Garanhuns, 22 de janeiro de 2005
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CULTURA
 

Crônicas Fraturadas

Hélder Herik


Carta à Beethoven

"Eu me tomo de
paciência e penso:
Todo o mal traz, em si
mesmo, um bem qualquer"
(Ludwig van Beethoven)


Meu caro Ludwig, após ler sua última carta, e é terrível dizer isso, senti pela humanidade, afora os meus próximos, uma ogeriza massacrante. Está certo que nós, latinos, temos por nossos semelhantes uma admiração terna por apenas este se encontrar de pé, esguio e trópego é verdade ou talvez seria melhor dizer que temos afeto por aquele que vive se equilibrando. Nós, latinos, temos sentimentos até por nossas feridas.

Mas, sabendo nque você, que é tão superior ao humano normal, que é gênio de seu tempo sofra ao comentário de leigos, de bárbaros aristocráticos metidos em ternos bem cortados. Você é homem para frente da história, é da raça de nossos bois valentes, você arromba cerca Ludwig.

Sua música é para as pessoas que amam, que nutrem bons sentimentos. Para o homem e a mulher apaixonados. Para a mãe que perde o filho robusto para essa guerra de Grusdrich. É também música para os espíritos apressados, para essa nova juventude de revoluções; essa juventude que parece nascer do vento. Sua música, meu caro Ludwig, é para o humano que tem humanidades.

Se alguém disser o contrário destas palavras diga que ele tem razão, diga que a sua música é o que ele quiser. Não se rebaixe a querer explicar a gênese de sua arte. Você não é pedagogo.

Você deve saber que Vivald foi talvez o compositor mais esquecido da Itália, pois veja que seu gênio não se abateu. Vivald compunha para si, para seu espírito de padre. Ludwig, componha para si, para seu amor e sua agonia, deixe a ralé à fossa. Acaso és um padeiro que faz pão para o bairro, e que deixa o pão menos tempo ao forno, se te pedem, ou mais tempo se o querem tostado. Se fizeres como o padeiro só te restará os pães rejeitados.

O que talvez me atormente, meu caro Ludwig, é que o teu sustento provém da tua arte. Se fosses com Michelângelo, se tivesses um merdénas que te suprisse a falta, mas és como uma vaca leiteira, vives se dás leite.

Espero que esta carta o encontre vigoroso, com nos velhos tempos em Bonn, onde uma criatura mais conservadora te reprimia os cabelos desgrenados, a falta de jeito com este, e tu, em tua malícia superior, o encarava, encarava firme como se fosse matar, e avultava teus cabelos, puxava até arrancar uns fiapos e o fazia aceitar, constrangendo-o.

Como te fará bem tua superioridade.

Li seu poema "Para Teus Olhos Um Jardim" é cheio de bons sentimentos e as rimas são muito boas, deveras, mas eu o prefiro prosador. Veja que sua última carta, que me dói na alma, mas não a amarga é uma beleza.

Você é um homem de revelações, segue a prosa e ela te dará isso. Deixa a poesia para a sua música.

Te envio dois poemas. Não são lá coisa alguma. Envio mais para fazer volume a esta carta miúda. Obrigado pelo broche, como soube que gosto de elefantes? Sabias que estes animais são dóceis como gatos? Pena não poder criar em meu estofado.

Até mais Ludwig, não esqueça de caminhar pela manhã, vá a rua somente pela manhã, o sol da tarde não lhe faz bem.

Um abraço com estima: Helder