Garanhuns, 22 de janeiro de 2005
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OPINIÃO
 

A Livraria

Nivaldo Tenório


"Mais um bar? Pra que tanta livraria?"
Zé Catão


Bem, vejamos: vocês devem conhecer o Paulo da Banca Avenida, um sujeito meio calado e com uma expressão sempre presente de quem parece carregar o mundo sobre as costas. É, de fato Paulo não é de muito sorrir e demonstrar sua indelével satisfação para com o mundo. Paciência, ninguém é perfeito. Uma coisa, porém, tem o Paulo que o redime de seus defeitos: uma vontade tresloucada de montar uma livraria em Garanhuns. Todo mundo sabe que melhor do que uma livraria é um bar, e muitos foram aqueles (seus amigos) que o advertiram, mas o Paulo não tem jeito, é meio assim como Prometeu, compra uma briga com os deuses se for preciso, mas não deixa de fornecer um pouco de luz aos homens todos.

Já tentou uma vez. Quem não se lembra da visão maravilhosa de estantes empilhadas de livros que se descortinava para quem tirava um tempo de seu atribulado cotidiano e arriscava uma escapadela até a República do Café? Aliás, uma mistura feliz: café e livraria. Seria outra coisa Garanhuns se os homens daqui que tem dinheiro no bolso também tivessem bom gosto e uma visão empreendedora. Isso, entretanto, é pedir demais, o Paulo, pelo menos, não tem dinheiro no bolso, mas sobra-lhe de visão empreendedora.

Pois é, a tal livraria não deu certo, as vendas não atenderam as expectativas e o dinheiro não foi suficiente para as despesas de aluguel e folha de pagamento. A livraria ainda resistiu seis ou oito meses (foi insistente o Paulo) durante aquele pequeno espaço de tempo dir-se-ia até que Garanhuns era de fato uma cidade com inclinação artístico-cultural. Tomar o café e adivinhar o contato com os livros foi algo que decerto a muitos seduziu.

Passou. Todos esqueceram e Garanhuns uma vez mais legitimou sua sina de cidade do "já teve". Paulo, porém, não esqueceu e uma vez mais se predispõe ao seu mais arrojado empreendimento: montar em nossa cidade uma livraria. Desta vez, amadurecido da última experiência, elaborou um novo projeto e apresenta a livraria não apenas como um ponto de compra e venda de livros, (que já seria grande coisa) mas como algo que se constitui em ponto de cultura.

Explicamos: para que a livraria não tenha a mesma sina que a outra que esbarrou na impossibilidade de pagar o aluguel do prédio porque pequeno foi o lucro da venda dos livros (infelizmente uma parcela significativa da nossa gente não lê; cega e analfabeta habita ainda a caverna de Platão) uma grande idéia teve o Paulo: ao invés de montar a livraria em um prédio da avenida e ser obrigado a fechar por falta do pagamento do aluguel, seria construído um chalé, desses que já vimos montados por ai, alguma coisa muito bem feita, com a melhor madeira e feita por gente que sabe, tudo isso a cargo do Paulo. A Prefeitura, assim como já concedeu à banca de revistas ou barraca de sorvete, também concederia licença para funcionamento da livraria.

Uma vez erguida a livraria em plena avenida, um espaço seria reservado só para autores, escritores e poetas de Garanhuns, ali poderiam acontecer eventos e de fato se constituir em ponto de cultura. A pessoa encarregada da venda dos livros (também sob responsabilidade de Paulo) poderia prestar informações ao turista sobre o que se ver na cidade: localidades, parques, hotéis, etc.

E é isso, o projeto de Paulo é bom porque atende suas necessidades de pequeno empresário e porque ao mesmo tempo presta um grande serviço à cidade. Seria muito bom, depois de muitos anos, poder de novo contar com uma livraria. Torçamos para que os homens bem intencionados desta cidade possam ajudar o carrancudo Paulo em sua empreitada. E talvez, quem sabe, o janeiro das bibliotecas de portas fechadas possa ainda nos surpreender.