Garanhuns, 12 de março de 2005
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Zé Carlos: do Castainho para os Estados Unidos

(sem sucesso) e sente na pele, como muitos dos seus irmãos, a discriminação contra o pobre e principalmente contra o negro pobre. Mas ele, como aqueles personagens daquela propaganda ufanista da televisão, não desiste nunca. E por conta de sua luta, de sua persistência, foi parar no final de fevereiro passado nos Estados Unidos, quando esteve em Washington e Chicago, participando de uma troca de experiência entre negros brasileiros e americanos.

"Nós fomos aos Estados Unidos para mostrar a realidade dos negros em nosso país e viver também a experiência das comunidades negras americanas", explicou José Carlos, que esteve na terra de Bush juntamente com mais seis pessoas de cor. Gente de Sergipe, do Rio Grande do Sul, de Goiás e ele representando Pernambuco. O líder do Castainho gostou do que viu no estrangeiro, elogiou a organização dos negros americanos e voltou disposto a repassar o que aprendeu para as comunidades quilombolas de Garanhuns. "Lá eles são numerosos, são fortes, organizados e por isso a gente vê muitos estudando, trabalhando, não é como aqui no Brasil", afirma.

Para José Carlos, os negros americanos, mesmo discriminados, têm condições de estudar e se formar, conseguindo uma vida digna. Ele mesmo conheceu, nessa viagem, médicos, engenheiros, advogados e professores universitários de cor. "Existe até uma universidade dos negros, conseguida com muita luta e determinação. E aqui foi uma luta para conseguir uma simples escola primária para a comunidade", exemplifica o presidente da Associação do Sítio Castainho.

Na avaliação do líder negro, discriminação e racismo existem tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, mas não há dúvidas de que lá eles são mais organizados e lutam por sua independência. "O negro brasileiro ainda não despertou esse lado, de grande importância", raciocina, garantindo estar disposto a repassar tudo que viu e aprendeu para ajudar na organização do povo. "Se nós esperarmos que os políticos venham fazer nada vai acontecer, nunca. Nós é que temos de construir, através da luta, da organização da reivindicação", prega Zé Carlos.

O garanhuense retornou ao Sítio Castainho às vésperas do lançamento do projeto "Arca das Letras", lançado na sua comunidade na última sexta-feira. A iniciativa do Governo Federal é elogiada pelo líder comunitário, que esteve meses atrás no Sítio Leitão, em Afogados da Ingazeira, para ver a entrega de uma mini-biblioteca semelhante aos quilombolas do município sertanejo. "Mas não é só entregar os livros. A comunidade tem de ficar participando, alguém tem de ler e repassar o conhecimento daqueles livros, que são importante para nós", recomenda.

Ainda vitaminado pela experiência na terra do Tio Sam, o líder do Castainho deixa claro sua descrença nos políticos de Garanhuns, que a seu ver trabalham prioritariamente pela elite. "Os prefeitos que passaram e o atual têm a mesma visão. Realizam muito pelos ricos e esquecem a questão social, os problemas dos mais pobres", critica José Carlos, convencido de que por aqui as coisas só vão mudar quando os excluídos tiverem consciência dos seus direitos e através da organização conquistarem uma vida melhor.