Garanhuns, 22 de janeiro de 2005
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OPINIÃO
 

Frevo e passo

Odete Melo de Souza


Dizer frevo, dizer passo, equivale a dizer Pernambuco, ou com mais justiça, dizer Recife. Pois, foi exatamente em nossa capital, no fim do século XIX e começo do século XX que surgiram espotaneamente essas duas incomparáveis realidades sociais de diversão e história.

Logo no início, convém fazer a diferença: frevo é a música e passo é a dança.

É impossível precisar se foi do frevo que surgiu o passo, ou se foi este que despertou a música. As duas foram se inspirando uma na outra e completaram-se.

Podemos porém, afirmar com segurança que o frevo foi invenção dos compositores de música ligeira para o Carnaval.

O passo veio naturalmente do povão, sem regra, nem mestre, como por geração espontânea.

Os músicos pensavam dar mais animação e a gente de pé no chão queria uma música barulhenta, viva que lhe convidasse ao pular, saltar, gritar, ao esperneio enfim, no meio da rua, num extravasar oportuno daquilo que estava no seu íntimo. E conseguiu!... O passo ao som do frevo ganhou características próprias e tomou conta das ruas e avenidas arrastando multidões. Era um externar impulsivo dos sentimentos do povo, das massas...

Foi a capoeira do recife o ancesntral do passo, segundo o magistral pernambucano Valdemar de Oliveira.

O passo se expandiu sem copiar nada de outras danças e nem mesmo repetir o que já havia exibido antes em outras ocasiões. Tudo era improviso!... É verdade que depois foi se condicionando um título a um certo tipo de coreografia, como "tesoura", "saca-rolha", "chã de barriguinha" etc, conforme o jogo dos pés, pernas e de todo o corpo.

O frevo é uma mistura do dobrado, maxixe, modinha, quadrilha, etc.

Aos poucos o frevo de rua foi penetrando nos salões dos clubes arsitocráticos das cidades e surgindo os tão sentimentais frevos-canção e ainda, começaram a se organizar os blocos de rua, compostos por pessoas de classe social mais elevada, aparecendo os chamados frevos de bloco.

Entretanto, a palavra frevo veio bem mais tarde.

Os criativos pernambucanos compararam aquela incontida e agitada animação do povo da rua, pulando desordenada e impetuosamente, numa coreografia espontânea, viva e diferente à conhecida fervura dos tachos de mel nos engenhos de açúcar. E diziam, está tudo frevendo!... Aí vem o frevo.

E assim, da corruptela de ferver veio frever e conseqüentemente o frevo, palavra consagrada nos dicionários entre esses o Dicionário de Brasileirismos.

No passo não podemos esquecer a sombrinha cujo uso há várias versões como proteção ao sol, reminiscência dos pálios africanos, equilíbrio para o passista, etc.

Hoje a sombrinha é indispensável, dando graça e habilidade ao coreógrafo carnavalesco.

O frevo é o ritmo característico e tradicional da maior festa pernambucana: o Carnaval. Neste, unifica os segmentos sociais, irmaniza as pessoas, fraterniza as sociedades.

Não há folião ou não folião que resista aos acordes do trombone anunciando a abertura do reinado momesco com o tradicional hino de Zé Pereira, sem movimentar o corpo carnavalescamente. O frevo realmente desperta tudo de animação e alegria que está latente no pensamento, na alma e no coração dos pernambucos, levando-os ao delírio do passo.

O frevo não pode desaparecer nem ser absorvido por ritmos de outras regiões brasileiras como a Bahia.

As emissoras de rádio deveriam reservar diariamente um horário ao frevo.

Nas escolas, o frevo e o passo deveriam ser objeto de estudo pelos alunos.

O frevo afoga as mágoas e rejuvenesce as pessoas,

O frevo é a expressão máxima da nossa cultura popular.

O frevo é inigualável, sublime e segundo o grande escritor pernambucano Austro Costa, se até Roma fosse o frevo, teria a bênção papal.