e ficou sem entender nada. Eu estava no palanque e a todo instante chegava um: Galego, toma aqui, Galego, esse é teu, Galego... cada um colocava uma nota de R$ 10, 50, quanto podiam. Quando chegou no Recife ele contou o fato no palácio, admirado, dizendo que nunca tinha visto uma coisa daquela. E minha campanha foi toda assim", garante o prefeito, abrindo um sorriso de satisfação.

LULA - Eleito prefeito de Jurema, o pefelista José Ailton teve de abandonar a fábrica de bolo, mas faz questão de permanecer o mesmo. E foi com o seu jeitão de "matuto sabido" que o mês passado ele teve um encontro inesperado com o presidente Lula e terminou fazendo amizade com o petista. "Eu estava com o Mendoncinha e o presidente. Aí o vice-governador saiu e fiquei sozinho com Lula. Ele me perguntou de onde eu era prefeito e terminou ouvindo minha história. Conversamos uns 10 minutos", conta Galego, que inclusive teve oportunidade de informar ao presidente que conhecera ele em São Paulo, quando o mesmo era operário. "Eu também trabalhava, na época, numa fábrica em São Paulo. Falei o nome da firma e o Lula se lembrou", complementou.

Ailton admira o governo do presidente Lula e espera contar com a sua ajuda para melhorar a vida do povo de Jurema. No momento, o prefeito sente que está no caminho certo, reconstruindo o que a seu ver foi destruído pelo grupo que dominava o município. "Não é fácil derrubar uma oligarquia de 28 anos. A própria população está acostumada com o ritmo da administração anterior. Uma administração que não era pública e sim familiar. Então, é difícil colocar na cabeça das pessoas que se está vivendo novos tempos e que a democracia realmente existe. Porque antes era um tipo de ditadura: só se fazia o que o governante mandava ou queria", discursa Galego.

O prefeito acha que havia até uma certa acomodação do povo de Jurema e os que estavam no poder, acostumados a mordomia, não acreditavam que os moradores do município poderiam um dia acordar, como terminou acontecendo. "A população apostou numa mudança e ela está acontecendo. E creio que é pra melhor", afirma o ex-vendedor de bolos.

Empenhado em tornar pública a administração de Jurema, Ailton tem procurado investir em ações que beneficiem a população antes desassistida. Segundo o prefeito o município não tinha uma única ambulância servindo aos seus moradores e a assistência médica inexistia. Agora, informa, são duas ambulâncias novas, compradas com recursos próprios, 18 médicos contratados e até um laboratório de exames foi colocado para funcionar.

"Estamos melhorando tudo aos poucos, porque não tem como fazer de uma vez. Foram 28 anos de destruição e para reconstruir tem de levar um determinado tempo", explica Galego, que da mesma maneira do presidente Lula não conseguiu cursar uma universidade (fez até o 2º grau), foi operário, participou das lutas de uma cooperativa e terminou virando político. O petista tem um desafio bem maior, o de mudar o Brasil, mas a tarefa do pefelista também não é tão simples assim: cabe a ele melhorar a vida do povo de Jurema, esquecer os tempos em que vendia bolo na feira e ao mesmo tempo permanecer o mesmo, não deixar o poder subir à cabeça.