Garanhuns, 26 de fevereiro de 2005
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OPINIÃO
 

Sou um homem antigo

Marcílio Reinaux


Eu nasci pelos idos de 1934, na Cidade de Garanhuns(PE). Entre montanhas e vales, corri pelas Campinas verdejantes, no verão e no inverno com o frio cortante, tomava chocolate quente. Nasci antes da Vacina Sabin, da penicilina, da comida congelada, do colchão de molas, da fralda descartável. Nasci antes da xerox, do plástico, das lentes de contato e das pílulas anticoncepcionais.

Nasci numa época de intenso relacionamento humano e de grande respeito à Família. Não tínhamos a televisão deseducando e corrompendo adolescentes. Não havia o radar, nem os cartões de crédito, nem raio laser, nem a Bomba Atômica. Não existia, até como a caneta esferográfica. Os automóveis eram vagarosos. Clínicas e hospitais para gato e cachorro também não existiam. Hospital só para gente mesmo. Nasci antes da máquina de lavar roupa, dos cobertores elétricos, do ar condicionado e antes mesmo da fascinante aventura do homem ter rasgado os céus e os espaços siderais e pousado os pés na lua. Viagens espaciais e estações orbitais, eram narrativas em quadrinhos no mundo fantástico da ficção de Flash Gordon, herói dos meninos com os fantásticos desenhos de Alex Raymond.

Quando nasci, casava-se primeiro e só depois os casais moravam juntos. Naquela época não havia motéis para encontros fortuitos de descasados. Não havia produção independente de filhos. Às vezes fico pensando: será que fui de uma geração tão boba, acreditando que para ter filhos precisava-se de marido e mulher ? Nasci bem antes dos rapazes usarem brincos; do advento dos direitos dos gays, dos casamentos de homossexuais. Quando nasci não havia bebê de proveta, nem clonagem de seres vivos,nem comprava-se óvulos e ou sémem nas prateleiras. A mulher era mais caseira, de prendas domésticas, ficando a maior parte do tempo no lar, criando os filhos, cuidando da casa. Não havia berçários, nem terapia ocupacional de grupos, nem "Encontros de Casais", nem "Cursilhos, nem SPAS. Quando nasci, namorados respeitavam os pais, os professores, os idosos e a si mesmo reciprocramente.Não havia cuecas Zorba,( aquela que parece calcinha de mulher ).Só havia as!ceroulas! e as compridas "Samba-Canção". O "porta-seio" da mulher, chamado pelos franceses de "Soutien",era completo e não só uma tirinha de "faz-de-conta",cobrindo os bicos dos peitos.

Eu nunca ouvira falar em fita cassete, nem vídeo cassete, vídeo-games, calculadoras eletrônicas e o computador esta fantástica máquina da nossa modernidade, ainda não havia sido inventado. Quando nasci, telefones tinham fios, não havia celulares atucanando a nossa vida. Os aviões da minha primeira década, tinham hélice e os menores chamavam-se "teco-teco", zoando sobre nossos cabveças. Aviões maiores só o Douglas DC-3 e muito depois o maravilhoso "Constellation".Quando nasci, quem fumava, fumava cigarro mesmo. Erva era para fazer chá. Coca era refrigentante, crak era jogador de futebol e pó era sujeira mesmo. Embalo era para fazer criança dormir, lambada era chicotada e malhar era o trabalho do ferreiro.

Outro dia pensando comigo mesmo, admiti que estava confuso, com a velocidade das transformações no mundo e com o comportamento das gerações atuais, onde os valores são cotejados e são cada dia muito diferentes. Às vezes fico também refletindo que no meu tempo de criança vivia-se muito bem. De família simplória, tínhamos tudo apenas do básico que precisávamos, mas contentávamos com tudo o que Deus nos dava. E por isso sempre fomos à ele agradecidos. Certamente estou vivendo momentos de choques de gerações e confesso que luto para atualizar-se. De repente, descubro que "Sou Um "Homem Antigo".

Por isso há pouco conversando com uma jovem colegial, em dado momento eu lhe disse que era casado com a mesma mulher após 46 anos de vida conjugal.

A mocinha espantada, arregalou os olhos para mim e disse: "Nossa ! 46 anos?... E completou: " O Senhor já contou isso para um psiquiatra"?