Garanhuns, 22 de janeiro de 2005
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OPINIÃO
 

Quero voltar a Garanhuns

Marcílio Reinaux


O escritor José Américo de Almeida, paraibano de quatro costados, disse certa ocasião que "Ninguém se perde no caminho da volta". O fato de que todos temos o incontido desejo de uma volta às origens, um retorno ao passado, uma visita às lembranças de memoráveis e distantes, algo como o "desaferrolhar os portões do tempo", é uma condução inerente ao homem. Mesmo não voltando no aspecto físico, volta-se com certeza em pensamentos, em sentimentos, sonhos e emoções. Como animais que têm uma natureza atávica, assim também sentimos por vezes uma necessidade, quase imperiosa, de voltamos às nossa origens. Assim, como sou por natureza um Historiador e Memorialista, quero voltar ao meu tempo de menino. Quero voltar às noites invernais de Garanhuns. Ao aconchego da minha mãe, ao colo do meu pai.

Quero correr, outra vez, na rua do Recife, a rua da minha infância. Descer a ladeira da Vila Maria, subir ao Alto do Magano, colher as pitangas e os pirins, nos sítios vizinhos. Quero ver a menina de trança descendo a ladeira do Santa Sofia. Quero vestir a farda cáqui de punhos vermelhos do Ginásio Diocesano e ouvir a voz tonitroante da professora Nísia Calda. Quero fazer os deveres de caligrafia, descrever as composições dos quadros coloridos, levar os cascudos do Padre Adelmar (que me ensinou a ser gente, que moldou a minha personalidade e formatou o meu caráter). Quero engraxar os meus sapatos para o desfile, no dia 12 e outubro e desfilar garbosamente cantando: "Alto padrão de civismo e de glória".

Quero ver "Meu Lôro", o porteiro-servente do Ginásio. Quero brincar puxando carinho-de-rua, jogar bola-de-gude, empinar papagaio, rodar pneus velhos, esticar "badoque" para os passarinhos e, pela manhã, cedinho, antes mesmo do sol nascer por traz da colina verdejante, tomar o leite fresco na vacaria do quintal do vizinho. Quero ver meus amigos de então: Edelson Dourado, Ângelo Gouveira, Salomão (Saló, neto de Seu Belarmino, o barbeiro e filho da Dona Duda, a costureira); Quero ver Flávio e Celso, filhos do grande educador, professor e dentista Mário Matos. Quero correr para a feira, na Avenida Santo Antônio, que tinha de tudo: o "Homem da Cobra", o vendedor de passarinho, o fotógrafo "Lambe-Lambe", o "raizeiro" (vendedor de ervas medicinais). Comer "caramba" (bola de açúcar) na Barraca de Tio Chiquinho e Tia Salu, com as filhas Chiquita e Rosanna. Comer alfinin, pão doce com caldo-de-cana. Ver o barbeiro da barraca, a "Feira do troca-troca". Quero rever minha madrinha Beatriz Braga, a melhor costureira de vestidos de noiva da cidade. Comer as sobremesas domingueiras da minha irmã Alcione (mulher de Pedro Maia, filho do prefeito Tomaz Maia). Quero ver as lojas com seus nomes tão familiares do comércio: "A Atrativa", "Ferreira Costa", "Banco do Povo", "Café Glória" (de Arnóbio Pinto), "Sapataria Moderna", "Mercearia Lopes", "A Sultana", "Padaria Royal" (de Zé de Souza), Farmácia Oswaldo Cruz (do Dr. Hermano Freire), "Farmácia dos Pobres", "Casa Marlene" (de Israel Pereira Lopes), "Alfaiataria Koury (de Jorge Koury). E na Avenida Santo Antônio ver as senhoras Dona Dulcina e a professor Elisa, sentada à calçada, na tardinha fria, vendo os passantes. Cumprimentado a todos.

Quero ver os amigos do meu pai, Antônio Reinaux Duarte: Pipe Dourado, Dedi Maia, Seu Câmara (da coletoria), o advogado Urbano Vitalino, Lula Branco, e os comerciantes do meu tempo de menino: Adalberto Alexandre, Duda Diletieri, os Koury, Arnóbio Pinto, Anísio Pinto, Manoel Gouveira e mais: os Vilela, os Matos, Seu Esperidião (fotógrafo), "Xixi da Música", Mané Fogueteiro, Seu Leite e a figura popular mais conhecida: o "Mudo da Estação do Trem". Mas também gostaria de rever outras figuras de outras lembranças na linha da educação e do saber: Monsenhor Callou e os bispos: Dom Moura, Dom Mário Vilas Boas, o pequenino-grande padre Godoy e o padre Tarcísio da Rua da Areia.

Ah! Mas como eu queria ver as rosas, as dálias, os crisântemos, "carinho-de-mãe", os cravos e as belíssimas violetas dos jardins da Praça Dom Moura. Ver a moldura verdejante das Sete Colinas. Nos domingos à tarde, as "matinées" do Cine Glória, com os filmes de coboy (Tim Mccoy, Buck Jones), de Tarzan, e os seriados: Flash Gordon, Mandrake e outros.

Ninguém se perde no caminho da volta. Por isso, quero voltar a Garanhuns. Voltar ao aconchego de minha mãe, eu o 14º filho dos 20 filhos de Dona Francisquinha e Moura Lins e quero sentar no colo do meu pai, Antônio Reinaux.


Marcílio Reinaux é presidente da Academia Brasileira de Cerimonial e Protocolo - ABCP, jornalista e escritor.