Garanhuns, 26 de fevereiro de 2005
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OPINIÃO
 

As esquerdas no caminho da perdição

Rafael Brasil


Como diria Miguel Arraes, as esquerdas tradicionais estão, desde há muito tempo, no caminho da perdição. Ou melhor, digamos, nos caminhos da perdição. Os que não seguraram os seus respectivos carguinhos, que não são poucos, pularam para fora do barco, e as defecções ainda virão de roldão, no transcorrer deste, digamos, gozado governo Lula. De início saiu o teórico marxista e economista Francisco de Oliveira. Depois os radicais mais raivosos como Babá, e Heloísa Helena, mas estes foram devidamente expulsos e fundaram um novo partido o P-Sol, que é mais atrasado do que o antigo PT. Esta semana pulou fora o economista Plínio de Arruda Sampaio, mais um dos intelectuais da ala católica cristã do partido. Muitos estão descontentes mas calados, diante da popularidade do presidente e sua política econômica conservadora.

Estes esperam algum deslize da economia, para o presidente mudar. Para pior, diga-se de passagem, pois o que propõem, resume-se a um vago populismo que se tornaria popular nos tempos de Vargas.

Desde a queda do muro de Berlim as esquerdas sofrem de todo o tipo que é crise, mas a maior mesmo é de indentidade. Diante da falência do modelo de sociedade de dirigismo estatal e autoridade, ou seja, do modelo leninista, que as esquerdas entendem menos, não só o processo de desenvolvimento do capitalismo, mas os problemas da globalização. Por exemplo, na questão democrática, muitos ainda não compreendem que a democracia é um valor universal, a ser permanentemente perseguido, e aperfeiçoado. Como os terroristas mais bárbaros e covardes, ficam contra as eleições no Iraque, só por causa da presença americana na área. Claro, uma democracia imposta, é uma contradição em termos, mas é muito melhor do que qualquer ditadura, sobretudo as ditaduras teocráticas. E, melhor, o povo votou maciçamente, apesar das ameaças dos fundamentalistas islâmicos. A esse respeito, depois da Segunda Guerra, não foram os norte-americanos que impuseram a democracia no Japão? Aliás, não só a democracia, mas também a reforma agrária, que ademais é uma coisa tão capitalista, como a invenção das fábricas. Ser contra só porque os norte-americanos estão metidos na coisa? E aliás, o que mais me irrita é esse antiamericanismo de botequim. E, pasmem, o antiamericanismo tournou-se popular. Um dia desses, um amigo meu, padeiro de profissão, me confirmaria que todo americano é ladrão. Calado estava, calado fiquei, pois, para os padrões esquerdistas, claro, o padeiro é mais progressista do que eu. Porém, o velho Marx não pensava assim, pois achava progressista a intervenção de países imperialistas na Ásia, África ou mesmo na América. Em relação às Américas, o velho Marx torcia descaradamente pelo norte capitalista e burguês, contra o sul escravagista e pré-capitalista. Em outros termos, quem é ou já foi marxista sabe, que logicamente, o capitalismo é infinitamente mais progressista do que qualquer sociedade pré-capitalista. Por isso que seria mais racional para os esquerdistas brasileiros defenderem o capitalismo no Brasil, pelo menos nas regiões mais atrasadas. Mas acho que muitos nem leram o manifesto comunista. Antigamente, se lia pouco e mal o marxismo. Hoje nem mais se lê, é tudo, ou quase tudo clichê.

Quando vejo as figuras que frequentaram o fórum de Porto Alegre, me vem uma trsiteza danada. O ídolo de muitos é o truculento coronel venezuelano Hugo Chávez, e grande parte dos esquerdistas ainda amam Che Guevara, Fidel Castro e Companhia limitada. A democracia para essa gente é coisa da burguesia, e tudo que vem dos EUA é ruim. O interessante é que, quase todos usam jeans, e gostam de rock. Ou seja, tem uma cultura muito influenciada pelo que existe talvez de pior na sociedade dos imperialistas ianques. E, certamente, todos adoram consumir, e claro, também passar protestando contra as injustiças do mundo. Não que elas tenham acabado. Mas estas receitas há muito tempo estão devidamente vencidas nos caminhos tortuosos da história.

Nesta crise de identidade e paradigmas, Lula está é certo de navegar nos preceitos da política econômica mais conservadora, seguindo à direita do governo Fernando Henrique. Afinal, não se tem outra saída, e, creio, que o maior mérito do governo Lula é ele ter traído estas esquerdas sem rumo e sem prumo. E, covenhamos, cada vez mais daqui pra frente vai ser difícil segurar essa turma, pois, afinal, os cargos já estão preenchidos. Como sabemos, precisamos de capitalismo, e no nosso país o maior empecilho para o crescimento capitalista, ainda é o estado, com seus impostos fajutos, péssimo serviço público e educação sucateada.

Se Lula acreditar no capitalismo brasileiro certamente está reeleito. Se não, será mais um Sarney de barbas. E se for marxista, mesmo de cartilha, tomará conhecimento da importância do crescimento do chamado capitalismo globalizado aqui no Brasil. Afinal, basta de pobreza. Se fizer ao contrário, Deus nos acuda.