|
Garanhuns e o Paradigma Cultura
Nivaldo Tenório
Nunca se falou tanto, como ultimamente se tem falado, em paradigma
ou identidade cultural. Antes uma discussão de escritores
preocupados com os referenciais que identificam a cidade e que,
portanto, devem ser marca indelével de sua obra porque acentua
a originalidade e evidencia o artista não dissociado de suas
raízes, hoje parece mover até mesmo uma grande parcela
de comerciantes, hoteleiros, donos de restaurantes e pessoas outras
preocupadas com o destino econômico de nossa cidade.
Tudo isso é compreensível e encontra resposta na
perplexidade. Pois é, olhamos ao nosso redor e tomamos um
susto quando percebemos que cidades, algumas até menores
e antes sem perspectivas, dão-nos uma rasteira e começam
a ser motivo de comentário geral porque encontraram ou identificaram
o tal paradigma cultural, e assim sendo crescem, aparecem e até
passam a viver dessa tal identidade; explorando suas possibilidades,
quer seja através do comércio, produzindo, confeccionando
e vendendo artesanato e outros produtos, ou do turismo, explorando
o clima da cidade, suas reservas, arquitetura ou situação
histórica.
Isso não é nenhuma novidade, todo mundo sabe que
tais questões não são absolutamente de segunda
ordem ou supérfluas. Preocupar-se com a cultura de um país,
região ou cidade, é sinônimo de assegurar melhores
condições para os viventes, seus habitantes e só
mesmo alguém indiferente ou louco para não perceber
isso.
E é porque muitos por aqui não percebem a importância
de tais questões (sabe-se lá Deus se pelas razões
já apresentadas ou burrice mesmo) é que Garanhuns
tem ultimamente perdido até mesmo alguns de seus mais famosos
lemas. Por exemplo, não somos mais a Suíça
Pernambucana, perdemos o lema para uma cidade 400 metros mais baixa
do que a nossa. A razão? Simples, em Gravatá (a mais
novíssima Suíça Pernambucana) há quem
se preocupe em forjar e explorar o tal paradigma cultural, sabe
que sem isso ninguém consegue chamar a atenção
de turista interessado em gastar dinheiro.
A visão empreendedora de alguns de nossos mais diletos empresários
é quase hilária, e isso é patente, basta entrar
na maioria de nossos melhores hotéis. É tudo na cerâmica.
Numa cidade fria e autodenominada Suíça Pernambucana,
o sujeito corre o risco de morrer petrificado se encostar o solado
descalço de seu pé no chão frio. É preciso
entender que o turista vem pra cá atraído pelo frio,
e não porque deseje morrer de frio. O ingrediente (Deus que
me perdoe essa minha insistência em tratar do óbvio)
está na atmosfera produzida pelo estigma de cidade do frio
e o imaginário que se pode depreender daí.
Alguém dirá: e o Festival de Inverno? Pois é,
o FIG, hoje mais uma das atrações do tal circuito
do frio já caminha para sua décima quinta edição,
e eu me pergunto: o que construímos? Tudo bem, concordo que
durante o período de festa devemos contar aqui com alguns
turistas e o comércio deve vender um pouco mais do que normalmente
vende em períodos outros. Sim, mas... e depois? Desmonta-se
o circo, embrulha-se tudo e lá se vai a FUNDARPE de volta
para Recife tratando já de esquecer Garanhuns por mais um
ano, pelo menos. E o resto do ano nos acompanha o mais completo
marasmo.
Eu quero acreditar que nossa cidade tem potencial suficiente para
viver, produzir e crescer independentemente do Festival de Inverno.
Nada contra o FIG, gosto mesmo dele, só não acho que
seja a única opção, e nesse particular, é
bom lembrar, notamos algo um tanto quanto paradoxal: talvez o leitor
não reparou ainda, mas nem o FIG nem a Garanheta são
eventos tipicamente nossos, são alienígenas; a Garanheta,
com seus dinossauros mecânicos expelindo monóxido de
carbono e tronitroando uma música babélica é
coisa lá da Bahia e o Festival, embora idealizado por gente
daqui, é obra e arte da FUNDARPE. Garanhuns não realiza
nada (pelo menos nada de fato relevante) que possa dizer-se tipicamente
seu, e eu não estou me referindo a festas folclóricas,
se não tem tradição, paciência, cria-se
alternativas, o que não pode é deixar de explorar
o potencial turístico e outras formas de desenvolvimento.
É preciso investir, criar possibilidades. Somos a terra
de Luis Jardim e Ruber van der Linden (um dos homens mais empreendedores
de seu tempo), temos os mais tradicionais colégios da região
e o Presidente da República tem Garanhuns em seu registro
de nascimento. Idéias existem, basta se organizar e vencer
a indolência. Por exemplo, por que não criar aqui um
Encontro de Escritores?Durante um determinado tempo, três
dias, talvez mais, pessoas interessadas migrariam para Garanhuns,
se hospedariam em nossos hotéis, comeriam a nossa comida
e gastariam aqui seu rico dinheirinho. Eu sei, ninguém precisa
me dizer, a idéia não é muito original, e daí?
Excetuando Recife que esporadicamente reúne escritores de
lá mesmo para papearam, num encontro sem muita expressão
e até modesto, a cidade mais próxima que de fato vem
investindo num evento dessa natureza fica no Rio de Janeiro, e foi
lá, em Parati, prestigiando sua Festa Literária Internacional,
que encontrei gente de Olinda, Maceió, João Pessoa
e outras localidades próximas de Garanhuns. E aqui pra nós,
Parati é bonitinha, tem lá seu razoável patrimônio
histórico e uma paisagem natural de encher os olhos, mas
quem fez a diferença mesmo foi gente que identificou o tal
paradigma cultural e vem sabendo explora-lo.
E Garanhuns, não é bonita? Não tem paradigma
cultural? Não tem, ou ninguém tá nem aí
pra descobrir e explora-lo? E original por original, foi em Garanhuns,
em 1901 que aconteceu um dos primeiros Congressos Literários
do Nordeste, 102 anos antes de Parati.
O Encontro de Escritores é só uma idéia que
poderia acontecer num período diferente do Festival e também
atrair a atenção de turistas. Uma vez ganhando notoriedade,
estamos feitos, talvez sejamos capazes até de reeditar a
obra do hoje, completamente esquecido, Luis Jardim.
O Encontro, como eu disse, é só uma idéia,
muitas outras existem como utilizar nossos parques para realização
de festivais musicais de rock, Jazz, música popular ou erudita,
por que não? Vamos pensar grande, abaixo a ditadura da mídia
que subestima o povo e lhe faz descer goela abaixo tudo aquilo que
é ruim, medíocre ou vulgar. Vamos nos mobilizar, criar
mecanismos, solicitar a ajuda de empresários que construíram
seu patrimônio aqui e tudo devem à terra de Simôa.
Um pouco de vontade política também ajuda e também
investir em nossa auto-estima. Garanhuns perdeu tanto nas últimas
décadas que o garanhuense, não obstante amar sua cidade,
personifica hoje uma espécie de fatalismo que só encontra
resposta no suicídio coletivo. Abaixo a indolência
e o pessimismo, viva Garanhuns!
|