Garanhuns, 12 de fevereiro de 2005
  Início
  Colunas
  Opinião
  Política
  Cidade
  Geral
  Ed. Anteriores
  Expediente
 
OPINIÃO
 

Garanhuns e o Paradigma Cultura

Nivaldo Tenório


Nunca se falou tanto, como ultimamente se tem falado, em paradigma ou identidade cultural. Antes uma discussão de escritores preocupados com os referenciais que identificam a cidade e que, portanto, devem ser marca indelével de sua obra porque acentua a originalidade e evidencia o artista não dissociado de suas raízes, hoje parece mover até mesmo uma grande parcela de comerciantes, hoteleiros, donos de restaurantes e pessoas outras preocupadas com o destino econômico de nossa cidade.

Tudo isso é compreensível e encontra resposta na perplexidade. Pois é, olhamos ao nosso redor e tomamos um susto quando percebemos que cidades, algumas até menores e antes sem perspectivas, dão-nos uma rasteira e começam a ser motivo de comentário geral porque encontraram ou identificaram o tal paradigma cultural, e assim sendo crescem, aparecem e até passam a viver dessa tal identidade; explorando suas possibilidades, quer seja através do comércio, produzindo, confeccionando e vendendo artesanato e outros produtos, ou do turismo, explorando o clima da cidade, suas reservas, arquitetura ou situação histórica.

Isso não é nenhuma novidade, todo mundo sabe que tais questões não são absolutamente de segunda ordem ou supérfluas. Preocupar-se com a cultura de um país, região ou cidade, é sinônimo de assegurar melhores condições para os viventes, seus habitantes e só mesmo alguém indiferente ou louco para não perceber isso.

E é porque muitos por aqui não percebem a importância de tais questões (sabe-se lá Deus se pelas razões já apresentadas ou burrice mesmo) é que Garanhuns tem ultimamente perdido até mesmo alguns de seus mais famosos lemas. Por exemplo, não somos mais a Suíça Pernambucana, perdemos o lema para uma cidade 400 metros mais baixa do que a nossa. A razão? Simples, em Gravatá (a mais novíssima Suíça Pernambucana) há quem se preocupe em forjar e explorar o tal paradigma cultural, sabe que sem isso ninguém consegue chamar a atenção de turista interessado em gastar dinheiro.

A visão empreendedora de alguns de nossos mais diletos empresários é quase hilária, e isso é patente, basta entrar na maioria de nossos melhores hotéis. É tudo na cerâmica. Numa cidade fria e autodenominada Suíça Pernambucana, o sujeito corre o risco de morrer petrificado se encostar o solado descalço de seu pé no chão frio. É preciso entender que o turista vem pra cá atraído pelo frio, e não porque deseje morrer de frio. O ingrediente (Deus que me perdoe essa minha insistência em tratar do óbvio) está na atmosfera produzida pelo estigma de cidade do frio e o imaginário que se pode depreender daí.

Alguém dirá: e o Festival de Inverno? Pois é, o FIG, hoje mais uma das atrações do tal circuito do frio já caminha para sua décima quinta edição, e eu me pergunto: o que construímos? Tudo bem, concordo que durante o período de festa devemos contar aqui com alguns turistas e o comércio deve vender um pouco mais do que normalmente vende em períodos outros. Sim, mas... e depois? Desmonta-se o circo, embrulha-se tudo e lá se vai a FUNDARPE de volta para Recife tratando já de esquecer Garanhuns por mais um ano, pelo menos. E o resto do ano nos acompanha o mais completo marasmo.

Eu quero acreditar que nossa cidade tem potencial suficiente para viver, produzir e crescer independentemente do Festival de Inverno. Nada contra o FIG, gosto mesmo dele, só não acho que seja a única opção, e nesse particular, é bom lembrar, notamos algo um tanto quanto paradoxal: talvez o leitor não reparou ainda, mas nem o FIG nem a Garanheta são eventos tipicamente nossos, são alienígenas; a Garanheta, com seus dinossauros mecânicos expelindo monóxido de carbono e tronitroando uma música babélica é coisa lá da Bahia e o Festival, embora idealizado por gente daqui, é obra e arte da FUNDARPE. Garanhuns não realiza nada (pelo menos nada de fato relevante) que possa dizer-se tipicamente seu, e eu não estou me referindo a festas folclóricas, se não tem tradição, paciência, cria-se alternativas, o que não pode é deixar de explorar o potencial turístico e outras formas de desenvolvimento.

É preciso investir, criar possibilidades. Somos a terra de Luis Jardim e Ruber van der Linden (um dos homens mais empreendedores de seu tempo), temos os mais tradicionais colégios da região e o Presidente da República tem Garanhuns em seu registro de nascimento. Idéias existem, basta se organizar e vencer a indolência. Por exemplo, por que não criar aqui um Encontro de Escritores?Durante um determinado tempo, três dias, talvez mais, pessoas interessadas migrariam para Garanhuns, se hospedariam em nossos hotéis, comeriam a nossa comida e gastariam aqui seu rico dinheirinho. Eu sei, ninguém precisa me dizer, a idéia não é muito original, e daí? Excetuando Recife que esporadicamente reúne escritores de lá mesmo para papearam, num encontro sem muita expressão e até modesto, a cidade mais próxima que de fato vem investindo num evento dessa natureza fica no Rio de Janeiro, e foi lá, em Parati, prestigiando sua Festa Literária Internacional, que encontrei gente de Olinda, Maceió, João Pessoa e outras localidades próximas de Garanhuns. E aqui pra nós, Parati é bonitinha, tem lá seu razoável patrimônio histórico e uma paisagem natural de encher os olhos, mas quem fez a diferença mesmo foi gente que identificou o tal paradigma cultural e vem sabendo explora-lo.

E Garanhuns, não é bonita? Não tem paradigma cultural? Não tem, ou ninguém tá nem aí pra descobrir e explora-lo? E original por original, foi em Garanhuns, em 1901 que aconteceu um dos primeiros Congressos Literários do Nordeste, 102 anos antes de Parati.

O Encontro de Escritores é só uma idéia que poderia acontecer num período diferente do Festival e também atrair a atenção de turistas. Uma vez ganhando notoriedade, estamos feitos, talvez sejamos capazes até de reeditar a obra do hoje, completamente esquecido, Luis Jardim.

O Encontro, como eu disse, é só uma idéia, muitas outras existem como utilizar nossos parques para realização de festivais musicais de rock, Jazz, música popular ou erudita, por que não? Vamos pensar grande, abaixo a ditadura da mídia que subestima o povo e lhe faz descer goela abaixo tudo aquilo que é ruim, medíocre ou vulgar. Vamos nos mobilizar, criar mecanismos, solicitar a ajuda de empresários que construíram seu patrimônio aqui e tudo devem à terra de Simôa. Um pouco de vontade política também ajuda e também investir em nossa auto-estima. Garanhuns perdeu tanto nas últimas décadas que o garanhuense, não obstante amar sua cidade, personifica hoje uma espécie de fatalismo que só encontra resposta no suicídio coletivo. Abaixo a indolência e o pessimismo, viva Garanhuns!